Filme do Dia: Ben-Hur (1959), William Wyler

 


Ben-Hur (EUA, 1959). Direção William Wyler. Rot. Adaptado Karl Tunberg, a partir do romance A Tale of Christ, de Lee Wallace. Fotografia Robert Surtees. Música Miklós Rósza. Montagem John D. Dunning & Ralph E. Winters. Dir. de arte Vittorio Valentini, Edward C. Carfagno & William A. Horning. Cenografia Hugh Hunt. Figurinos Elizabeth Haffenden. Maquiagem e Cabelos John Truwe & Gabriella Borzelli. Com Charlton Heston, Jack Hawkins, Stephen Boyd, Haya Harareet, Hugh Griffith, Martha Scott, Sam Jaffe, Frank Thring, George Relph, Mino Doro.

O príncipe da Judéia, Ben-Hur (Heston), tem um encontro com o amigo da infância, Messala (Boyd), em que o amor e amizade mútuas cedem gradativamente a tensão, quando Ben-Hur não aceita o convite de participar do governo de ocupação romana sobre os judeus, do qual Messala é um dos homens fortes. Esta tensão se transforma gradativamente em rivalidade, e mesmo ódio, quando Messala pune a ele, e sua família, pelo acidente ocorrido durante a passagem do cortejo do governador da Judeia, Gratus (Doro). Mesmo conferindo que as telhas que caíram podiam rapidamente ceder sob a pressão de um toque não muito forte humano, ele condena o amigo de infância, aprisiona sua mãe Miriam (Scott) e sua irmã, Tirzah (O’Donnell), assim como o administrador dos negócios da família, Simonides (Jaffe), pai da jovem que não via desde a infância, e por quem se envolve romanticamente, Esther (Harareet). 

Os articulistas da Cahiers du Cinema, alguns anos antes sobretudo – por este período estavam mais ocupados realizando seus primeiros filmes -  seriam postos à prova diante da união entre um de seus ícones, Nicholas Ray e um gênero tão engessado quanto o épico hollywoodiano (Rei dos Reis). O que diriam então de apenas um “artesão”, que era menosprezado por eles, como Wyler? Wyler era de uma inteligência acima da média na indústria da época, mas é difícil não sucumbir diante de tantos excessos, de produção, de extras, de custos de filmagens, de cenografia,  de desejo panorâmico de narrar. Saía-se melhor em produções mais intimistas, e reveladoras da condição humana como Os Melhores Anos de Nossas Vidas ou – o hoje pouco lembrado – Perdição por Amor. Vírgula, melhor quando comparado a sua filmografia, porque no embate dos épicos em tela larga, provavelmente não era dos piores. De toda forma, é um exercício árduo se assistir esta exaltação da cristandade de uma enfiada só. As peripécias múltiplas vividas pelo personagem-título de Heston, já escaldado de outra extravagância de poucos anos antes, Os Dez Mandamentos, e provavelmente por este mesmo elencado neste. Ele é uma espécie de “imitação de Cristo”, com sua humanidade parecendo, em grande parte, crescer a partir do momento em que vivencia papéis sociais antípodas no jogo social de então, de rico príncipe judeu à escravo, passível de toda sorte de sevícias. Mesmo não nos apegando mesquinhamente a todos os lugares-comuns típicos do gênero, a soarem um pouco cômicos ou deslocados, quem sabe já na própria época, o que dirá depois (todos falando em inglês, a apresentação racial de árabes em um técnica de blackface um pouco mais sutil apenas do que a utilizada nos tempos do mudo) ou ainda o estrepitosamente insistente tema marcial triunfante de Rósza, soçobram outras pedras pelo caminho. E um tanto pontiagudas. É como se o filme nos evocasse de imediato os painéis, que poderiam ser vistos isoladamente, das Paixões, dos tempos do Primeiro Cinema, a exemplo de Vida e Paixão de Jesus Cristo. São tantas mudanças, e um ajuste tão automático a cada uma delas por parte de nosso herói, de príncipe a aclamado após a corrida de bigas, passando por remador das galés e chegando a ter sua sensibilidade aparentemente transformada após o encontro com Cristo, justo no momento do sacrifício deste, embora antes igualmente (fora Cristo quem lhe trouxera água quando prisioneiro) que a sensação de saltos intermitentes daquelas paixões de meio século antes ressoa ainda com força. E, por outro lado, sobram poucas frestas onde se pode respirar um ar menos contaminado, não pela lepra da colônia onde a mãe e irmã de nosso herói padecem, mas por todas estas contingências elencadas (custo de produção, estreiteza habitual no manuseio dos protocolos do gênero, excessos também narrativos). Uma delas, a saltar aos olhos, sobretudo após sua menção no documentário O Celuloide Secreto, é do estrepitoso enlevo homoerótico na vibrante recepção de Massala a Ben-Hur, coroada com o enlace de braços a sorver o vinho barato destacado pelo primeiro. E que persistirá, de certa forma, na perseguição à figura do antigo amigo, como é o caso da sequencia de bigas, um triunfo da técnica e dos efeitos especiais de seu tempo, como a seu modo já fora o da versão muda, e na visita de Ben-Hur a Massala em seu leito de morte. Para não falar dos tiques bastante efeminados do Pilatos de Thring. E que se devem a participação não creditada – assim como a de Maxwell Anderson e Christopher Fry, colaborador de outras produções épicas como Barrabás e A Bíblia...No Início – de Gore Vidal no roteiro, e também presente no documentário citado. A falta de criatividade dos grandes estúdios também se reflete em voltar a elencar Scott como mãe de Heston, o que também fora em Os Dez Mandamentos. O produtor, Sam Zimbalist, morreu de ataque cardíaco, poucos minutos após sair do set. |MGM. 212 minutos.

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