Dicionário Histórico de Cinema Sul-Americano#164: Bye Bye Brasil
BYE BYE BRASIL. (Brasil, 1980). A quintessência do sucesso de uma agência cinematográfica estatal Embrafilme, nos primórdios dos anos 80, e um filme cuja reputação parece ainda crescer globalmente. Bye Bye Brasil, dirigido por Carlos Diegues, é um road movie irônico que atravessa o emblemático nordeste brasileiro, indo do Planalto Central à Amazônia, uma região de exploração, a comentar sobre as mudanças ocorrendo na sociedade, especialmente o influxo da televisão e como ela modifica o entretenimento brasileiro. Bye Bye Brasil foi financiado pela Embrafilme e mais que recuperou este investimento, chegando próximo do 1,5 milhão de espectadores (sendo a décima maior bilheteria entre os filmes brasileiros de 1980 a 1984). Foi defendido como um destinatário ideal de verbas estatais de acordo com o Plano Nacional de Cultura de 1975, em sua tentativa de "criar uma identidade nacional através da preservação das diversidades regionais", e foi um sucesso internacional; por exemplo, foi o terceiro filme brasileiro mais bem sucedido nos Estados Unidos à época, arrecadando 1.3 milhão de dólares.
Tendo se afastado fortemente dos experimentos radicais tanto em estilo narrativo quanto em conteúdo ideológico, que caracterizaram suas obras iniciais do Cinema Novo, quando Diegues realizou Bye Bye Brasil, em 1979 produziu o mais satifatório exemplo de sua "nova forma de espetáculo", que havia proclamado em 1976 (*). Ao seguir um grupo artistas itinerantes cariocas, a Caravana Rolidei, incluindo Lorde Cigano (José Wilker), Salóme, "Rainha da Rumba" (Betty Faria), e Andorinha (Príncipe Nabor), Diegues conseguiu entreter de forma bem humorada, ao mesmo tempo criando metáforas sobre prostituição e explorações humanas, e também criticava seu próprio papel como artista e produtor de mídia. Os artistas dirigiam seu caminhão desde o Rio de Janeiro, e o filme inicia com eles em Piranhas (Bahia), às margens do Rio São Francisco. Lá eles levam um sanfoneiro em flor, Ciço (Fábio Júnior) e sua mulher grávida, Dasdô (Zaira Zambelli). Após montarem suas lonas diante do mar, em Pirapueira, partem para o Nordeste pelo sertão, e em Entremontes (Pernambuco), encontram aldeões rezando por chuva e um batalhador, mas relaxado, projecionista/exibidor de cinema Zé da Luz, interpretado pelo ícone do Cinema Novo Jofre Soares. Zé está apresentando um dos mais populares e clássicos filmes brasileiros em pretro & branco, O Ébrio, escrito e dirigido por sua estrela feminina, Gilda de Abreu. A falta de sucesso de Zé no empreendimento equivale ao fracasso de Lorde Cigano de atrair as pessoas das comunidades para longe da assistência da televisão. Mas a Caravana está mudando nitidamente com os tempos, pretendendo trazer "outros" elementos, especificamente norte-americanos, ao interior - a determinado momento, uma mágica nevasca é criada no palco. E certamente não é coincidência que estrelas da TV Globo como Faria e Wilker sejam elencados como artistas centrais da caravana, tornados prostituta e cafetão nos tempos difíceis da Amazônia. Na verdade, as alusões de Bye Bye Brasil à pornochanchada e ao famoso fascínio erótico da TV Globo cresce com a chegada do caminhão em Brasília; está agora repleto de dançarinas, uma versão de Frank Sinatra de Aquarela do Brasil ressoa no alto-falante, e Lorde Cigano e Salomé rebatizaram seu caminhão de "Caravana Rolidey", numa tentativa da palavra inglesa holiday.
O filme é dedicado aos brasileiros do século XXI, de acordo com seu diretor, apresentando um país em transição. Curiosamente, no entanto, o Brasil que está desaparecendo é representado não apenas por personagens como Zé da Luz, mas também pelos muito mais jovens Ciço e Dasdô, que ficam por Brasília, exibindo o tradicional forró, com sucesso, assim que se apresentam na TV! E ainda que Lorde Cigano seja descrito como o mais brasileiro dentre os personagens - vagando pelo país e disposto a vender qualquer coisa e qualquer um para se tornar famoso - a alternativa mais conservadora e tradicional é capitaneada, em alguma medida, através do personagem de Ciço, o apelido do rebelde e lendário sacerdote do sertão, Padre Cícero.
Texto: Rist, Peter H. Historical Dictionary of South American Film. Plymouth: Rowman & Littlefield, 2014, pp. 108-9.
N. do E.: originalmente grafado no texto 1966, o que não é de forma alguma impossível, mas é mais provável ser de dez anos depois, quando Diegues se envolveu numa defesa de rearticulações estéticas visando, dentre outros propósitos, um maior diálogo com o público e sendo criticado por muitos, criando o termo "patrulhas ideológicas" em referência aos seus críticos.

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