O Dicionário Biográfico de Cinema#339: Meryl Streep
Meryl Streep (Mary Louise Streep), n. Summit, Nova Jersey, 1949
Meryl Streep é uma atriz modelo nos filmes americanos - mas alguns tem dito de uma forma que faz a atuação parecer excessivamente solene ou calculada? Aos quarenta, não apenas era considerada a mulher mais talentosa nos filmes, mas a mais destacada. A distinção não é um elogio comum nos filmes, nem é frequentemente bem intencionada. Os distinguidos são por vezes aqueles que o público não ama: o termo cai pesadamente sobre as cabeças de Olivier, Katharine Hepburn e mesmo Al Pacino, por vezes. Mas bem no final dos anos oitenta, tinha sido brilhante, devidamente encerrada e definitivamente australiana em A Cry in the Dark [Um Grito no Escuro] (88, Fred Schepisi). Muitas poucas pessoas foram ver o filme - seu tema e cenários não eram aprazíveis - mas alguns reconheceram que a presença de Streep já era, naquele tempo, um suficiente alerta para um público cauteloso. Ela poderia ser soberba, em vez de fria, em um filme que possui um pouco de mágica vulgar. Até mesmo os críticos que a admiravam haviam se cansado da reclamação de que, em seus mais altos picos de habilidade, se sentia a respiração esforçada de uma maestria técnica. Ela foi indicada seis vezes para melhor atriz em dez anos, e duas vezes como coadjuvante. Venceu em ambas as categorias. Mas alguém se importou?
Algo como um pânico parecia começar a se instalar. Ela tinha quarenta anos; nunca foi universalmente aclamada como uma beleza; e foi geralmente associada com material sério, senão mesmo trágico. Então realizou um mergulho na comédia pouco menos que desastroso: como a romancista romântica em She-Devil [Ela é o Diabo] (89, Susan Seildeman); como o alter-ego de Carrie Fisher em Postcards from the Edge [Lembranças de Hollywood] (90, Mike Nichols); Defending Your Life [Um Visto Para o Céu] (91, Albert Brooks); e com Goldie Hawn no horrivelmente mal calculado Death Becomes Her [A Morte lhe Cai Bem] (92, Robert Zemeckis).
Ao tentar ser engraçada, Streep se tornou mais difícil de gostar. Uma ponta de arrogância surgiu, não importando que ela estivesse corajosamente se lançando em território desconhecido. Foi indicada novamente por Lembranças de Hollywood, e ela esta tão esperta no filme como sempre, para não dizer divertida em muitos diálogos desperdiçados. Mas a película (para não falar de seu público) dificilmente sabia como lidar com Streep no papel de uma fracassada, uma mulher dominada por sua mãe, não tão boa em seu trabalho, e humilhada por sua próprias fraquezas. Lembranças clamava por uma atriz principal de menor estatura - era tão óbvio que merecia Carrie Fisher (assim como ela merecia isso). Streep não é facilmente pequena, abjeta ou descartada - ela deveria ter interpretado a mãe. De fato, uma atribuição, ela pode fracassar magnificamente até se tornar magnífica e operática - por exemplo, Ironweed (87, Hector Babenco). Ela tinha agora certos problemas de parecer natural.
Os pais de Streep eram bem sucedidos (o pai um executivo da indústria farmaceutica, a mãe uma artista comercial). Cresceu em Bernardsville em Nova Jersey, e foi então para Vassar e a Escola de Drama de Yale - graduou-se nela em 1975. Naquela altura, já era famosa como uma cativante atriz de palco, com uma amplitude e intensidade incomuns. Apareceu no Public Theater em um musical, Alice in Concert - foi treinada como cantora tão bem quanto atriz. Dentre outros papéis teatrais, esteve em Shakespeare no Parque com Measure for Measure (como Isabella), onde se encontrou e se apaixonou pelo ator John Cazale. Cuidou dele em sua doença final, até sua morte em março de 1978. Posteriormente, casou-se com um escultor, Don Gummer e tiveram crianças juntos.
Fez sua estreia na televisão, em The Deadliest Season [Temporada Mortal] (77, Robert Markowitz), e com uma peruca preta como uma amiga antipática em Julia (77, Fred Zinnemann) - diz-se que Jane Fonda predisse uma grande carreira. Mas Streep provocou maior impacto, e ganhou um Emmy, na minissérie de TV Holocaust [Holocausto] (78, Marvin J. Chomsky).
The Deer Hunter [O Franco Atirador] (78, Michael Cimino) foi seu primeiro grande filme, ainda que seu papel tenha sido pouco desenvolvido no roteiro. Mas Streep trouxe uma notável presença às suas cenas e uma qualidade de incerteza que enriqueceram o filme inteiro. Foi vívida e hostil em Manhattan (79, Woody Allen), e fez o seu melhor contra dois caras infantis em Kramer vs. Kramer [Kramer x Kramer] (79, Robert Benton).
Nestes dois filmes trabalhou bastante para ser maravilhosa e sexy, mas algo não parecia se encaixar - seria uma contenção interna, ou uma certeza feroz de que as atrizes não deveriam se vender?: The Seduction of Joe Tynan [A Vida Íntima de um Político] (79, Jerry Schatzberg) e Still of the Night [Na Calada da Noite] (82, Benton).
O que dificilmente parece importar, pois agora era uma figura reinante, capaz de qualquer sotaque ou período - o que se rotula como grande atriz: The French Lieutenant's Woman [A Mulher do Tenente Francês] (81, Karel Reisz); luminosa, tocante, mas estranhamente distante em Sophie's Choice [A Escolha de Sofia] (82, Alan J. Pakula) - como se seu próprio gênio nos levasse a ver o quão falsa aquela história é. No seu melhor, mais selvagem, perigosa, e menos respeitosa, em Silkwood [Silkwood - Retrato de uma Coragem] (83, Nichols). Falling in Love [Amor à Primeira Vista] (84, Ulu Grosbard) foi uma história de amor novelesca, com De Niro.
