O Dicionário Biográfico de Cinema#319: Bob Rafelson

 


Bob Rafelson, n. N. York, 1933*

1968: Head [Os Monkees Estão Soltos]. 1970: Five Easy Pieces [Cada Um Vive Como Quer]. 1972: The King of Marvin Gardens [O Dia dos Loucos]. 1976: Stay Hungry [O Guarda-Costas]. 1981: The Postman Always Rings Twice [O Destino Bate à Sua Porta]. 1987: Black Widow [O Mistério da Viúva Negra]. 1990: Mountains of the Moon [As Montanhas da Lua]. 1992: Man Trouble [O Cão de Guarda]. 1994: Wet (c). 1996: Blood and Wine [Sangue & Vinho]. 1998: Poodle Springs [Intriga Mortal] (TV). 2002: Erotic Tales (c). 2003: No Good Deed [Sem Risco Aparente].

Do Dartmouth College, Rafelson serviu o exército e, enquanto esteve locado no Japão, trabalhou como disc-jockey em uma rádio e consultor da Shochiku, uma companhia de cinema que exportava aos Estados Unidos. De volta à América, foi um editor de contos para a TV. Pairava à margem da indústria cinematográfica, sem encontrar um papel que satisfizesse sua urgência por independência. Em recompensa, em parceria com Bert Schneider, entregou-se ao seu amor pela cultura de lixo descartável  ao formar o grupo pop The Monkees, promovendo-os, dirigindo-os e os desenhando e por fim se encontrando tanto fascinado quanto alarmado por seu papel como mestre dos fantoches. Os Monkees Estão Soltos é uma fantasia selvagem e fragmentada sobre a vida e morte de tal grupo, e foi escrito por Rafelson e um amigo próximo, Jack Nicholson

Cada Um Vive Como Quer e O Dia dos Loucos vieram da mesma parceria. Eles compartilham uma atenção fascinada por histórias íntimas e familiares, por pessoas que são autênticas e cheias de vida, e por partes dos Estados Unidos que raramente chegam às telas. Em ambos, Nicholson interpreta um vagamente artístico membro proscrito de uma família, perturbado por seu fracasso a ser convencido pela domesticidade ou pelos sentimentos nos relacionamentos que o atraem. Rafelson ainda estava um pouco oculto pela presença hesitante, mas muito cativante, de Nicholson, e por sua própria contenção. No entanto, certas características podem ser capturadas: foi um contador de histórias - muito de sua personalidade reside nas mudanças inesperadas de suas narrativas, a consciência do ponto de vista, e o tratamento terno da individualidade peculiar.

Como o personagem central em O Dia dos Loucos, Rafelson foi um contador de histórias de vívidos e tocantes eventos, observando a si mesmo do escuro. E a narração é profundamente convincente. De fato, o sentimento de atualidade é tão grande que, por esta época, Rafelson parecia um romancista, não muito afetado pelos gêneros cinematográficos, mas discretamente focado em descrever vidas e lugares que ele conhecia. (Isto é raro no cinema americano, onde os filmes invariavelmente realizam ideias e imagens imaginadas pelos diretores. As pessoas em tais filmes, e frequentemente os lugares, são idealizados: p.ex., o Oeste, a cidade, o herói, o mordaz). Seu estilo visual foi funcional. O senso de cuidado pelas pessoas e lugares foi um resultado de uma câmera retraída e observadora, que somente ocasionalmente permite a si própria um plano evidentemente "bonito" - tal como o momento em O Dia dos Loucos que a câmera corta para um ângulo alto, para mostrar o calçadão em espinha de peixe de Atlantic City.

