Filme do Dia: Sintonia de Amor (1993), Nora Ephron
Sintonia de Amor (Sleepless in Seattle, EUA, 1993). Direção: Nora Ephron. Rot.
Original: Nora Ephron, David S. Ward, a partir do argumento do último. Fotografia: Com: Tom Hanks, Ross Mallinger, Meg Ryan, Barbara
Garrick, Rita Wilson, Victor Garber, Carey Lowell, Bill Pullman, Rosie
O’Donnel, Frances Conroy.
Morador de Chicago, Sam Baldwin
(Hanks) enviúva jovem, sendo motivo de certo assédio por parte de colegas e
amigos para que volte a se relacionar com alguém, o que apenas o deixa bastante
irritadiço. Ele decide morar em Seattle, buscando um estilo de vida que
valorize mais as práticas de atividades fora de casa e a proximidade com o
filho de oito anos, Jonah (Mallinger). Esse, por sua vez, não se encontra menos
preocupado e relata o caso do pai em um popular programa de rádio, sem que ele
saiba, na noite de natal. Entre as milhares de ouvintes que se sensibilizam com
o relato da criança se encontra Annie Reed (Ryan), que mora do outro lado do
país, em Baltimore, e se encontra em vias de se casar com o atrapalhado Walter
(Pullman). Jonah se sente atraído pelo perfil de uma das que escrevem para o
pai, justamente Annie, e passa a fazer campanha por ela, enquanto o pai tenta
se envolver emocionalmente com Victoria (Garrick), que o filho detesta. Annie
viaja uma vez para Seattle, mas apesar do contato visual em um momento pontual
com Sam, não tem coragem de abordá-lo e vice-versa. O que ambos não sabem, é
que um filme antigo inspira tanto os corações de Annie como de Jonah, que parte
para Nova York sozinho, disposto a ser o cupido do casal.
Seus créditos iniciais já são bastante
antecipadores do que se enfrentará em diante. Romantismo recauchutado que faz
uso de canções do repertório standard da música popular norte-americana (de
outrora) como sinônimo de “amores que não mais se fazem como antigamente”. E
ainda assim, sua tentativa não pode mais ter o caráter sério-dramático de um
dos filmes que a heroína assiste com sua melhor amiga na TV, Tarde Demais para Esquecer (1957), de
Leo McCarey, funcionando como uma comédia romântica, talvez para atenuar suas
inverossimilhanças patentes. Quando se
observa o que Woody Allen faria (e eventualmente fez) com algumas das canções
utilizadas, tem-se vontade de se abandonar o barco antes do atracadouro. Tudo
soa demasiado afeito a um roteiro esquemático, e as idades e gêneros dos
personagens não fogem da trivialidade: a mulher é romântica e chora ouvindo o
caso no rádio, apaixonando-se pela voz que ouve (assim como milhares de outras
mulheres); a criança possui a sensibilidade quase paranormal dos ainda não
contaminados pelo cinismo e portadores do coração puro, de adivinhar que Annie
e não Suzy é a pessoa certa para o pai; o homem possui sua reserva de cinismo,
saudável em meio a tanta xaropada, mas que se pressente possuir um coração
igualmente romântico, atravessando um ano e meio solitário até o primeiro
encontro amoroso com Suzy. Essa, por sua vez, assim como o então noivo de
Annie, Walter, são observados da maneira mais ridícula possível. E, quando o
filme tenta driblar a trivialidade soberana das representações, afunda em algo
pior, como na mais catastrófica das cenas, em que seguindo uma já
constrangedora cena em que uma personagem chora ao lembrar do enredo do filme
de McCarey com Deborah Kerr, faz com que os homens a sigam em um exemplar
típico do que seria o cinema feito para homens, chorando ao lembrar Os Doze Condenados. Pode-se imaginar que
se inventou tal cena para se escusar perante um olhar crítico feminino, em um
filme inclusive dirigido por uma mulher, mas o resultado, nem dramático, nem
histriônico, resulta apenas no que verdadeiramente é: tosco. Dentre os deslizes
do roteiro, o que personagens de idades bastante distintas, mas mulheres (quem influencia o garoto é
uma amiguinha sua), possuem como filme dileto para chorar, o incontornável
filme de McCarey. Ao final, evidentemente, evoca-se a cena final daquele, de
forma mais leve e mais apropriada para um consumo imediato que sequer force os
sentimentos, e também mais família (ao invés de um homem e uma mulher, como
naquele ou no filme de Claude Lelouch, tem-se um homem, uma mulher e uma
criança. TriStar Pictures. 105 minutos.

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