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sexta-feira, 7 de outubro de 2016

The Film Handbook#96: Alexander Dovjenko

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Alexander Dovjenko
Nascimento: 12/09/1894, Sosnytsia, Ucrânia
Morte: 26/11/1956, Moscou, União Soviética
Carreira (com diretor): 1926-1948

Embora inevitavelmente marcado pela propaganda soviética, os melhores filmes de Alexander Dovjenko são bastante diferentes daqueles de seus contemporâneos. Onde EisensteinVertov e Pudovkin aderiram às teorias derivadas da dialética marxista e da arte construtivista, Dovjenko mesclou simbolismo complexo e lirismo pastoral em poesia pessoal.

Após uma diversidade de ocupações - escriturário, professor, artista e desenhista - Dovjenko iniciou sua carreira no cinema realizando comédias e thrillers comparativamente convencionais. Seu quarto filme, no entanto, Zvenigora>1 provocou um sabor estranho do que viria. Com uma história bizarra e altamente elíptica que um velho conta a seus netos de um antigo tesouro em uma montanha, antes de descobrir o verdadeiro tesouro que é a revolução dos trabalhadores, move-se através de sonhos e contos dentro de contos, comédia, lenda e história, passado e presente; ainda mais significativo, com relação a obra futura do realizador, são as cenas descrevendo a vida camponesa ucraniana.

O primeiro grande filme de Dovjenko foi Arsenal>2, que faz uso de uma tortuosa narrativa que vai da carnificina da I Guerra Mundial até a derrota dos trabalhadores de Kiev por burocratas reacionários. Esse foi material que servia para a arte soviética, mas os métodos de  Dovjenko foram tanto originais quanto frequentemente profundamente comoventes. O audacioso trabalho visual é evidente do longo plano estático de abertura de uma trincheira de batalha subitamente explodida por uma mina não vista, embora sua surpreendente montagem transforme da realidade à sátira à poesia; uma velha desabando de dor e exaustão nos campos é entrecruzada com planos de um tzar pensativo. Ele não está preocupado, no entanto, com os horrores da guerra, mas simplesmente escrevendo uma carta ("Hoje atirei em um corvo; o tempo é bom."); sua responsabilidade pelas condições dos agricultores é então evidenciada quando um fazendeiro aleijado bate em um cavalo que replica: "Você está perdendo seu tempo velho, não é por minha culpa que você passa fome."

Esse pungente, e mesmo panteísta, senso da relação entre o homem e a natureza é evocado de forma ainda mais tocante em Terra/Zemlya>3 que prefacia sua frágil história, da batalha de uma vila ucraniana contra os gulags por um novo trator, com um brilhante primeiro plano de um velho morrendo feliz e em paz em um ensolarado prado repleto de maças maduras. Novamente, o notável plano de abertura de grãos ondulantes ao sabor do vento abaixo de um enorme céu sombrio estabelece um tênue lirismo que se move de tableaux estilizados (casais apaixonados olhando a lua) a uma coreografia em câmera lenta (o herói baleado enquanto dançava efusivamente em casa) e uma elaborada sequencia final entrecruzando seu funeral, a dor histérica de sua amante, a fuga do assassino através de um cemitério, o nascimento de um novo trabalhador para ocupar o lugar do herói e, uma vez mais, maças maduras. Para Dovjenko a morte possui um sentido, não somente no contexto do esforço revolucionário, mas no incessante e fértil ciclo da natureza.

Em Ivan e Aerograd (detalhando, respectivamente, a construção de uma barragem e uma cidade siberianas), Dovjenko simplificou ainda mais suas histórias enquanto elevou sua visão pessoal do homem no mundo natural através de experimentos com novas técnicas, notadamente o som. Em meados dos anos 30, Stálin ordenou que ele realizasse uma versão ucraniana de Chapaev. O resultado, Shchors, foi uma bem realizada, mas propagandístico, retrato de um intelectual revolucionário. Desde então, como chefe dos estúdios de Kiev, a liberdade e originalidade de Dovjenko foi corroída  pela burocracia; os posteriores documentários de guerra não possuem o gênio formal de sua obra inicial. Somente nos anos 50, quando escreveu uma série de roteiros celebrando a vida de uma vila ucraniana, poderia aparentemente recuperar sua antiga proeminência artística; ele morreria, no entanto, antes das filmagens se iniciarem e Poem of the Sea/Poema o More, A Epopéia dos Anos de Fogo/The Flaming Years e The Enchanted Desna/Zachoravannaya Desna foram completados por sua viúva, Yulia Solntseva. O último é notável por seu uso arrebatador das cores e de uma pista sonora múltipla e não sincronizada.

Embora os meandros narrativos e uso sofisticado de símbolos por Dovjenko frequentemente demandem demasiado do espectador, os visuais simplesmente radiantes certificam uma irresistível resposta emocional. Um dos grandes mestres do cinema mudo, seu amor pela natureza e sua insistência poética no valor da vida humana sem muito esforço transcendem os limites da ideologia propagandística com a qual foi posteriormente recrutado a promover.

Cronologia
Pouco influenciado por Kulechov, Vertov, Eisenstein e Pudovkin, os filmes de Dovjenko permanecem únicos. Seu estilo visual e narrativo, e fé em um universo panteísta podem ser vistos como uma influência em Tarakovski e Paradjanov; pode-se tentar comparar, igualmente,  sua obra com a dos Irmãos Taviani e Tian Zhuangzhuang. 

Leituras Futuras
Alexander Dovzhenko: The Poet as Filmmmaker (Org.Marco Carynnyk, Cambridge Mass., 1974). Kino (Londres, 1973), de Jay Leyda

Destaques


1. Zvenigora, URSS, 1928 c/Mikola Nademski, Semion Svashenko, Alexander Podorozhny

2. Arsenal, URSS, 1929 c/Semyon Svashenko, Amvroziy Buchma, Mikola Nademski

3.Terra (Zemlya), URSS, 1930 c/Stepon Shkurat, Semion Svahshenko, Mikola Nademski

Fonte: Andrew, Geoff. The Film Handbook. Londres: Longman, 1989, pp. 86-8.



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