Assombrosa novamente em Plenty [Plenty, o Mundo de uma Mulher] (85, Schepisi), embora já fosse claramente ominosa, naquela altura, que seu gosto era por mulheres que ninguém mais poderia suportar. Out of Africa [Entre Dois Amores] (85, Sidney Pollack) foi uma sensação por um momento, mas mal posso me lembrar dela no filme. Heartburn [A Difícil Arte de Amar] (86, Nichols) foi uma tolice de um tipo especial de celebridade. Ironweed poderia ter funcionado nos palcos - no cinema parecia morto e calculado. E A Cry in the Dark [Um Grito no Escuro] é um filme que qualquer jovem atriz deveria analisar.
Esta é a sina de Streep - ela é apenas um modelo acadêmico ou poderia encontrar mulheres mais velhas que pareciam vivas para um público mais amplo? Penso que sua profundidade é demasiado grande para aceitar o fracasso agora. Mas não demonstrou nenhum instinto para organizar sua própria carreira e ela não pode esperar ter novas Sofias apresentadas a ela em porcelana de Dresden. Ela teve que tomar o futuro em suas próprias mãos. Pode fazer pior que retornar ao teatro por alguns anos. Melhor isso do que as aberrações como House of the Spirits [A Casa dos Espíritos] (93, Bille August) ou o determinado atletismo de The River Wild [O Rio Selvagem] (94, Curtis Hanson).
Fez uma fabulosa personagem de The Bridges of Madison County [As Pontes de Madison] (95, Clint Eastwood) - e conquistou outra indicação. Fez Before and After [Antes e Depois] (96, Barbet Schroeder); Marvin's Room [As Filhas de Marvin] (96, Jerry Zaks); a mãe de um epiléptico na TV em ...First Do No Harm [Pela Vida do Meu Filho] (97, Jim Abrahams); Dancing at Lughnasa [A Dança das Paixões] (98, Pat O'Connor). Então, de volta à sua melhor forma como a mulher moribunda - não tão inteligente, mas cheia de compreensão - em One True Thing [Um Amor Verdadeiro] (98, Carl Franklin); Music of the Heart [Música do Coração] (99, Wes Craven).
Foi a voz da Fada Azul em A.I. [I.A. - Inteligência Artificial] (01, Steven Spielberg); foi Susan Orlean em Adaptation [Adaptação] (02, Spike Jonze); The Hours [As Horas] (02, Stephen Daldry); muitas pessoas, vivas e mortas, em Angels in America [Anjos na América] (03, Nichols); Flora Plum (04, Jodie Foster) (*); e sendo Angela Lansbury em The Mandchurian Candidate [Sob o Domínio do Mal] (04, Jonathan Demme).
Atualizar Meryl Streep é sempre cheio de peripécias. Desde a última edição, já ultrapassou os 60 anos (sem deixar de parecer velha) e realizou mais que uma dúzia de filmes. Empurrou suas indicações ao Oscar ao total de 15 (chegou a dezesseis quando Julie & Julia foi considerado). Venceu o prêmio do AFI pelo conjunto da carreira em 2004 e o Prêmio Stanislavski de Moscou. Acrescenteu alguns filmes de pobres a ruins: Prime [Terapia do Amor] (05, Ben Younger); Rendition [O Suspeito] (07, Gavin Hood); Lions for Lambs [Leões e Cordeiros] (07, Robert Redford); Mamma Mia! (08, Phyllida Lloyd); incomumente limitada como a Madre Superiora em Doubt [Dúvida] (08, John Patrick Shanley).
Ao mesmo tempo fez Lemony Snicket's A Series of Unfortunate Events [Desventuras em Série] (04, Brad Silberling); A Prairie Home Companion [A Última Noite] (05, Robert Altman); Dark Matter [Fúria pela Honra] (07, Chen Shi-zheng); Julie & Julia (09, Ephron); Fantastic Mr. Fox [O Fantástico Sr. Raposo] (09, Wes Anderson); It's Complicated [Simplesmente Complicado] (09, Nancy Meyers).
Houve também uma semana ou algo assim, nos anos em questão, quando voltei a assistir O Franco Atirador e fui imediatamente levado pela quantidade de significado e sentimento que ela estava contribuindo, sem falas ou direção aparente, do restante do filme. Parece-me possível que seja prejudicada por sua estatura agora - não que saiba o que fazer - e é, de maneira simples e decente, alguém muito prejudicada pelo mundo. Bem, ela fez o seu melhor com este dilema e representa melhor do que jamais teremos.
Isso dito, sua Margaret Thatcher em The Iron Lady [A Dama de Ferro] (11, Phyllida Lloyd) foi horrível, sentimental e ignorante do verdadeiro brutalismo da dama. Rendeu a Streep outro Oscar, seu terceiro, mas ela disse que sabia que tais coisas eram tolice. Esteve com Tommy Lee Jones em Hope Springs [Um Divã para Dois] (12, David Frankel) e era difícil crer que estivessem casados ou já tivessem sido. Essas coisas vão passar: é bom para nós, e para ela, que as vezes caia de cara. Mas August: Osage County [Álbum de Família] (13, John Wells) foi outro erro de cálculo.
Texto: Thomson, David. The New Biographical Dictionary of Film. N. York: Alfred A. Knopf, 2014, pp. 2256-59.
N. do E: (*) filme não creditado no IMDB.

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