Filme do Dia: A Filha do Palhaço (2022), Pedro Diogénes

 


AFilha do Palhaço (Brasil, 2022). Direção Pedro Diógenes. Rot. Original Pedro Diógenes, Michelline Helena & Amanda Pontes. Fotografia Victor Melo. Montagem Victor Costa Lopes. Dir. de arte Thaís de Campos. Figurinos Lia Damasceno. Com Lis Sutter, Demick Lopes, Jesuíta Barbosa, Jupyra Carvalho, Ana Luiza Rios, Valéria Vitoriano, Patrícia Dawson, Luíza Nobel, David Santos.

Humorista que faz show de humor travestido como mulher, em Fortaleza, Renato (Lopes) é um ator que consegue pagar as contas, mas somente após 14 anos estabelece um contato efetivo e afetivo com a filha, Joana (Sutter), para passar uns dias ao lado deste pai ausente, que aos poucos vai descobrindo, se apaixonando, detestando e compreendendo. Os dias com o pai são bruscamente interrompidos com a chegada de uma mãe irada que fora avisada pela filha que iria para a casa de uma amiga.

Ao contrário do mais distanciado emocionalmente, mais ousado dramaticamente e melhor Inferninho, Diógenes traça este sensível retrato de um primeiro contato verdadeiro entre pai e filha, com todo um repertório já conhecido de motivos semelhantes: inicialmente o afastamento, depois a gradual aproximação, por fim a cumplicidade, mesmo que tingida pelos inevitáveis conflitos e ressentimentos. O melhor dos momentos é o mais inesperado, menos típico e dramaticamente modesto, no qual o pai canta Assum Preto para a filha adormecida. O pior, de longe, é a cena final da discussão entre Renato e a ex-mulher que não aceita que ele se encontra com a filha. Esquemática, rígida e clichê. Um (mau) teatro passado para o filme. É uma grande interpretação de um daqueles atores que parece não se separar muito de si mesmo, para o bem e para o mal. Ou seria tão bom ator que nos faz pensar nesta hipótese? E quando se aposta todas as fichas nos sentimentos, eles estão onipresentes, que não são exatamente momentos excepcionais de irrupção destes, como em Cassavetes, que lhe darão patamar de encantamento inesquecível. Mas não está mal, e é uma aposta de risco comprada pela dupla. Mesmo imensamente menos esteticamente elaborado que o filme anterior, ainda assim há momentos inspirados neste sentido. Como o da visualmente bem elaborada cena a emular um espetáculo de títeres, no qual o Marlon de Jesuíta parece comentar uma possível reação emocional do espectador a cena entre pai e filha da sequência imediatamente anterior (“sinto que há uma lágrima a se formar em meu olho”). Esta sequência é como uma digressão dramática que pertencesse ao filme anterior, com trabalho de construção visual de outra natureza é certo, mais marcadamente teatral, até por ser um espetáculo teatral, enquanto o filme corre sobre os trilhos de um realismo (melo)dramático mais convencional. Um tributo a Paulo Diógenes, criador de uma personagem do humor cearense no qual se baseou a vivida por Renato, e que morreria dois anos após sua realização. A cena final é o fecho novelesco no melhor estilo, após passear por todos estes recantos comuns que uma telenovela faria – a humilhação testemunhada; o “momento da dança” como demonstração de afeto; o companheiro morto há dois anos a criar o primeiro vínculo a aproximar de fato pai e filha (o anterior era o da filha chorando nos braços do pai após o fora do namorado, sem este saber exatamente do que se tratava, mas agindo de fato e não mais encenando como lidaria com uma filha imaginária ao qual encenara anteriormente em seu camarim); a inaptidão do pai para as coisas práticas da vida; a confissão da filha de que sente falta do ex-namorado; o momento de catarse da filha como vingança pela postura autoritária do pai e por aí vai. O nome da filha é uma homenagem a cantora, que é a trilha musical do “momento emoção” entre pai e filha, e do qual a filha (e o filme)  não se entrega de todo, numa aproximação oblíqua e interessante do que seria o esperado, o que infelizmente não vale para a maior parte das situações. E esta identidade entre cantora, música predileta e nome da filha diz muito da redundância e ausência de sutileza – como ela poderia conhecer que seu nome era herdeiro da cantora após o trauma de uma mãe que se viu abandonada por outro homem? E sumido? |Marrevolto para Embaúba Filmes. 104 minutos.

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