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terça-feira, 4 de outubro de 2016

Filme do Dia: O Sétimo Selo (1957), Ingmar Bergman


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O Sétimo Selo (Det Sjunde Inseglet,  Suécia, 1957) Direção: Ingmar Bergman. Rot. Adaptado: I. Bergman, baseado em sua própria peça. Fotografia: Gunnar Fischer. Música: Eric Nordgren. Montagem: Lennart Wallén. Com:Gunnar Björnstrand, Bengt Ekerot, Nils Poppe, Max von Sydow, Bibi Andersson, Inga Gill, Maud Hansson, Inga Landgré, Gunnel Lindblom, Bertil Anderberg, Gunnar Olsson, Erik Strandmark.
      Cavaleiro Antonius Block (Sidow), retornando das Cruzadas, ao lado de seu fiel escudeiro Jöns (Björnstrand), passa a questionar a vida que leva e ter constantes diálogos com a Morte (Ekerot), que tenta levá-lo em sua primeira investida, mas é convidada a negociar mantê-lo ou não vivo através de uma partida de xadrez. Destituído da fé vacilante que acompanha Block, seu escudeiro é extremamente pragmático e em uma conversa com um pintor de igreja (Olsson) desfia sua filosofia niilista, após algumas rodadas de vinho, enquanto seu patrão confessa como vencerá a partida de xadrez, até descobrir que seu confessor é nada mais nada menos que a própria Morte. Flagrando um ladrão que se apossa dos pertences das vítimas da peste, sendo surpreendido por uma jovem (Lindblom), Jöns reconhece nele a figura do ex-monge Raval (Anderberg), que lhes incentivara a partir para as cruzadas e expulsa-o avisando que não seria tão complacente no próximo encontro. Convida Lisa a partir com eles. Ao mesmo tempo, um grupo de atores liderado por Skat (Strandmark) se prepara para a próxima apresentação. Jof (Poppe), possui uma visão da Virgem Maria carregando Jesus, e corre para contar para Mia (Andersson), sua esposa. Embora não sejam bem recebidos pela platéia (Skat leva uma tomatada no rosto), uma mulher, Lisa (Gill),  sente-se atraída por Skat, fugindo os dois furtivamente. Enquanto isso, os atores paralisam sua apresentação, para a passagem da procissão de mártires da peste, sendo invocada para todos, inclusive para Block, seu escudeiro e Lisa, através de um monge, a proximidade da morte. Um ritual de sacrifício de uma pretensa feiticeira (Hansson), também está sendo preparado. Enquanto come na taverna, Jof é ameaçado por Plog (Fridell), ferreiro e marido da mulher que fugira com seu companheiro de trupe, por também ser ator. Auxiliado pelo ex-monge ladrão, ambos incitam Jof a realizar inúmeras representações, como imitar um urso pisando sob a brasa, até a chegada de Jöns, que escorraça mais uma vez o ex-monge e salva Jof.  Block, tocado pela beleza do filho de Jof e Mia, aproxima-se e inicia uma conversa, quando Jof  chega fugido da taverna. Mia pensa se tratar do fato de Jof relatar suas constantes visões, o que pode provocar a raiva de certas pessoas. Ambos oferecem morangos e leite para Block e Jöns, recém-chegados, e vivem um momento de enternecimento ao som de uma canção de Jof. À noite, quando preparam-se para seguir a viagem pela floresta, agora contando com a presença de Block e seu escudeiro, Jöns encontra Plog, consolando-se na bebida da fuga da esposa. Conversam sobre como as mulheres são terríveis. Ao saírem, ele reencontra um assustado Jof, que quer fugir de seu abraço. A Morte avisa a Block que algo de trágico acontecerá no meio da viagem. Plog reencontra sua esposa e Skat, que após uma furiosa disputa verbal, finge se suicidar, para a angústia do aldeão, que já se resignara em ser ele simpático. Quando sobe na árvore para passar a noite, no entanto, é flagrado pela verdadeira morte, que corta a árvore. No meio da trajetória a caravana é surpreendida pela procissão que irá executar a feitiçeira. Toda a caravana, principalmente Block e seu escudeiro, assistem aterrorizados aos preparativos da execução. Posteriormente reencontram o ex-monge que se encontra atacado pela peste à procura de água, mas nada podem fazer. Quando encontram acampados em uma noite de luar, luar que não parece nada amigável aos olhos de Mia, Jof consegue perceber a Morte a jogar com o Cavaleiro, e resolvem partir às escondidas. Block tenta trapacear com a morte, derrubando como que acidentalmente as pedras do tabuleiro, mas a Morte sabe a exata posição e anuncia o xeque-mate próximo. Reunidos mais uma vez sob o teto da esposa de Block (Landgré), que o revê pela primeira vez desde que partira para as Cruzadas, os membros da caravana ceiam a noite, enquanto recebem a última visita da morte. No dia seguinte, apenas sobram para continuar a jornada Mia, Jof e seu filho. Jof, em mais uma de suas visões, percebe a Morte comandando uma austera caminhada à beira do penhasco, acompanhada de Block, sua esposa,  Jöns, Lisa, Skat e sua esposa.
Um dos mais belos filmes de Bergman e da história do cinema, O Sétimo Selo remete a já longa tradição da dramaturgia nórdica que aborda a morte e elementos fantásticos como pretexto para uma abordagem metafísica sobre o sentido da própria existência humana, que teve no cinema nórdico Carl Th.Dreyer e Victor Sjömstron como nomes mais representativos através de filmes como Vampiro (1932) e A Carruagem Fantasma. Porém Bergman une a atmosfera profundamente reflexiva e melancólica (realçada pelo soberbo chiaroescuro de Fischer) de sua parábola, alguns toques de mestre como uma veia humorística e irônica que se sobressai seja em vários diálogos do escudeiro de Block, seja no diálogo do mesmo Jöns com o ferreiro sobre como as mulheres são terríveis ou ainda no conflito entre o ferreiro e Skat. Em um dos momentos de maior tensão dramática, quando todos visualizam a morte na sala de jantar da esposa de Block, não há como não perceber sua influência em O Sacrifício (1985) de Tarkovski, na cena em que a família recebe a trágica notícia da hecatombe nuclear. Ainda que o universo medieval seja revivido a todo momento, principalmente na seqüência da confraria de mártires que realizam o auto-flagelemanto, mais interessa a Bergman retomar tal universo sob a ótica moderna do Cavaleiro Block e de seu escudeiro Jöns. Ao poupar a família de artistas do morticínio final, Bergman parece acenar para a única possibilidade de redenção humana através da arte. Impecável direção de atores, com destaques para Poppe, Sydow, Andersson e Björnstrand. Seu tom agridoce e poético remete a uma das melhores fases do cineasta sueco, quando também dirigiu outros clássicos como Morangos Silvestres (1958) e Sorrisos de uma Noite de Amor (1955). Entre as sequências antológicas constam a da apresentação dos artistas imitando sons de animais, o diálogo entre Block e a feiticeira (em que ela interroga se ele consegue ver o demônio em seus olhos, ao que ele retruca que só consegue ver medo) ou ainda a seqüência em que Block se delicia com beleza efêmera do momento de paz junto ao casal Jof e Mia e ao escudeiro Jöns, como que pressentindo o que vem pela frente e, ao mesmo tempo, reconhecendo a fragilidade dos momentos de amor e alegria na vida. Svenskfilmindustri. 96 minutos.


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