Filme do Dia: Elvis (2022), Baz Luhrmann

 


Elvis (EUA/Austrália, 2022). Direção Baz Luhrmann. Rot. Original Baz Luhrmann, Sam Bromell, Craig Pearce & Jeremy Donner, partindo do argumento de Luhrmann & Doner. Fotografia Mandy Walker. Música Elliott Wheeler. Montagem Jonathan Redmond & Matt Villa. Dir. de arte Catherine Martin, Karen Murphy & Ian Gracie. Cenografia Shaun Barry, Beverley Dunn & Daniel Reader. Figurinos Catherine Martin. Com Austin Butler, Tom Hanks, Olivia DeJonge, Helen Thomson, Richard Roxburgh, Kelvin Harrison Jr., David Wenham, Kodi Smith-Mcphee.

No sul dos EUA, meados dos anos 50, o empresário musical de sucesso Tom Parker (Hanks) ouve de um de seus contratados, Jimmie Rodgers Snow (Smith-Mcphee) uma música que passa a ganhar destaque nas rádios, It’s All Right, Mama, com um branco que canta como negro, Elvis Presley (Butler). E assiste fascinado uma apresentação do artista, no qual as mulheres gritam, choram e rasgam a roupa do seu novo ídolo. Consegue não somente contratá-lo, como também afastá-lo de suas influências da música negra, inclusive na forma considerada escandalosa de dançar à época. Elvis, rapidamente enriquecido com sua explosão nacional, compra uma mansão colonial, Graceland, para sua adorada e geniosa mãe, Gladys (Thomson) . E esta discorda profundamente da maneira como Parker, e os “os homens de Nova York” buscam manipulá-lo, vestindo-o em smoking e buscando evitar seus requebros no palco, sob a suposta ameaça dele vir a ser preso. Porém, após uma apresentação dentro deste modelo bem comportado na TV, e sob as súplicas de seus fãs, Elvis desconsidera as orientações de Parker e em seu maior show até então, para dez mil pessoas, volta a sua endiabrada presença de palco, deixando o público enlouquecido e provocando uma série de atritos dos presentes com os policiais. Parker consegue que Presley corte o cabelo e se aliste no exército e, ao retornar, torne-se um astro de sucesso em Hollywood. Em 1968, no entanto, o ídolo sente-se decadente e repetitivo e, em um programa de TV gravado, não segue o script imposto por um dos patrocinadores e de Parker, voltando a ter grande destaque. Na década seguinte, Elvis ficará preso a influência de Parker para vários anos de temporadas de apresentações em um hotel-cassino de Las Vegas. Seu desejo, no entanto, é de realizar uma turnê internacional, com a qual Parker não concorda, alegando motivos de segurança. Após mais de 800 apresentações, Presley se rebela contra Parker, e deixa isto evidente para o público ao final de um dos espetáculos. Porém, uma vez mais pressionado pelas dívidas cobradas por Parker ao pai de Elvis, Venon (Roxburgh), Elvis retorna as apresentações e uma turnê pelos Estados Unidos, abandonando os planos de uma turnê internacional, e cada vez mais debilitado pelo uso de drogas.

O estilo visual carregado e over de Luhrmann, muito presente, é incapaz de assegurar um tratamento menos subserviente à biografia de Presley, seja por temer processos legais, seja pela mitologia quase religiosa a carregar sua fama, sobretudo nos Estados Unidos. E, por outro lado, enfatiza o psicologizante como explicação quase didática para os tormentos vividos pelo cantor durante toda sua vida. De uma relação profundamente edipiana, passa-se ao vínculo a um agente controverso, do qual nem mesmo o nome e nacionalidade certa eram asseguradas e, pior no quesito em questão, bastante manipulador emocional e financeiramente. Em ambos os casos, tais relações eram marcadas (sobretudo a materna) com uma duplicidade de sentimentos a envolverem um amor quase devocional e profundas e autoritárias pressões a interferirem fortemente em sua carreira. Esta parece oscilar do início ao final entre uma maior adequação aos ditames conservadores de determinado público e patrocinadores com um retorno da rebeldia represada de matriz mais tipicamente sulista e negra, apresentando em não pouca conta a deferência de Presley para com a mesma, em um típico viés cômodo contemporâneo à sua produção, de setores progressistas, mas sem deixar de exaltar que o sucesso disruptivo do cantor somente se deu por seu diferencial de ser uma espécie de “branco com alma negra”. No mais seu estilo visual carregado de referências, e em montagem vertiginosa, em estilo videoclipe, típico de Luhrmann e mais atuante em sua primeira metade, nem embarca por completo (ou nos faz embarcar) nos dramas vivenciados, provocando alguma alienação do que é apresentado e ressaltando seu próprio caráter de espetáculo fabricado, nem tampouco dispensa um forte receituário típico do modelo mais convencional, inclusivo o psicologismo acima referido, deixando de forma quase marginal em sua moldura a sua longeva relação com Priscilla Presley, não por acaso ainda viva e apoiadora da produção. Referências de época, como os impactantes assassinatos de Luther King, Bob Kennedy e Sharon Tate são tratadps de forma trivial, assim como outros (Guerra do Vietnã, Beatles, movimento hippie, etc.). E tampouco menos convencional é o cansativo modo de se caracterizar os personagens por suas aproximação com os retratados ou seus gestos, havendo desde um forte processo de caracterização/maquiagem e talvez efeitos digitais na composição da figura de Tom Parker, vivida por Hanks, inclusive na forma de pronunciar os diálogos até o gestual do mito, e como numa acepção mundana de um mito religioso, com uma liturgia também própria, incluindo os ajoelhamentos com abertura de uma capa sobre os ombros, por exemplo, que com a passagem do tempo, e a decadência que o levaria à morte, podendo se tornar tão proto-esquizofrênicos quanto os de uma Bela Lugosi ou Marilyn Monroe; no caso da segunda também motivo de uma produção de porte também correspondentemente inédito na indústria como esta, na mesma época, com Blonde. Apesar de sua montagem dinâmica, não beneficia-se de sua metragem excessiva. |Bazmark Films/Roadshow Ent./The Jackal Group/Whalerock Ind. Para Warner Bros. 149 minutos.

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