Filme do Dia: Chapeleiros (1983), Adrian Cooper

 


Chapeleiros (Brasil, 1983). Direção e Fotografia Adrian Cooper. Montagem Walter Rogério.

Já os primeiros planos nos fazem imaginar uma abordagem heterodoxa de sua proposta documental, sobretudo em relação ao que era produzido à época. Corpos, que muitas vezes parecem se encontrar dispostos em um morgue, de trabalhadores em seu momento de descanso – no último plano desta sequência, o olhar de alguém que acorda e demonstra alguma coisa como um tímido estranhamento de estar sendo filmado naquela situação. Há uma dimensão pictórica na maior parte destas imagens iniciais, inclusive na forma como enquadra os corpos, por vezes destacando apenas as extremidades, como os pés. Ou observando os trabalhadores pelo que inicialmente se pode pensar ser uma espécie de fresta “cavada” entre as engrenagens, mas que se virá  descobrir se tratar de um reflexo em um espelho com uma extremidade quebrada. Os homens que trabalham próximos do material em tecido  fumegante que se tornará chapéu no final da linha de produção, não vestem camisas, para aliviar o calor, e muitos apenas calções esportivos. Uma saída da fábrica, ao invés de apresenta-la a partir de uma câmera distanciada, como faz o célebre filme dos Lumière, apresenta um plano fechado, em que se divisa bem os operários (uma deles cobre o rosto), em uma dinâmica rápida, propiciada por uma série de cortes abruptos. Uma placa ganha destaque e se torna um comentário que pode substituir diversos sons e imagens, uma locução over por exemplo (ausente deste filme, como se imagina desde o início, realizado por um requisitado diretor de fotografia): trata-se de uma fábrica antiga, como demonstra o português da época, apresentando as regras que deveriam ser seguidas pelos operários. E o que filme deixa subliminar é que talvez as práticas fabris não tenham mudado tanto assim desde àquela época. Se a estetização (uso de ângulos, montagem, trilha musical fazendo uso de música clássica, apurado trabalho sonoro a partir do uso restrito do som direto) em contraposição a rotina de trabalho fabril pesado não chega a ser problemático, a filmagem, sobretudo dos momentos de descanso ou não trabalho (um dos operários comendo seu almoço em uma panela, dormindo em condições amplamente desfavoráveis, voltando a surgir imagens tais como as do início) contém com certa resistência calada de quem é filmado em uma proposta que provavelmente  não contou com o tempo de proximidade antropológica que tornasse tal prática menos voyeurista, ao mesmo tempo trazendo uma dimensão de crítica social embutida. Em ao menos uma destas imagens o caráter de duplicação de que já são objeto (e o eram provavelmente com ainda mais rigor no passado, como afirma uma das regras sobre deixarem todos os objetos pessoais no vestiário), em termos de controle e vigilância se destaca, em uma imagem relativamente discreta de um dedo apontado por uma garota negra contra a câmera que filma a saída dos funcionários. Esta sequência, aliás a mais longa do filme, observa esta saída a partir do gestual repetido de ações em que a câmera se foca a determinado momento, seja pegando uma fichinha que será depositada mais adiante (observamos com detenção tais ações em ordem invertida) ou simplesmente conversando com os colegas, lançando olhares para a objetiva e a evitando nestas tomadas de um caráter warholiano. Por um fim, uma pequena graça em relação ao topo fálico de uma das chaminés da fábrica, ocupando a centralidade ou a margem do quadro com o movimento da câmera.| Tatu Filmes para Cinema Distribuição Independente. 24 minutos e 40 segundos.

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