Filme do Dia: Bola de Sebo (1934), Mikhail Romm

 


Bola de Sebo (Pyshka, União Soviética, 1934). Direção Mikhail Romm. Rot. Adaptado Mikhail Romm, a partir do romance de Guy de Maupassant. Fotografia Boris Volchek. Música Mikhail Chulaki (versão de 1955). Dir. de arte Pyotr Beitner & Iosif Shpinel. Com Galina Sergeyeva, Andrei Fayt, Anatoliy Goryunov, Faina Ranevskaya, Pyotr Repnin, Tatyana Okunevskaya, Mikhail Mukhin, Evgenia Mezentseva.

Grupo de burgueses franceses viaja de carruagem em território ocupado pela Prússia. Vai junto deles uma prostituta, Elizabeth Rousset, popularmente conhecida como Bola de Sebo (Sergeyeva), hostilizada pelo grupo e futuro impasse da saída deles, já que o oficial prussiano (Fayt) está interessado nos dotes físicos dela, e ela se recusa a passar uma noite com ele. De início, o grupo a valoriza pela resistência. Logo, no entanto, fará de tudo para que ela tenha seu encontro nada furtivo com ele, e eles consigam abandonar a estalagem e seguir viagem.

Esta versão sonorizada de 1955 faz um desserviço ao original, pois centralizando a sonoridade em uma voz over e descartando as cartelas, transforma o próprio esqueleto comum aos filmes mudos, onde as cartelas comandariam tais comentários, provavelmente articulados com outras cartelas de diálogos – poderia ter se optado pela inclusão apenas da música, para evitar outro equívoco, o das versões completamente mudas, menos fieis ao processo de exibição da época, habitualmente contando com a participação de música. Pode-se perguntar no que sua história caberia na ideologia soviética plenamente vigente do Realismo Socialista. Não muito, observada por si só. Mas há elementos pinçados de uma crítica sarcástica da moralidade burguesa, nacionalista em relação à entrega de Rousset ao oficial prussiano, representante do país invasor. Que rapidamente se demonstra enquanto retórica vazia quando aperta os bolsos dos comerciantes. E a hipocrisia é seu lema, quando se percebe que Rousset poderia se entregar ao prussiano às escondidas afinal. Os planos bem aproximados dos rostos devorando a comida surgem nos dois momentos. E duas vezes Rousset salvou o grupo. De início, quando passavam fome. Depois, quando não podiam partir. No Tempo das Diligências, de meia década após, pode ter bebido indiretamente no romance de Maupassant via conto do qual é uma adaptação. Lá também se lida com uma diligência com predominância de figuras modelares da sociedade, tal como neste, e uma prostituta, embora a centralidade dos marginalizados, levada a cabo por seu protagonista, ao contrário da figura um tanto secundária do soldado prussiano que escolta o veículo neste, traga uma catarse de desforra, além de se acomodar, em última instância, aos padrões desta mesma sociedade, ao se tornarem um casal, inexistente por cá. No caso do western clássico de Ford, evidentemente trabalhado no naturalismo, o que não é o caso desta produção de Romm, conscientemente teatral nas interpretações, com um oficial prussiano do qual sequer temos acesso a seu nome e é creditado por sua função. Do mesmo modo, no grupo de burgueses mal dá  para diferenciar o perfil de cada, funcionando muito mais como um coro; e com uma bela cenografia a construir uma atmosfera sombria. Foi a última produção muda do cinema soviético. |Mosfilm. 65 minutos.

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