Dicionário Histórico de Cinema Sul-Americano#165: Humberto Mauro
MAURO, HUMBERTO. (Brasil, 1897-1983). O melhor diretor de cinema brasileiro da primeira metade do século XX, Humberto Mauro foi também o mais prolífico, dirigindo somente doze longas-metragens em sua carreira de cinquenta anos, mais 235 curtas e médias, a maior parte deles no Instituto Nacional de Cinema Educativo (INCE), onde se tornou diretor técnico em 1936. Com efeito, funcionou como uma espécie de "laureado do cinema" de cultura brasileira e, em 1952, quando Ganga Bruta (1933) foi redescoberto durante uma grande retrospectiva do cinema brasileiro em São Paulo, Mauro começou a receber a aclamação merecida.
Mauro nasceu em uma fazenda em Volta Grande, Minas Gerais, de um pai imigrante italiano e mãe brasileira. Sua família se moveu para Cataguazes e, seguindos os passos de seu pai, estudou engenharia na capital do estado, Belo Horizonte. Ele abandonaria o curso em um ano e então cursou um curso por correspondência em eletricidade, que o capacitou a instalar energia elétrica nas fazendas vizinhas. Teve muitos interesses, incluindo literatura, música, rádio e fotografia. Em 1923 adquiriu uma câmara Kodak e se tornou amigo de Pedro Comello, que comprou um estúdio e o ensinou a processar filmes. Em 1925, a dupla adquiriu uma câmera 9.5 mm da Pathé-Baby (o formato de "filme doméstico" de sua época), e realizou um filme comercial de cinco minutos, Valadião, o Cratera, inspirado por seriados americanos. Foram então capazes de convencer dois homens de negócios de Cataguazes a investir em um negócio mais comercial, e compraram uma câmera de 35 mm.
O primeiro esforço, dirigido por Comello, Os Três Irmãos, foi demasiado ambicioso e permaneceu incompleto, mas o seu segundo, Na Primavera da Vida (1926), dirigido por Maro e estrelado pela filha de Comello, Eva Nil, foi um grande sucesso de sua nova companhia, Phebo Sul America Film. Mauro apresentou o filme para uma série de jornalistas, incluindo Adhemar Gonzaga, e aprendeu deste encontro que a arte do cinema dependia tanto de um afastamento da realidade, quanto de um registro direto desta. Com seu segundo longa na Phebo, Thesouro Perdido (1927), empregou sua mulher, creditada como "Lola Lys" enquanto heroína, que é sequestrada e libertada no último minuto. Seu irmão também interpretou um papel, assim como o próprio Mauro. Claramente influenciado pelos filmes de Hollywood, Thesouro Perdido foi tão bem sucedido que ganhou a medalha Cinearte como melhor filme de 1927, o primeiro filme brasileiro a ser honrado com a mesma.
As duas realizações silenciosas seguintes são talvez os melhores filmes brasileiros sobreviventes dos anos 20: Braza Dormida (1928) e Sangue Mineiro (1929). Sua companhia produtora cinematográfica, agora chamada Phebo Brazil Film, encontrou mais apoio financeiro, possibilitando a contratação do melhor diretor de fotografia do Brasil, Edgar Brasil, e a atriz Nita Ney. Para Sangue Mineiro, Carmen Santos uniu-se a Agenor Cortes e Homero Cortes Domingues - os dois originais investidores da Phebo - enquanto produtora, e ela também co-estrelou com Ney. A contribuição de Edgar Brasil foi proporcionar pano de fundo exuberante, tropical e natural, enquanto Ney e Santos acrescentaram a dimensão passional e mesmo sensual. Em Braza Dormida uma cena de amor desenvolvendo uma relação de amor entre o administrador de uma usina de açúcar (Luiz Soroa) e a filha do proprietário do mesmo (Ney) é tipica da mudança do novo estilo de Mauro. Soroa executa uma gravação de gramofone, dançando com Ney no topo de uma colina, observados em um plano aberto. Um jogo de olhares obtidos através de planos/contraplanos editados tornam-os próximos. Ela se esconde por trás de uma árvore enorme, e seu avanço é registrado pelo corpo dela, que se inclina para trás, afastando-se do lado esquerdo da árvore, enquanto ele - que também estava oculto - parece segurar o corpo dela, estendido, em um erótico abraço. O antigo gerente do moinho, que havia sido despedido, torna-se o vilão quando, levado pelos ciúmes, tenta interferir e destrui-los e à usina.
O enredo de Sangue Mineiro revela dois triângulos românticos. Carmen (Santos) é a filha adotiva de um milionário, que descobre seu noivo se encontrar envolvido com a irmã (Ney). Quando tenta o suicídio na floresta, é salva do afogamento por dois primos, ambos apaixonando-se por ela. Do início ao final do filme, Mauro e Brasil conseguem uma contínua tensão romântica, ao cortar dos amantes não correspondidos ao objeto de seus olhares, o casal. Inicialmente é Carmen observando seu noivo com sua irmã em uma festa dançante, e posteriormente vivenciamos um primo invejoso olhando para Carmen com o outro primo. O sofrimento romântico se estende ao domínio erótico pelas exageradas posições adotadas pelos personagens, sugestivas do ato sexual, e os exuberantes ambientes naturais, que intensificam a paixão. O sucesso comercial de Sangue Mineiro foi limitado com a chegada do som, mas encontrou um novo público em 2011, quando o filme foi restaurado com uma trilha do período, incluindo composições brasileiras de Heitor Villa-Lobos, Francisco Mignone, Ernesto Nazareth, e outros.
