Filme do Dia: Point of Order! (1963), Emile de Antonio

 



Point of Order! (EUA, 1963). Direção: Emile De Antonio. Montagem: Robert Duncan.

Filme de estreia do realizador e obra considerada seminal dentro da história do cinema documentário pelo modo que opera com as imagens de arquivo que constituem sua única e exclusiva fonte (não há qualquer intervenção over), sendo que toda a elaboração perspectiva (e até mesmo autoral) se faz através da seleção dentre as centenas de horas televisionadas do qual os realizadores se detiveram, assim como as modestas inserções para discriminar quando se trata de acusação ou defesa,  indo contra as tendências então imperativas e influentes no campo documental norte-americano vinculadas ao Cinema Direto. Se é verdade que o filme faz uso radical de seu material de arquivo, em termos de abdicação de contraposições ou qualquer outro material que não remeta às próprias imagens televisionadas, isso certamente não facilita a vida de um espectador que não se encontre exatamente a par do que está sendo posto em questão, que não é contextualizado para nada além do comentário inicial em uma cartela explicativa que afirma , sendo portanto um necessário prólogo por Paul Newman, quando de sua exibição pela primeira vez em uma TV norte-americana. Mesmo que as tensões em disposição não fiquem muito claras sem qualquer outra informação a respeito, sobretudo bem mais de meio século após os episódios transcorridos, fica patente, a determinado momento, a aberta homofobia na forma com que o juiz leva o público na corte às gargalhadas, ao se referir a alegações de homossexualidade nos quarteis e a um determinado oficial que aparentemente levava os soldados para “limparem o seu rifle”. O populismo de Joseph McCarthy, o célebre senador conservador que iniciou a caça às bruxas ao comunismo que se tornaria conhecida por seu próprio nome (McCarthismo), é um dos protagonistas. Afinal, foi ele o acusado de exigir do Exército benefícios ao soldado David Schine, enquanto McCarthy contra-acusa o Exército de estar discriminando Schine para que ele não investigasse a infiltração de comunistas no Exército. Um dos “clímaxes dramáticos” do filme se dá quando o advogado do Exército Joseph Welch deixa McCarthy visivelmente inseguro sobre a acusação de apresentar material falsificado junto ao tribunal, fonte a qual McCarthy se nega a designar, alegando o segredo de seus informantes.  Fosse um filme dramático se diria que aqui se daria o desenlace da virada.  Quando mais se estreita o cerco a McCarthy mas o público da audiência ri de tiradas feitas contra ele ou deslizes dele próprio (como quando por exemplo chama o Presidente Eisenhower de Sr. Eisenhower e é prontamente corrigido pelo militar que o indaga). Cada vez mais patético, McCarthy reage ao pedido da lista com os cerca de 130 comunistas infiltrados nas fábricas de bombas nucleares contra-atacando com uma insinuação de que um dos assessores de Welch havia tido ligações com um braço do Partido Comunista americano, fazendo uso das mesmas estratégias que o fizeram ganhar uma ascendência tão grande na cena midiática americana de sua época. É justamente nesse momento que Welch dispara a célebre frase e a repete: “Sr. McCarthy, não sobrou nenhum senso de dignidade?”. A relativa tranquilidade com que Welch se encontra ao disparar essa frase contraste com o evidente nervosismo de McCarthy. Ao final, um sonoro e longo aplauso segue a última declaração de Welch, mesmo se sabendo ser proibida manifestações do tipo como já havia sido alertado pelo juiz. E a o final o patética de McCarthy, chega ao grau mais agudo, com ele repetindo sentenças sem grande sentido, o que apenas faz reverberar o que um de seus interrogadores havia feito menção a ele buscar ajuda psiquiátrica. McCarthy então prova de seu próprio veneno, sentindo a pressão que fizera passar todos os que foram acusados ou suspeitos de comunismo, o que incluiu na época boa parte da classe artística, notadamente Hollywood. Nesse sentido, o documentário de de Antonio pode ser considerado um relativamente precoce revide, quando os nomes daqueles que havia entrado na “lista negra” da indústria só haviam recuperado o direito de fazerem uso de seu nome nos créditos três anos antes. Embora de Antonio fosse derrisório em relação às propostas daqueles que advogavam uma não intervenção no real operada pelas produções do Cinema Direto, seu próprio posicionamento é aqui é bem mais dissimulado que o de outros filmes célebres a lidarem exclusivamente com material de compilação, caso de A Queda da Dinastia Romanov (1927), de Esfir Shub. Destaque para a presença de um jovem Robert Kennedy assistindo alguns depoimentos ao fundo. Curiosamente Welch viveria o juiz de Testemunha deAcusação (1959), justamente do realizador que iria quebrar o tabu com relação a profissionais até então na surdina por efeitos do McCarthismo, no ano seguinte, Otto Preminger.  Point Films para Continental Dist.  96 minutos.

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