Filme do Dia: Tootsie (1982), Sydney Pollack

 



Tootsie (EUA, 1982). Direção Sydney Pollack. Rot. Original Larry Gelbart & Don McGuire, a partir do argumento de Gelbart & Murray Schisgal. Fotografia Owen Roizman. Música Dave Grusin. Montagem Fredric Steinkamp & William Steinkamp. Dir. de arte Peter S. Larkin. Cenografia Thomas C. Tonery. Figurinos Ruth Morley. Com Dustin Hoffman, Jessica Lange, Teri Garr, Dabney Coleman, Charles Durning, Bill Murray, Sydney Pollack, George Gaynes.

Cansado das recusas seguidas que o acompanham para o escalonamento em papéis teatrais e discussões com seu agente George (Pollack), Michael (Hoffman) se transforma em Dorothy e consegue se tornar um crescente sucesso em uma minissérie sobre um hospital, onde consegue, inclusive, angariar uma legião de admiradores, sobretudo mulheres, que se identificam com seus rompantes, verdadeiros improvisos diante dos diálogos escritos, deixando seus colegas desconcertados. Quem também participa do elenco é a namorada do diretor, Ron (Coleman), Julie (Lange), por quem Michael se apaixona. Esta, no entanto, é mais uma das sentirem o carisma de Dorothy, e admirar seus conselhos. Na época Michael se encontra levemente envolvido com uma amiga de anos, Sandy (Garr) e, como Dorothy desperta ainda a atenção de dois homens mais velhos, seu colega de elenco, John (Gaynes) e o pai de Julie, Les (Durning). O que transforma sua vida em um inferno, daí a necessidade de assumir sua verdadeira personalidade, mesmo sabendo que as implicações profissionais e pessoais não serão fáceis de lidar, ao menos a curto prazo.

Foi um dos grandes sucessos cômicos da década, revisita a troca de gêneros, algo tão antigo quanto o próprio teatro – e curiosamente, no mesmo ano em que outra produção de destaque fez o percurso oposto, de uma mulher se tornando homem em Vitor ou Vitória? Infelizmente peca pela ausência de humor que fuja desta tipologia já bastante estabelecida – um homem tendo acesso aos camarins de mulheres semidespidas (como em Quanto Mais Quente Melhor), apaixonando-se por uma colega de cena,  mudando de voz para se fazer ouvido pelo táxi da rua, temendo ser beijado pelo colega de TV numa cena e reagindo de forma instintiva com os prontuários sobre a cara do médico assanhado, ainda que o ator o beije posteriormente fora de cena e, nesse último aspecto, despertando atração de homens mais velhos. No clip sobre o estrelato de Dorothy, temos ela posando para várias revistas icônicas femininas, e numa delas juntamente com Andy Warhol. Logo a seguir há uma sequência na qual Hoffman discute com Pollack em meio às ruas de Nova York. Uma cena semelhante a de tantos filmes de Allen, houvesse tido um controle da rua enquanto “set”; não é o que ocorre, com várias pessoas olhando para a câmera e os dois, quase uma reprodução menos elegante da poética cena célebre de Acossado. Outra cena charmosa nas ruas é a que finda com um gesto bem “em movimento” de um abraço algo tortuoso congelado, apresentando um happy end, no qual Michael rapidamente desconstrói as reservas de Julie no papo. Possui o charme dos sitcoms e não a tenacidade mais elástica e incontornável da vida como, para efeito de comparação, uma cena final de outro filme de destaque à época, com a mesma Jessica Lange (Frances), trabalharia situação semelhante, no qual somente os dois personagens passeiam, mais para uma melopeia que para a sinfonia animada de gestos de nova-iorquinos cheios de vida em uma cena de controle de set bem mais visível que a citada anteriormente. O filme se apossa, inclusive, de traços da personalidade de Hoffman, com fama de ser um talento difícil durante o processo de realização, com suas inúmeras indagações típicas de alguém que não consegue se sentir na pele de um personagem, típica do “método” que orientou e orienta boa parte das interpretações hollywoodianas e também do teatro. Pollack se torna uma das personagens que na indústria passarão a ter a maior proeminência justamente nesta década, e seu personagem trabalha em uma das maiores agências de talentos à época.  Garr, apresenta traços de uma superficialidade jocosa típicas de um personagem de Allen em boa parte das comédias que começa a realizar em série mais ou menos por época desta produção. Estreia de Geena Davis. Barry Levinson e Elaine May se encontram entre os quatro colaboradores do roteiro não creditados. National Film Registry em 1998. |Columbia Pictures/Mirage Ent./Punch Prod./Delphi Films para Columbia Pictures. 116 minutos.

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