Filme do Dia: O Retorno de Vassily Bortnikov (1953), Vsevolod Pudovkin

 


ORetorno de Vassily Bortknikov (Vozvrasshchenie Vasiliya Bortnikova, URSS, 1953). Direção Vsevolod Pudovikin. Rot. Adaptado Vsevolod Pudovkin & Galina Nikolaeva, a partir do romance da última. Fotografia Sergei Uresevskiy. Música Kirill Molchanov. Dir. de arte Boris Chebatoryov & Abram Freydin. Com Sergei Lukyanov, Natalya Medvedeva, Nikolai Timofeyev, Anatoli Chemodurov, Inna Makarova, Anatoliy Ignatyev, Vsevolod Sanaev, Klara Luchko.

Vassily (Lukyanov) retorna da guerra após anos enfermo, e inclusive desmemoriado, para encontrar sua amada Dunia (Medvedeva), mas sabendo que ela não apenas não chora de comoção de revê-lo, mas  já uniu seus trapos com o respeitável Stepan (Timofeyev). Vassily decide, juntamente com Dunia, que Stepan deverá abandonar a casa. Porém, a relação entre o casal não volta mais a ser a mesma, com Vassily sempre a imaginar que Dunia não esqueceu de todo Stepan. Comunista, assume uma das cooperativas menos produtivas de sua região. E tentará, com a ajuda de outros, como a espevitada Froska (Makarova), quase sempre às turras com seu objeto de desejo, Pavel (Ignatyev), tornar a cooperativa mais produtiva.

Poucas cenas talvez traduzam melhor na história do cinema a invisibilidade do trabalho doméstico feminino que a de uma  Dunia  tentando fazer com que seu Vassily valorize os pães que fez com tanto afeto e ele não apenas não responde a ela se lembrava de quando os ia deixar no trabalho, todos enroladinhos, como ainda pergunta que pão, comendo um. A ela cumpre desviar o olhar condoída em direção a câmera, a flagrar sua emoção desencantada. Porém, o pai de Vassily é voz mais forte em seu coração e mente, e lhe afirma um voto de não confiança em nada proveniente das mulheres. E Vassily o cumpre só ruindo a muralha, sintomaticamente, após a morte do velho. Tem-se impressão que a falta de um ponto de vista em relação aos dois personagens centrais nem de longe é um problema e até pode ser visto como o oposto. Mas difícil é engolir as pílulas recorrentes de propaganda socialista, inclusive sob a forma de canto, e subtramas políticas e amorosas outras as que envolvem o triangulo amoroso e sua breve dissolução. O marido a se sentir traído ao descobrir a esposa com outro, e já novamente casada é um clássico. Que este permaneça emburrado por quase todo o filme, negando-a de todas as formas possíveis é cansativo. E como no cinema clássico hollywoodiano, as duas linhas causais se desatam ao mesmo tempo, com os problemas na produção do kolkhoz para o qual, como tudo o mais, Dunia é superior a seu homem, pois encontra uma fonte de financiamento que  não só salvará a lavoura (e o leite) como os tornarão mais rentáveis, e o retorno de seu relacionamento com Vassily. É o mesmo ano em que Marilyn Monroe se tornou estrela em Hollywood. E enquanto aqui se cantam loas ao processo de produção (ironizadas pelo documentário Assim Dançou o Comunismo), lá Monroe fetichizava no número musical mais famoso de sua carreira, o consumo, que há pelo menos meio século havia ultrapassado na ordem do dia da sociedade estadunidense, a produção, na cena dos diamantes em Os Homens Preferem as Louras. Nem tampouco foge Vassily de ser uma encarnação em escala menor de Stálin, aliás morto igualmente no mesmo ano. O que seria o destino também do diretor, também morto neste emblemático ano, sendo este seu último filme. E é difícil dar conta nesta equação da quantidade de peripécias e personagens do romance, alguns deles bem deslocados de qualquer interação maior com o motivo amoroso, como é  caso da engenheira Natalya e ainda por cima fazer uma média política com o regime. É de se imaginar se a morte não teria poupado Eisenstein de realizar produções do tipo, se é que as faria, pois mesmo as realizadas em um período mais aproximado dessa – ele já havia morrido há meia década quando este filme foi lançado – não se encontravam tão inseridas no novo modus operandi da produção soviética das últimas duas décadas, incrementada pela utilização crescente das cores. Por mais que o senso patriarcal seja sentido em cada centímetro pisado pelos personagens, as personagens femininas são de longe mais interessantes |Mosfilm. 102 minutos.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Filme do Dia: Der Traum des Bildhauers (1907), Johann Schwarzer

Filme do Dia: El Despojo (1960), Antonio Reynoso