O fim do cinema silencioso no Brasil também trouxe o fim dos ciclos regionais. A produção cinematográfica se desenvolveu em todas as regiões do país, particularmente Recife, no Nordeste, Rio Grande do Sul, no extremo sul, e os interiores dos estados de São Paulo e Minas Gerais. Mas a produção de cinema sonoro requeria a ampliação de estúdios equipados, sendo as cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo tornadas centros. Mauro foi contratado por seu antigo amigo, Gonzaga, para trabalhar na Cinédia, no Rio, ainda que o primeiro filme que lá dirigiu, Lábios Sem Beijos (1930), foi silencioso e levou a próximo de sua maestria do meio - foi também diretor de fotografia e venceu o prêmio Jornal do Brasil de Melhor Filme Brasileiro de 1930. Foi também diretor de fotografia da parte sonora de Mulher (1931), antes de dirigir Ganga Bruta, em 1933, o filme geralmente considerado como o seu mais relevante longa ficcional. Co-dirigiu então com Gonzaga um importante filme no novo gênero da chanchada, A Voz do Carnaval (1933), que impulsionou a carreira de Carmen Miranda.
Em 1934, Mauro se uniu a Carmen Santos no seu estúdio, Brasil Vita Film, para o qual realizou uma série de documentários curtos. Também escreveu, dirigiu, filmou e editou o longa Favela dos Meus Amores (1935) para Santos, que foi notável principalmente por ter sido filmado em locações na favela da Providência, no Rio, com a participação de seus moradores. Infelizmente este filme e o segundo longa que Mauro dirigiu para Santos, Cidade-Mulher (1936) foram destruídos em um incêndio nos depósitos da Brasil Vita Filme. Em 1937, antes de ser contratado pelo INCE, Mauro realizou a dramatização em longa-metragem da "descoberta" do Brasil em 1500, pelo explorador português Pedro Álvares Cabral e sua frota de 13 navios, para o Instituto do Cacau da Bahia. Com trilha sonora do grande compositor Villa-Lobos, O Descobrimento do Brasil foi baseado em uma carta enviada ao rei de Portugal por Pero Vaz de Caminha, o escrivão oficial da expedição, e traça do primeiro contato europeu com os povos indígenas até a celebração da primeira missa em grupo, junto com os índios. Após este, embora tenha dirigido outros 168 filmes, somente dois longas. Argila (1940), produzido e estrelado por Santos, que também escreveu e fotografou, e O Canto da Saudade (1952), obra auto-produzida e bastante pessoal, filmado em sua Volta Grande natal, no qual atua como o pai da heroína.
Uma das razões que Mauro escolheu de trabalhar continuadamente para uma agência governamental era que necessitava de uma renda estável para sustentar sua esposa e seis filhos, mas certamente não tinha razão de se envergonhar da obra que completou no INCE. Como competente operador de câmera, montador e técnico de som foi capaz de realizar filmes de orçamentos minúsculos e com equipe mínima. Entre 1937 e 1939, dirigiu pessoalmente mais de setenta e cinco curtas, com objetos variando de científicos, reportagens e filmes naturais - documentários sobre plantas, pássaros e peixes - à biografias de políticos, músicos e poetas brasileiros, a reconstrução de episódios da história do Brasil. Na série de filmes as Brasilianas, iniciada em 1943, também em sua cidade natal, ilustrou canções populares e folclóricas, empregando montagem, e astutas posições de câmeras e ângulos proporcionando uma representação poética.
Alguém poderia encontrar as raízes dos vídeos musicais nestes filmes e, de fato, o último filme dirigido por Mauro no INCE, A Velha a Fiar (1964), foi um verdadeiro precursor. Empregou um assistente veterano, Matheus Collaço, para atuar no papel de uma velha em uma roda de fiar, e a letra repetitiva da canção indica que, em seu trabalho concentrado, não percebe a vida (e a morte) em seu redor, assim como todos os tipos de imagens - algumas sequencias de montagem animadas ou fotográficas - de gatos, cachorros, ratos em particular, são montadas em ritmo com a música. Durante as décadas de 60 e 70, Mauro se tornou um patrono do movimento do Cinema Novo, trabalhando em filmes dirigidos por David Neves, Nelson Pereira dos Santos, Paulo Cesar Saraceni, Alex Viany, e Walter Lima Jr., dentre outros. Ao menos dois livros foram escritos sobre ele, e uma série de filmes documentais o teve como tema. Provavelmente não houve outro realizador cujo lirismo representou tão claramente o espírito nacional (Brasil) e regional (Minas Gerais) dos mundos que o circundavam. Morreu em sua Volta Grande natal.
Texto: Rist, Peter H. Historical Dictionary of South American Film. Plymouth: Rowman & Littlefield, 2014, pp. 397-401.

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