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sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Filme do Dia: Nascido e Criado (2006), Pablo Trapero

Nascido e Criado (Nacido y Criado, Argentina/Itália, 2006). Direção: Pablo Trapero. Rot. Original: Mario Rulloni & Pablo Trapero. Fotografia: Guillermo Nieto. Música: Luis Chomicz & Palo Pandolfo. Montagem: Ezequiel Borovinsky & Pablo Trapero. Dir. de arte: Pablo Maestre Galli. Figurinos: Marisa Uruti. Com: Guillermo Pfening, Federico Esquerro, Tomás Lipan, Martina Gusman, Fernanda de Almeida, Nilda Raggi, Victoria Vescio.
Santiago (Pfening) é um bem sucedido decorador de interiores que vive bem com sua jovem e bela esposa Milli (Gusman) e sua filha Josefina (Vescio) até o dia em que um grave acidente acomete a família quando do retorno da casa da avó, Victoria (Raggi). Santiago parte a viver a esmo pela Patagônia onde se torna amigo de Robert (Esquerro) e de Cacique (Lipan), alternando o trabalho entre o aeroporto, que recebe voos apenas ocasionalmente e a caça junto ao Cacique, pelo qual não recebe mais que uns trocados. Robert percebe o estranhamento de Santiago, inclusive em sua relação a falar sobre o passado, na sua agressão a Betty (Almeida), em meio a uma brincadeira sexual a três e em ocasiões relacionadas ao trânsito. Santiago não consegue se conter, no entanto, após a morte da mulher do Cacique. Correndo desesperado com uma espingarda nas mãos ele não tem coragem de se suicidar. Robert o acolhe, e ele consegue finalmente contar sua história. Com ajuda dos amigos, Santiago consegue encontrar o endereço e de fato comprovar que Milli continua viva.
Nesse seu  longa, Trapero experimenta as dores e delícias do que é tentar criar um recorte narrativo diferenciado após cerca de um século da introdução da mesma no cinema. De fato, foge-se das relações de causa e efeito imediatas do cinema clássico convencional e se se aproxima de uma certa indefinição quanto aos rumos do que se seguirá, ao menos até determinado momento da história, que é bem próximo do cinema moderno. Contra si, existe a banalidade de sua mal escolhida trilha musical, que acaba por limitar algumas pretensões de se ir mais a fundo no sério-dramático, ao se aproximar demasiado de colorações quase adolescentes. A seu favor, existe uma relativamente comovente e sentimental representação do estabelecimento de relações de troca e amizade humanas num ambiente climático algo inóspito. O filme se encontra longe do talento apresentado no filme que chamou a atenção internacional para o realizador, Do Outro Lado da Lei. Dentro de uma situação onde o inesperado se torna presente na trajetória de Santiago na Patagônia, existem momentos de extrema previsibilidade, como o da farra dele com Robert e Cacique ser seguida pela notícia da morte da esposa do último. E é justamente nesse equilíbrio entre a aparente anti-convencionalidade e estranhamento e o lugar-comum (como é o caso do episódio da morte da esposa do Cacique ou o reencontro de Santiago com a esposa e a própria cena do acidente) que o filme pretende se apoiar. A falta de sutileza com que o “efeito-acidente” é apresentado na narrativa soa algo rústica diante de narrativas de companheiros de geração como Lucrecia Martel e seu O Pântano  ou mesmo o já referido filme de Trapero. Walter Salles e Andrés Wood foram co-produtores do filme, demonstrando um certo alinhamento transnacional latino em sua frente por um cinema “de arte” de maior representatividade internacional.  Axiom Film/Matanza Cine/Sintra s.r.l para Films Dist. 100 minutos.


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