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sexta-feira, 31 de março de 2017

The Film Handbook#121: Volker Schlöndorff



Volker Schlöndorff
Nascimento: 31/03/1939, Wiesbaden, Alemanha
Carreira (como realizador): 1960-

Comparado a seus compatriotas mais conhecidos, Volker Schlöndorff pode parecer um mero artesão com pouca personalidade artística. Sob o frequentemente lustroso requinte de seus filmes, no entanto, reside um permanente interesse nas relações dos rebeldes e marginais de uma sociedade repressora.

Após estudar cinema em Paris, Schlöndorff ganhou experiência em realização como assistente de Malle, Resnais e, mais notavelmente, Melville; mesmo tendo realizado o curta Who Cares?/Wen Kümmert's em 1960, não foi senão em 1960 que dirigiria seu primeiro longa, O Jovem Törless/Der Junge Törless. Esse astudo estudo psicológico da natureza sedutora da crueldade, ambientado em um internato alemão de disciplina rígida  na virada do século, foi baseado em um livro de Robert Musil, sendo o primeiro das muitas adaptações literárias efetivadas por Schlöndorff; mais que isso, ilustrou sua tendência a se voltar para o passado distante como forma de refletir a história alemã mais recente. Em O Tirano da Aldeia/Michael Kohlhaas - Der Rebell, uma adaptação sóbria mais apaixonada de um romance de Kleist sobre um comerciante de cavalos do século XVI que faz guerra ao mundo, a relevância da inquietação social contemporânea foi clara; em A Súbita Riqueza dos Pobres de Kombach/Der Plötzliche Reichtum der Armen Leute von Kombach>1 sobre camponeses que, em 1822, assaltam o carro dos impostos, somente para serem destruídos por sua inabilidade para lidar com a riqueza recém-encontrada, ele aponta tanto para o conservadorismo moral das classes trabalhadoras como da necessidade de uma rebelião mais coletiva que individual. O estilo visual de Schlöndorff foi aqui enfaticamente relaista quando comparado a sua obra anterior; de fato, firmemente compromissado com um ideal de cinema enquanto entretenimento inteligente, mas popular, ele tem repetidamente confiado nas formas tradicionais de narrativa, mesmo variando o seu estilo visual para se adequar ao tom e escala de seu material.

Fogo de Palha, uma narrativa feminista engenhosamente irônica da tentativa de uma mulher recém-divorciada de construir uma nova vida numa sociedade dominada pelos homens, foi tanto estrelada quanto escrita pela futura esposa e colaboradora regular de Schlöndorff, Margarethe Von Trotta. No final dos anos 70, ela embarcaria em sua própria carreira, seus melhores filmes sendo Irmãs ou a Balança da Felicidade/Schwestern oder Die Balance des Glücks, Os Anos de Chumbo/Die Bleierne Zeit e Rosa Luxemburgo/Rosa Luxemburg. Juntos, entretanto, o casal dirigiu A Honra Perdida de Katharina Blum/Die Verlorene Ehre der Katharina Blum>2, uma versão tensa, raivosa e ocasionalmente sentimental do livro mordaz de Heinrich Böll, no qual uma jovem inocente é perseguida pela imprensa de direita, após descobrirem que ela passara uma noite com um suspeito de terrorismo; a despeito de seu retrato de uma Alemanha moderna infectada pela paranóia e o preconceito, o sucesso do filme trouxe a seus realizadores notoriedade. No entanto, após o relativamente mudo Coup de Grâce/Der Fangschuss (sobre a queda de uma família aristocrática russa diante do bolchevismo) e um papel chave no filme coletivo Alemanha no Outono/Deutschland im Herbst, que lidava com a reação às recentes atividades terroristas, Schlöndorff foi capaz de realizar O Tambor/Die Blechtrommel>3, uma história épica e pessoal da Alemanha antes e durante a Guerra Mundial, observada através dos olhos de uma criança que se recusa a crescer. Ao permanecer fiel ao livro, o diretor equivocadamente optou pelo realismo: o resultado é uma impressionante, porém emocionalmente não envolvente, série de grotescos tableaux.

Filmado em locações em Beirute e descrevendo a inabilidade de um jornalista de se comprometer seja com sua esposa, seja com uma das facções na Guerra Civil, O Ocaso de um Povo/Die Falschüng>4, transcende sua natureza potencialmente ideal para uma fórmula de sua trama por meio de um roteiro irônico e complexo e uma atmosfera autenticamente ameaçadora de instabilidade social. Menos interessante tem sido o trabalho mais recente de Schlöndorff na França e nos Estados Unidos: Um Amor de Swann/Un Amour de Swann, uma condensação de Proust, foi elegantemente decorativo mas arrastado; A Morte de um Caixeiro Viajante/Death of a Salesman uma capitulação demasiado auto-reverente e teatral a peça de Arthur Miller; e A Gathering of Old Men um digno e bem intepretado mas, em última instância, previsível drama sobre a continuidade do preconceito racial e da injustiça no Sul Profundo norte-americano.

Embora as preocupações literárias e sociais de Schlöndorff permaneçam uma força guia ao longo de muito de sua obra, ele recentemente parece ter perdido a sutil mescla de equilíbrio e paixão evidente em seus melhores filmes. Ao mesmo tempo, no entanto, ele é o mais convencional e acessível dos realizadores modernos alemães, e sua tentativa de misturar política e entretenimento popular são merecedoras de atenção.

Cronologia
Pode-se detectar a influência tanto de Malle quanto de Melville na obra de Schlöndorff, que talvez possa ser mais frutíferamente comparada com a de sua esposa Margarethe Von Trotta, assim como com a de Reinhard Hauff.

Leituras Futuras
New German Cinema (Londres, 1980), de John Sandford.

Destaques
1. A Súbita Riqueza dos Pobres de Kombach, Al.Ocidental, 1970 c/Reinhard Hauff, Rainer Werner Fassbinder, Margarethe Von Trotta

2. A Honra Perdida de Katharina Blum, Al. Ocidental, 1975 c/Angela Winkler, Mario Adorf, Dieter Laser

3. O Tambor, Al. Ocidental, 1979 c/David Bennent, Angela Winkler, Mario Adorf

4. O Ocaso de um Povo, Al. Ocidental, 1981 c/Bruno Ganz, Hanna Schygulla, Jerzy Skolimowski

Texto: Andrew, Geoff. The Film Handbook. Londres: Longman, 1989, pp. 257-8.

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