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quinta-feira, 19 de maio de 2016

Filme do Dia: Cada Um Vive Como Quer (1970), Bob Rafelson


Cada Um Vive Como Quer Poster


Cada um Vive Como Quer (Five Easy Pieces, EUA, 1970). Direção: Bob Rafelson. Rot. Original: Carole Eastman, baseado no argument de Eastman & Bob Rafelson. Fotogafia: László Kovács. Montagem: Christopher Holmes & Gerald Shepard. Dir. De arte:Toby Carr Rafelson & Walter Starkey. Figurinos: Bucky Rous. Com: Jack Nicholson, Karen Black, Billy Green Bush, Fannie Flag, Sally Struthers, Richard Stahl, Lois Smith, Helena Kallianiiotes, Toni Basil, Susan Anspach, Ralph Waite, Irene Dailey, William Challee, John P. Ryan.
Robert Dupea (Nicholson) é a ovelha negra de uma aristocrática família de músicos, que vive de bicos e é um inverterado mulherengo, apesar de manter uma relação relativamente recorrente com a tonta Rayette (Black). Um reencontro casual com sua irmã Tita (Smith) em Los Angeles faz com que Robert se interesse em voltar a visitar a família e rever o pai semi-inválido (Challee). A tensa relação com o irmão mais velho, Carl (Waite) faz com que sua relação amorosa com a amante e aluna desse, Catherine (Anspach), torne-se igualmente problemática,  enquanto sua irmã passa a se interessar pelo enfermeiro do pai, Spicer (Ryan).
           Primeiro filme a chamar a atenção do realizador Rafelson, cuja carreira irregular, perderia o brilho de vez após os anos 80 e que foi catapultado como produtor-realizador associado ao momento contemporâneo de contra-cultura, sendo o filme  bem mais convencional que Sem Destino (1969), com o qual é sempre irremediavelmente comparado. Se, por um lado, é moderno o suficiente para abdicar de uma trilha sonora e do sentimentalismo, retratando seus personagens de modo semelhante ao pseudo-cinismo de seu chauvinista personagem principal, que cai como uma luva em Nicholson, sendo seu primeiro filme de destaque como ator principal, por outro tampouco deixa de tocar em temas caros ao melodrama familiar hollywoodiano. Vai nesse sentido o tema da traição dentro da própria família e o conflito entre gerações. Tudo, é bem verdade, apresentado de modo seco. Para ficar em um exemplo basta pensar no “clássico” ajuste de contas entre pai e filho, do qual somos poupados de qualquer incentivo maior ao lacrimogêneo pois o pai não esboça nenhuma palavra  ou sentimento mais expressivo desde que sofreu um derrame. É evidente a simpatia do filme pela anarquia e falta de cerimônia de seu protagonista e sua recusa a aderir aos valores da família, considerados hipócritas e que mesmo sintomática da época, tampouco é ausente da tradição melodramática nos seus   mais diversos gêneros (filmes de John Ford, Frank Capra, etc.; aliás um trecho de Da Vida Nada Se Leva, do último é exibido em uma TV a certo momento). É claro que também se faz presente aqui uma dimensão psicanalítica mais precisa que em seus antecessores e que voluntariamente ou não deixa evidente  a  relação entre a imaturidade de Robert com relação a assumir qualquer relacionamento, selada mais uma vez ao final do filme, quando abandona a companheira para ser carona de um caminhoneiro, e uma evidente ausência da figura paterna. O dom natural do personagem de atrair e ser atraído por todas as mulheres que lhe rodeiam gera alguns momentos de intimidade que hoje soam forçados ou ao menos de longe tão bem conseguidos quantos os de Cassavetes ou mesmo Huston em Cidade das Ilusões (1972). E o mesmo pode ser dito da parvoíce do meio caipira no qual Robert está inserido. O filme, no entanto, encanta em certos momentos pela beleza ocasional de seus enquadramentos, seja logo ao início, quando Robert se encontra pela primeira vez com a companheira, de uma mesma perspectiva que voltará a se fazer presente no filme, na intensidade com que enquadra o melhor amigo de Robert com um imenso horizonte ao fundo ou no posto de gasolina ao final.  As canções auxiliam fortemente na composição dos personagens, sendo a música que Rayette escuta logo ao início, Stand by Your Man, sobre os sofrimentos de uma mulher e a fidelidade a seu homem que, afinal, “nada mais é que um homem”, sua própria tradução. Particularmente interessante é o momento no qual Robert toca piano para a amante do irmão e recusa a acreditar que a executou com sentimento, num perspicaz comentário que fala muito sobre os distintos valores que separam a sua família e sua concepção idealizada de arte e o  meio operário no qual vive, o qual tampouco consegue se ajustar à perfeição.  A produtora ao qual Rafelson foi um dos sócios fundadores também produziu Sem Destino  e A Última Sessão de Cinema (1971), de Bogdanovich. National Film Registry em 2000. BBS Prod./Columbia Pictures Corp./Raybert Prod. para Columbia. 98 minutos.

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