A continuidade dos dois filmes é bastante intrigante. Cada Um Vive Como Quer inicia no Texas com Nicholson como um perfurador de petróleo, vivendo com Rayette, uma garota local. E é a crua vulgaridade de Rayette que nos faz perceber o quão fora de si Nicholson está. Não que Rayette seja menosprezada ou observada com paternalismo. Ela é tratada com a mesma fatigada compaixão e intermitente afeição que faz Nicholson suportá-la. Ela está grávida, e Nicholson começa a escapar dela ao ir visitar seu pai doente. Trata-se do característico alargamento de Rafelson de uma situação. Pois a família é elitista, isolada no norte rural, focada em sua própria produção de música clássica. À medida que nos movemos das planícies ensolaradas para uma região sombria e arborizada, descobrimos que Nicholson foi um bom pianista, e fugiu da intensidade restritiva de sua família. O pai teve um derrame e está inerte, e Nicholson tem um caso com a noiva do irmão, uma criatura "perfeita", rarefeita, mas cheia de paixão, antes de Rayatte também vir ruidosamente ao norte. Portanto, uma vez mais, Nicholson escapa do calor do momento mas, cronicamente, para o Alasca, abandonando Rayette em um banheiro de um posto de gasolina. O comportamento irresponsável não exclui um claro sentimento que Nicholson é tocado e fica perplexo com as pessoas. 

Em O Dia dos Loucos, Nicholson é um contador de história no rádio - um homem quieto que se expande diante de um microfone - chamado a Atlantic City por seu desleixado irmão, um trapaceiro bufão cujo trabalho para "Lewis" parece tê-lo aproximado da concessão de jogos de azar em uma ilha havaiana. O irmão vive com a esposa e a enteada desta. A esposa é uma boneca Kewpie (**) envelhecida, mais sofisticada que Rayette, mas essencialmente como ela; enquanto a enteada é da mesma beleza pre-rafaelita quanto a noive em Cada Um Vive Como Quer. Apesar de belamente interpretada e esboçada, este personagem da "jovem devassa" é perigosamente controversa - a mais enraizado nos filmes, na verdade, e há uma fraqueza (em seus próprios termos) no modo como Rafelson sucumbe ao charme de tal "princesa hippie".

Dito isto, O Dia dos Loucos vai mais longe que Cada Um Vive Como Quer na tragédia. O plano havaiano é fantasia, uma empreitada impossível que ninguém consegue justificar. O irmão abandona a esposa pela enteada e, em uma cena magnífica de desencontros, a esposa, tomada pela angústia e pelo amor rejeitado, é levada a matar o irmão. Poucos crimes nas telas equacionaram o melodrama com o cotidiano e traçaram o lançamento do espasmo da intratabilidade doméstica tornando as pessoas  assassinas. Uma vez mais, a família foi refutada. Nicholson volta à Filadelfia com o caixão, para a casa onde vive com seu avô, que está assistindo velhos filmes domésticos dos irmãos quando crianças, brincando na costa de Atlantic City, onde a maior parte da ação teve lugar. 

O Dia dos Loucos e Cada Um Vive Como Quer podem ser facilmente vistos como metáforas do impulso criativo nos Estados Unidos - querendo falar, mas não convencido pelas palavras, e dividido entre a arte e o comércio. Os irmãos, em O Dia dos Loucos, são versões do roterisita/diretor e do produtor/homem do entretenimento; e os dois cancelam um ao outro, como se Rafelson visse os esforços familiares como a raiz para um silêncio eventual e cansado. 

O declínio de Rafelson pode ser datado de O Destino Bate à Sua Porta, apesar de suas qualidades em termos de atmosfera, solidão e desespero sexual, e não importa a força de Nicholson e Lange, não parece haver uma razão poderosa para refazer esta história. E Rafelson precisa fazer algo urgente, e mesmo perigoso. O Mistério da Viúva Negra foi, de forma mais evidente e desastrosa, uma tentativa de criar uma obra rotineira de gênero. Mas a trama é confusa e um teste para nossa credulidade; Theresa Russell não foi inventiva o suficiente como assassina, e Debra Winger não é uma heroína natural. As Montanhas da Lua foi o único filme que delicia-se com o próprio gosto de Rafelson por viagens de aventuras, mas sua história central colapsa por conta do roteiro superficial e interpretações embaraçosas. O Cão de Guarda e Sangue & Vinho foram, infelizmente, os piores filmes que Rafelson fez. 

Texto: Thomson, David. The New Biographical History of Film. N. York: Alfred A. Knopf, 2014, pp. 2144-47.

(*) N. do E: falecido em 2022.

(**) N. do T: uma coleção de bonecas bem pequenas bastante popular nos Estados Unidos.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Filme do Dia: Der Traum des Bildhauers (1907), Johann Schwarzer

Filme do Dia: El Despojo (1960), Antonio Reynoso