O Dicionário Biográfico de Cinema#346: Miklós Jancsó
Miklós Jancsó (1921-2014), n. Vác, Hungria
1958: A Harangok Rómába Mentek [The Bells Have Gone to Rome]. 1960: Három Czillag [Three Stars] (co-dirigido com Karoly Wiedemann e Zoltan Varkonyi). 1963: Oldás es Kötés [Cantata]. 1964: Igy Jöttem [Meu Caminho]. 1965: Szegénylegenyek [Os sem Esperança]. 1967: Csillagosok, Katonák [Vermelhos e Brancos]. 1968: Csend és Kiáltás [Silence and Cry]. 1969: Fényes Szelek [The Confrontation]; Sirokkó [Winter Sirocco]. 1970: Egy Bárány [Agnus Dei]; La Pacifista [The Pacifist]. 1971: La Tecnica e il Rito; Meg Kér a Nép [Salmo Vermelho]. 1973: Roma Rivoule Cesare [Roma Wants Ceaser Back]. 1975: Szerelmem, Elektra [Elektreia]; Vizi Privati, Pubbliche Virtù [Vícios e Prazeres]. 1979: Allegre Barbarao Magyar Rapszodia [Hungarian Rhapsody]; Elentuket es Verunket (*). 1981: Zsarnok szive avagy Bocaccio Magyarorszagon [The Tyrant's Heart]. 1982: Omega, Omega (**). 1984: Faustus, Faustus, Faustus (TV); Muzsika [Budapest] (d). 1986: L'aube [Dawn]. 1987: Szornyek Evadja. 1988: Jezus Krisztus Horoszopja. 1992: Kék Duna Keringö. 1994: A Kövek Üzenette - Maramaros (d); A Kövek Üzenette - Hegyalja (d); Kövek Üzenette - Budapest [Message of Stone - Budapest]. 1997: Hösök Tere - Régi Búnk és...(c); Hösök Tere - Régi Búnk és...II (c); Játssz, Félix, Játssz (d); 1998: Sír a Madár (c). Nekem Lámpást adott Kezembe az Úr Pesten [Lord's Lantern in Budapest]. 2000: Anyád! A Szúnyogok. 2001: Utolsó vacsora az Arabs Szürkénél [Last Supper at the Arabian Gray Horse]. 2002: Kelj Fel, Komán, ne Aludjá [Wake Up, Mate, Don't You Sleep]. 2004: A Mohácsi Vész. 2006: Ede Megevé Ebédem. 2010: Oda az Igazság [So Much for Justice!].
Foi em 1966 que Jancsó causou uma primeira impressão com Os sem Esperança. Tão mais próximo do levante de 1956, era difícl não ver o filme como algo que surgiu de circunstâncias e experiências especificamente húngaras. Escrevendo em Sight and Sound, o crítico húngaro Robert Vas parece confirmar este sentimento: "com uma acusação inflamadamente intelectual convida os espectadores a descartar o sonho prazeroso e confortável da história romântico-heróica e encarar a realidade: negro tanto quanto branco, opressor como oprimido. Um desafio de auto-análise de um pequeno e trágico país circundado pelas mais diferentes tensões por meio das mais diferentes tensões no meio da Europa."
E é significativo que Jancsó fosse formado em Direito e em etnografia - os dois cursos sobrepostos, da mesma maneira que o desapego e o formalismo mesclam-se em sua obra. De fato, doutorou-se em direito antes da Segunda Guerra, mas fez pesquisa etnográfica na Transilvânia nos anos seguintes, mas nos primórdios dos anos 50 realizou cinejornais e mais de uma dúzia de curtas sobre temas etnográficos e artísticos.
Cantata é tido por Jancsó como seu primeiro longa. Como Meu Caminho, é uma obra de realismo poético convencional, lidando com personagens precisos e únicos. O primeiro é sobre uma crise espiritual de um jovem médico quando retorna a sua casa rural. O segundo diz respeito a um jovem húngaro, aprisionado pelos russos em 1945 e posto para trabalhar com um soldado russo cuidando de vacas. Filmes observadores e sensíveis, estes dois foram comparados com a obra de Olmi, e considerados como sinais de autenticidade espontânea e preocupação humana no cinema húngaro.
