Filme do Dia: V de Vingança (2005), James McTeigue
vde
Vingança (V for Vendetta, EUA/Reino Unido/Alemanha, 2005). Direção James
McTeigue. Rot. Adaptado Irmãos Wachowski, a partir de uma HQ, de David Llloyd.
Fotografia Adrian Biddle. Música Dario Marianelli. Montagem Martin Walsh. Dir.
de arte Owen Patterson & Kevin Phipps. Cenografia Peter Walpole. Figurinos
Sammy Sheldon. Com Natalie Portman, Hugo Weaving, Stephen Rea, Stephen Fry,
John Hurt, Tim Pigott-Smith, Rupert Graves, Roger Allan, Sinéad Cusack, John
Standing.
Em futuro próximo, o Reino Unido é governado por um
partido único, cuja principal liderança é um tirano a conclamar um discurso de
ódio contra homossexuais e estrangeiros, Adam Sutlor (Hurt). Evey Hammond
(Portman) teve toda sua família dizimada direta ou colateralmente por conta de
ações do Norsefire, partido autocrático. O irmão em um atentado, e os pais na
prisão por se engajarem em militância de oposição à ditadura. Ela é salva por
alguém com a máscara de Anonymous, conhecido como V (Weaving) que a faz testemunhar
a enorme implosão a corte criminal de Old Bailey, em Londres. Passa a seguir a
planejar a morte de figuras importantes vinculadas ao regime, como a
propagandista Dellia Surridge (Cusack) e, com ajuda de Evey, o Bispo de Londres
(Standing), pedófilo e corrupto. O apresentador de tv Gordon Dietrich (Fry),
satiriza Sutlor e o establishment em seu programa. Evey, que trabalha para ele
é detida, testemunhando seu grotesco assassinato. Na prisão Evey é torturada e lê mensagens de
uma condenada à morte por ser lésbica. Quando solta, Evey é aprisionada, desta
vez por V, para preserva-la de uma ação fatal do Norsefire, que a faça
involuntariamente delatar seus comparsas, coisa que não fez nem sob tortura. V
consegue fazer com que o chefe do serviço secreto, Peter Creedy traia e execute
Sutlor, sendo ele próprio morto por V, após matar todos os seus seguranças. Com
a multidão de mascarados, com máscaras idênticas a V, transformando atos de
protesto em uma verdadeira revolução, um agonizante V morre nos braços de Evey,
com seu corpo embarcando em um trem fatal que destruíra o parlamento britânico
selando o caminho para uma nova ordem.
Como regra, o cinema mainstream tem enorme
dificuldade de articular um discurso político coerente em meio ao festival de
referências díspares do universo de gênero cinematográfico, assim como da
literatura – de O Conde de Monte Cristo, em versão cinematográfica de
1934, dirigida por Rowland V. Lee ao 1984 de Orwell. Há de relance algo de uma
associação múltipla de temporalidades, incluídas de forma mais ortodoxa que em
outras obras com sua colaboração, a nos fazer evocar as obras dos então Irmãos
Wachowski, e sem nenhuma surpresa se descobre serem eles os autores do roteiro.
Portman em sua magreza agonizante e de cabeça raspada, sofrido choro a vivenciar
as sevícias na prisão, parece mais uma cópia de Sinéad O’Connor no vídeo de sua
canção mais lembrada. A direção de arte não consegue emplacar um universo
crível – mais ou menos ambientado à época da escrita desta resenha e para os
que louvam a semelhança do discurso de ódio proferido pelo personagem vivido
por Hurt – ele próprio ator de uma das versões de 1984 – em sua imagem
em tela grande, pouco inspirada e anódina, com os líderes mundiais e locais a emergirem tempos depois, há também
uma evidente referência aos regimes totalitários do passado, o Nazismo; sua
vilania algo genérica pode sim representar muito da retórica extremista que
dominaria boa parte das lideranças mundiais, mais ou menos à época ou até mesmo
pouco antes do período no qual a história se ambienta, mas a implosão do
Parlamento britânico e outras instituições como a justiça mais fortemente
sinalizariam para o mesmo “cansaço” e negação da política que geraria os
projetos autocráticos aparentemente criticados por esta produção, de metragem um
tanto excessiva, ou melhor, uma edição que não dá conta da herança rocambolesca
de Dumas & cia., a lhe mover as engrenagens narrativas. Não se trata apenas
de dificuldade de articulação de um discurso político coerente, mas da
NECESSIDADE do mesmo. Provavelmente significaria uma alienação de boa parte do
público, e a indústria normalmente não se dispõe já de largada a tais
riscos. O que acontecerá aos cidadãos
britânicos após a implosão do parlamento? Vão discutir política em Trafalgar
Square e nas suas praças locais ou se submeterão a um novo regime com boas
propensões a ser tão tirânico quanto o outro? |DC Comics/Virtual Studios/Silver
Pictures para Warner Bros. 132 minutos.![]()

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