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sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Filme do Dia: Elizabeth (1998), Shekhar Kapur


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Elizabeth (Elizabeth, Reino Unido, 1998). Direção:  Shekhar Kapur. Rot. Original: Michael Hirst. Fotografia: Remi Adefarasin. Música: David Hirschfelder. Montagem: Jill Bilcock. Dir. de arte: John Myhre & Lucy Richardson. Cenografia: Peter Howitt. Figurinos: Alexandra Byrne. Com:  Cate Blanchett,  Geoffrey Rush,   Joseph Fiennes,  Richard Attenborough,  Christopher Eccleston, Jamie Foreman,  Edward Hardwicke,  James Frain, Emily Mortimer,  Kelly MacDonald, Kathy Burke,  Fanny Ardant,  Vincent Cassel,  Daniel Craig,  John Gielgud, Jean-Pierre Léaud.
          A princesa Elizabeth (Blanchett), passa a ser o centro das atenções da corte inglesa do século XVII sob a eminente morte da irmã, a atual rainha Mary Tudor (Burke). Porém sua ascensão ao trono representa uma séria querela diplomática-política, já que ela é protestante, e a maioria da Inglaterra, segue a rainha de orientação católica. Presa, ela teme a morte, embora as palavras de despedida do seu amado Robert (Fiennes) lhe encorajem, no sentido de que não deve esquecer suas origens e se deixar humilhar, como filha de Henrique VIII e Ana Bolena. Mas o encontro com a irmã se não lhe resulta em sentença de morte, também não tem como resultado o oposto, sua coroação de livre e espontâneo desejo da rainha moribunda. Com a morte da rainha, Elizabeth, insegura e tímida, vê-se como uma das pessoas mais poderosas da face da terra de um momento para outro. Sem saber o que decidir sobre revidar ou não a eminente invasão das tropas francesas baseadas na Escócia, sob o comando de Marie de Guise (Ardant), ela escuta seus conselheiros. A maioria se prova a favor, inclusive seu conselheiro-mor, Sir William Cecil (Attenbourough) e o influente e autoritário Duque de Norfolk (Eccleston), embora o astuto Sir Francis Walsingham (Rush), mantenha-se contrário. Ela cede e o resultado é desastroso. No dia da coroação, no entanto, ela se impõe, retrucando todo que lhe opõem, e fazendo aprovar tudo que deseja, inclusive a unificação da igreja sob a égide protestante e sua própria continuidade como rainha, por uma diferença de 5 votos - sendo que os ferinos bispos católicos se encontravam devidamente aprisionados nesse momento, por ordens de Sir Walsingham. Quando sabe dos resultados, o Papa (Guielgud), amaldiçoa Elizabeth e posteriormente prega a morte dela. Os rumores sobre quem será o pretendente que Elizabeth escolherá para tornar-se rei  ganham dimensões de estratégica importância política. As apostas se dividem entre a França e a Espanha, embora no coração da rainha só exista espaço para o seu anterior bem amado e com quem vive uma aberta relação, lorde Robert. Ela vai pessoalmente a frente de batalha e se indigna com o morticínio de crianças, comandada pelos bispos católicos. Pressionada para casar-se com o Duque de Anjou (Cassel), para que seja selada uma aliança com a França que dê fim ao morticínio, Elizabeth, anti-militarista, aceita conhecê-lo, provocando a revolta de Robert. Porém nos dias e noites que o acolhe em sua corte, consegue sobreviver a um atentado e dá provas de que seu interesse mesmo é no atual amante, desclassificando qualquer intenção de casar-se com Anjou, ao surpreendê-lo em meio a uma bacanal, travestido de mulher. Aparentemente tramando contra sua própria rainha, Sir Walsingham sucumbe ao canto de sereia de Marie de Guise, que, sabedora de sua influência e inteligência,  indaga sedutoramente se ele pretende manter relações mais próximas com a Espanha ou a França, e ele a mata em seu leito. Elizabeth, no entanto, rompe publicamente com Lord Robert, afirmando que pretende governar sozinha, sem a necessidade da presença masculina. Lord Robert, humilhado e sob a influência cada vez maior do representante espanhol Alvaro de la Quadra (Frain), sugere que Elizabeth case-se com o monarca espanhol apenas formalmente, para que seus reinos sejam unidos, embora cada um continue a viver em seu país. Ela descarta a sugestão, ao mesmo tempo que segue os conselhos de Walsingham de provocar uma verdadeira caça às bruxas na corte, no intuito de assegurar sua estabilidade. Uma onda de assassinatos e prisões contra seus opositores culmina com a aposentadoria forçada de Sir William Cecil e a prisão e morte de seu maior rival, o Duque de Norfolk. Sem rivais à altura e completamente investida da autoridade e poder de representar a Inglaterra, Elizabeth se desliga de qualquer outro sentido na vida que não seja o de ser a rainha de seu povo, não mais reatando a relação com Lord Robert - a quem salvará do morticínio, embora faça questão de reconhecer que foi o perigo que conviveu mais próximo de si -  ou qualquer outro homem que seja.
Segue todas as fórmulas das grandes produções de época, com elenco estelar, esmerada direção de arte, fotografia e figurinos, uma trama histórica com toques de intrigas palacianas e carnificina shakesperiana - como em Rainha Margot - e uma trilha sonora dramática e pomposa. Além de esmeradamente acadêmico, o filme logicamente também pretende se ajustar ao seu tempo, apresentando uma Elizabeth proto-tipicamente moderna e independente, que se identifica - e, consequentemente, cria um forte elo de identificação com o espectador - com tudo o que hoje consideramos de bom senso, como o anti-militarismo e a autonomia feminina. Aliás a identificação com Elizabeth como a iluminada não necessita de grande esforço quando pensamos em suas caricatas contrapartes, seja a imunda, feia  e burra irmã que governava anteriormente, a falta de escrúpulos da Igreja Católica na figura do Papa ou a ridícula prepotência de Anjou.  Enquanto na forma o único momento em que se pretende fazer o mesmo, ou seja, ajustar o filme a seu tempo, não vai além de uma patética seqüência em que uma ansiosa Elizabeth procura decorar sem sucesso seu discurso como futura rainha e cada tentativa representa um take e um corte abrupto, como nos mais banais videoclipes, making-offs  e entrevistas televisivas. Também deixa nas entrelinhas - nem tanto entrelinhas assim, já que o filme nada tem de propriamente sutil - a possibilidade de se pensar o poder como um prazer que, quando sorvido e assumido em toda sua extensão, não deixa o menor espaço para qualquer outra dimensão humana, inclusive a da própria sexualidade. Ou, por outra perspectiva, sobre um cariz de viés feminista, que uma mulher ousada, de personalidade forte e independente não necessariamente precisa de uma presença masculina a seu lado para obter segurança ou reconhecimento público. Working Title Films/  Channel Four Films/  PolyGram Filmed Entertainment. 121 minutos.


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