Os Sem Esperança revelou verdadeiramente Jancsó. Ontensivamente, sua base é histórica: o período após 1848 quando os soldados austríacos emboscaram, capturaram, interrogaram, torturaram e mataram um grupo de guerrilheiros húngaros. Mas o modo de apresentar estas coisas foi muito mais impressionante que o sentido não-húngaro de história húngara. Antes de tudo, Jancsó definiu a planície puzta húngara no modo como Ford mapeou o Monument Valley para ele próprio, ou Antonioni o parque londrino em Blow Up. Robert Vas viu isto como uma "visão especificamente húngara. A linha horizontal foi certamente ditada pela paisagem, a planície dominante que deixou marca tão rica no caráter e literatura nacionais. Os pretos intensos contra o branco sugerem a dureza, o contraste deste caráter: a rica fertilidade do verão tanto quanto a tragédia, maturando secretamente sobre o sol escaldante."
Mas foi a tragédia somente húngara e a captura foi trágica ou um exercício ritualístico, uma variação de dança da inevitável luta pelo poder? Os Sem Esperança presta muito menos atenção aos indivíduos que Cantata ou Meu Caminho. O estilo de câmera se torna crescentemente decorativo, abstrato e dominante. Assim, um senso misterioso de fatalismo suavizou a situação dos guerrilheiros e a crueldade desenfreada de seus captores. O que significa que o espectador não vivencia tanto a situação difícil ou crueldade quanto compartilha da visão do observador etnográfo de uma cultura que não é familiarizado. Visualmente, Os Sem Esperança é uma questão de padrão e forma, como um visitante de Marte descrevendo um pelotão de fuzilamento. E quando Richard Roud sugeriu que era como se Bresson houvesse filmado A Colônia Penal de Kafka, servia para lembrarmos das origens de Jancsó. Os Sem Esperança tinha algo da atitude despreocupada, porém submissa, de Kafka, em relação à lei divina, e estudava os agrupamentos humanos com um afastamento semi-científico.
A situação - das autoridades irracionais e revolucionários esperançosos confrontando uns aos outros em aberto - corre ao longo de Vermelhos e Brancos, The Confrontation, Agnus Dei e Salmo Vermelho. A base histórica destes filmes parece bastante tênue, menos importante que a chance de persistir com os mesmos ingredientes visuais - garotas solenes, cavaleiros ameaçadores, o sol sobre a planície e o extraordinário comportamento bailarino e matemático da câmera. São filmes que possuem muito pouco discurso, nenhum personagem, e muitas sequencias opacas de eventos. Possuem sequencias de câmera esmagadoras construindo alguns dos mais elaborados travellings filmados no cinema. Os planos são tão belos e tão vazios quanto as magras garotas, morenas e semi-nuas em O Salmo Vermelho. Mas isto é falar da beleza em um modo que revela o abismo entre esta e o caráter. E quando alguns críticos vieram de Winter Sirocco, relatando que ele possuía somente 13 planos e O Salmo Vermelho de que possuía 26, então me pergunto se o cinema fluido não se tornou opressivo e premeditado.
Os movimentos mecânicos são os mais perturbadores, no olho de Jancsó para revelações súbitas. Não se duvida sobre as generalizações poéticas que conquista sobre cavalos, o brilho do sol, o rio, os cavaleiros, a grama e suas vítimas pastoras. O que o torna aparentemente a sangue-frio e frívilo na busca de decorar esta visão com movimentos sem sentido. Quando a câmera não se move com um personagem, uma emoção ou uma ideia, então temo que seja impelidade pela vaidade do diretor.
Texto: Thomson, David. The New Biographical Dictionary of Film. N. York: Alfred A. Knopf, 2014, pp. 1338-39.
(*) Trata-se de um provável equívoco, pois este é outro título do mesmo filme também vinculado ao ano de 1979, segundo o IMDB.
(**) segundo o IMDB Omega, Omega, Omega e teria sido lançado em 1984.

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