Filme do Dia: Nelson Freire (2003), João Moreira Salles

 


Nelson Freire (Brasil, 2003). Direção: João Moreira Salles. Roteiro Original: João Moreira Salles, Felipe Lacerda & Flávio Pinheiro. Fotografia: Toca Seabra. Montagem: Felipe Lacerda & João Moreira Salles.

O filme é uma aproximação do retratado que menos que apresentar uma pesquisa exaustiva sobre o seu tema (como Ophüls fez em Hotel Terminus ou as habituais investigações jornalísticas de Nick Bloomfield  para a BBC) procura  se adequar ao perfil de Freire, reservado e buscando, a todo custo, sufocar a emoção. Respeitando as lacunas e eventual pouca articulação do pianista, o filme não envereda pelo esquema investigativo para tentar contemplá-las. No máximo, introduz a locução (de Eduardo Coutinho) de uma carta emocionada do pai, escrita em 1950, que relata as numerosas dificuldades que a família vivenciou no início da carreira de Freire. É visível o desconforto deste com a invasão da câmera nos momentos de maior emoção, como quando escuta Guiomar Novaes, a pianista que escuta desde garoto ou quando se delicia assistindo um velho musical (You´ll Never get Rich) com Rita Hayworth e Fred Astaire. Além disso, ainda confidencia um pouvo sobre sua infância de saúde precária, sua frustração por não conseguir atingir a alegria descontraída de músicos de jazz  e  seu incomôdo quando sua figura se sobrepõe à música. Compartilha, igualmente, a intimidade de um ensaio doméstico com a também pianista Martha Argerich. No mais, predominam os números musicais, que a montagem entremeia a partir de locações diversas (no Brasil, França e União Soviética) o pianista executando algumas obras de seu repertório (como Glück, Brahms e Rachmaninoff) e a ansiedade que o acompanha, seja quando antes de se apresentar, seja ao descobrir, tal e qual uma criança decepcionada, que não consegue “se entender” com o piano do Teatro Municipal carioca. Grandemente fragmentado, o filme se estrutura a partir dos mesmos entretítulos temáticos – 31 ao todo - que se tornaram comuns no cotidiano jornalístico, que tanto servem para pontuar como para orientar à recepção das imagens. Ao tratar de uma temática completamente oposta a seu documentário mais famoso até então, Notícias de uma Guerra Particular, produzido para a televisão, Salles parece se esquivar de uma possível rotulação precoce de seu trabalho. Videofilmes. 102 minutos.

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