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quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Filme do Dia: O Enigma de Kaspar Hauser (1974), Werner Herzog






O Enigma de Kaspar Hauser (Jeder für sich und Gott gegen alle, Alemanha, 1974). Direção e Rot. Original: Werner Herzog. Fotografia: Jörg Schmidt-Reitwein &  Klaus Wyborny. Montagem: Martha Lederer & Beate Mainka-Jellinghaus. Dir. de arte: Henning von Gierke. Figurinos: Ann Poppel & Gisela Storch. Com: Bruno S., Walter Ladengast, Brigitte Miral, Herbert Achternbusch, Helmut Döring, Gloria Doer, Alfred Edel, Florian Fricke, Andi Gottwald, Michael Kroecher, Hans Musaeus, Enno Patalas, Clemens Scheitz, Willy Semmelrogge, Kidlat Tahimik, Henry van Lyck.
Kaspar Hauser (Bruno S.) passou toda sua infância e adolescência acorrentado em um porão. Certo dia, no entanto, seu algoz o leva até uma vila próxima, e o deixa no centro de uma praça. É então levado à polícia. Após ser inspecionado pelo capitão (Lyck), passa a viver em uma torre, na qual se alojam vagabundos e delinquentes. Um fazendeiro (Achternbusch) e sua esposa passam a adotá-lo e lhes ensinam algumas noções de comportamento social, como se portar à mesa ou banhar-se, enquanto seus filhos lhe visitam regularmente na prisão e lhes ensinam algumas palavras. Kaspar demonstra sentimentos pelo bebê do casal. Na prisão é vítima do escárnio de um grupo. Como desperta a curiosidade de muitas pessoas dos arredores, o capitão afirma que é melhor que ele ajude no seu próprio sustento, que sai caro para os cofres públicos. Kaspar passa então a integrar uma trupe mambembe, sendo apresentado pelo mestre de cerimônias (Semmelrogge), na pose em que foi encontrado,  como um dos maiores enigmas do universo, ao lado de outras atrações excêntricas como o Pequeno Rei (Döring), Hombrecito (Tahimik) e o Jovem Mozart (Gottwald). Porém, aproveitando um descuido do dono do circo, fogem. O professor Daumer (Ladengast), um homem culto e de espírito humanista que o observara no espetáculo adota-o. Juntamente com a criada Kathe (Mira), zela pela educação de Kaspar. Esse recebe visitas tanto de pastores, que lhes querem incutir a fé cristã como de um professor de matemática (Edel) que lhe deseja incutir a lógica. Porém, mesmo com todos os avanços que conseguiu nos dois anos de sua educação, Hauser ainda sente-se infeliz por não poder tocar música como se respira, tal e qual o pianista cego Florian (Fricke), também adotado por Daumer. A reputação do jovem Kaspar logo se espalha e, certo dia, quando escreve sua autobiografia, Daumer lhe avisa que ele recebera um convite para ser apresentado ao círculo de Lorde Stanhope (Kroecher), nobre londrino que diz-se interessado em adotá-lo. Porém a noite se torna um fiasco, com Kaspar apresentando-se hostil ao ambiente aristocrático. De volta à residência de Daumer, revolta-se contra os modos refinados que ultimamente adotara, vestindo-se de forma mais simples e sofrendo um atentado por um desconhecido (Musaeus). Embora plenamente recuperado, pouco tempo depois sofre um novo atentado ao qual não escapa. Em seu leito de morte, cercado de amigos e dos pastores, conta uma de suas histórias sobre o deserto que não sabe o final. Seu cérebro é examinado, quando da autópsia, e dado como anormal. O escriba (Scheitz), feliz com o desfecho do caso, dispensa o cocheiro e volta a pé para casa.
Da atmosfera enevoada e azulada das sequências iniciais às imagens do deserto filmadas em super-8, passando pelos tipos humanos utilizados, todo o filme recende a uma atmosfera onírica e visionária como as da uma narrativa tradicional (o que, de certa forma, não deixa de ser verdade, já que a história faz parte da tradição popular alemã). Não falta um humor sutil, que subliminarmente acompanha toda a narrativa, presente seja no desejo de precisão do notário ou no tom de voz que Daumer pronuncia o nome do protagonista. Kasper ganha na representação de Bruno S., ele próprio vítima de continuadas internações psiquiátricas ao longo da vida, a encarnação perfeita para o papel de “bom selvagem” que Herzog almeja. Com sua razão intuitiva ele consegue confundir tanto a ordem teológica quanto científica de seu tempo, representada nos encontros que ele tem com os pastores e com o professor de lógica. O carisma que nos desperta Kaspar se encontra na sua própria postura pueril, seja tentando fazer com que um gato ande apenas com duas patas, ninando o bebê, alimentando um pássaro ou descobrindo que as maçãs possuem uma lógica que, à semelhança da sua, procura não se dobrar aos imperativos da razão positiva e que acabará por lhe explicar seu comportamento diferenciado, através da via biológica. Nesse sentido, o capitão e seus assistentes, que anotam todas as atitudes de Kaspar em um protocolo também representam um poder cada vez mais persecutório. Alheio as convenções sociais da época, Kaspar chega a indagar inocentemente sobre qual a função das mulheres. Seu próprio sentido de estranhamento com o mundo lhe levará a uma autoconsciência de ser rejeitado e tido como não mais que uma excentricidade para diversão alheia, como quando replica para a jovem da nobreza que sentia-se melhor no porão onde fora encontrado que no salão aristocrático onde conversam. As cenas que apresentam Kaspar em contato com a sociedade são de um ascetismo formal, com a câmera geralmente fixa, como que demonstrando o seu sentimento de deslocamento. O oposto pode-se dizer das sequências que apresentam belezas naturais, onde o movimento da câmera e a bela utilização das composições de Albinoni e Pachebel, como que identifica o mundo natural como a única possibilidade de lirismo frente ao mundo frio da razão humana. Prêmio Especial do Júri em Cannes, o filme sedimentou o nome de Herzog como um dos cineastas mais representativos do século XX. Outra versão foi produzida pelo cinema alemão na década de 90.  Uma abordagem semelhante sobre um personagem moralmente virtuoso que se transforma em alvo de uma impiedosa curiosidade da sociedade foi tema de O Homem Elefante (1980), de David Lynch. Seu título original em alemão, que se tornou bem menos conhecido que o título internacional é "Cada Um Por Si e Deus Contra Todos", extraído do Macunaíma, de Mário de Andrade.
Werner Herzog Filmproduktion/ZDF. 110 minutos.

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