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domingo, 15 de janeiro de 2017

Filme do Dia: Esse Mundo é Meu (1964), Sérgio Ricardo


Esse Mundo é Meu - Poster / Capa / Cartaz - Oficial 1


Esse Mundo é Meu (Brasil, 1964). Direção: Sério Ricardo. Rot. Adaptado: Sérgio Ricardo, a partir da peça de Chico de Assis. Fotografia: Dib Lutfi. Música: Lindolfo Gaya & Sérgio Ricardo. Montagem: Ruy Guerra. Dir. de arte: José Scandal. Com: Sérgio Ricardo, Luiza Aparecida,, Antônio Pitanga, Léa Bulcão, José Sebastião, Amaro Scandal, Ziraldo.
Pedro (Ricardo) une-se a namorada Luiza (Aparecida) e quando essa se encontra grávida, decide ela própria pelo aborto, enquanto Pedro teme pela morte dela como a de tantas que lhe antecederam nas mãos da mesma mulher. Toninho (Pitanga), engraxate e malandro, sonha com uma bicicleta com a qual poderá passear com a garota de seus sonhos, Zuleika (Bulcão).

É a convivência entre uma nova bossa estilística, presente desde os devaneios da câmera de Lutfi em seu belo prólogo musicado e o paternalismo retrospectivamente algo constrangedor em relação aos seus personagens despossuídos que o filme sinaliza desde o seu início. Em termos de criatividade, o músico-cineasta Sérgio Ricardo traslada, por exemplo, diálogos da peça para um som não sincronizado com a imagem e passamos a observar um vacilante protagonista a pedir esmola ou tentar abordar um futuro cliente em meio a multidão com os diálogos travados com sua namorada, que se tornará uma marca registrada do filme, criando estranhas reverberações como a continuidade do dialogo dos namorados sobre imagens de um grupo de homens em trabalho pesado numa fundição, ou seja, o trabalho de  Pedro.  Seu tom improvisado e lírico faz com que as deambulações dos personagens pelas ruas da cidade, mais que da favela (núcleo de mais fácil “controle visual”) seja inevitavelmente acompanhado pelo olhar curioso dos transeuntes, como em Acossado, ou mesmo com pessoas acenando diretamente para a câmera como um dos passageiros do bonde em que Pitanga se desloca. E o filme concede tempo e espaço sem pressa para essas deambulações, inclusive como registros do pensamento da personagem vivida por Pitanga, que observa a si próprio e a namorada a se divertirem em momento de puro deleite e prazer de estarem juntos, desfrutando igualmente da bicicleta que é o sonho de consumo dele sob a linha do bonde. Enquanto do casal negro praticamente só observamos os diálogos em over e raramente com a presença de ambos, do casal branco se observa as situações em sincronia com os diálogos. Se as soluções visuais são quase sempre inspiradas, não se pode dizer o mesmo das falas, principalmente as do personagem vivido pelo próprio realizador. O recorte típico de gênero da época também se faz presente. O Pedro de Sérgio Ricardo possui uma angústia existencial em que equipara a vida ao algodão doce que consomem em um parque de diversões, enquanto Luzia acha tudo que ele fala de um nonsense completo, que ele sequer se dá ao esforço de minimamente tornar compreensível. E a personagem de Toninho, quanto mais gradativamente avança, parece sobrar como quase somente ilustração do pessimismo sombrio de Pedro, ainda que o final surpreenda com uma reversão.  A virtuosidade do trabalho de câmera de Lutfi é de tirar o fôlego como, dentre inúmeros exemplos, os planos que acompanham o deslumbramento do casal em uma roda gigante. Ou ainda seu apreço pela câmera circulante, aqui presente em vários momentos, inclusive o de enlaçamento entre um casal tal como em Deus e o Diabo na Terra do Sol. Noutro Pitanga sorri altivo para ela, após o roubo da bicicleta.  Por conta provavelmente de ser músico, Sérgio Ricardo tem um cuidado meticuloso com o áudio não apenas nas já referidas incursões da voz over sobre imagens distintas mas também na utilização de seus belos temas musicais, como o momento de celebração à Iemanjá. É claro que nesse esforço de representação do popular não faltam algumas soluções francamente risíveis como a da briga de capoeira entre Pitanga e o homem que é rude no pretenso encontro sexual que haverá entre esse e Zuleika.  Se não incorporasse tanto da carga teatral na interpretação de Ricardo em momentos como o  que ele desabafa e bebe com uma negra, a cena, contagiada pelo espalhafato dessa soaria como antecipação do saudável escracho do Cinema Marginal.  Uma apresentação teatral, observada em alguns momentos, serve como uma função não tão explícita (como a do cego que canta canções do próprio Ricardo no contemporâneo Deus e o Diabo na Terra do Sol) de coro. O triunfo de seu arrojo visual sobre sua posição engajada e não muito distante da ideologia dos centros populares de cultura pode ser bem medida nas duas sequencias finais. Na penúltima se observa um Pedro perguntar se está só para os colegas de trabalho, que respondem com seu silêncio, mas hoje mais serve como percepção de que ele de fato se encontra só não apenas enquanto personagem, mas também como ator, já que todos os outros trabalham em chave dramática completamente distinta. Enquanto na última se tem o comovente delírio do casal Toninho e Zuleika, compartilhado por uma câmera não menos delirante que saracoteia de forma carnavalesca ao redor deles. É desnecessário dizer qual de longe continua a satisfazer aos olhos. Embora o esquematismo ideológico lhe furte o brilho mais de uma vez, não se pode dizer que o filme não elabore as coisas também de forma menos redutora, como é o caso do final, em que o trabalhador mais consciente representado por Pedro vivencia a depressão e ausência da mulher amada, enquanto o inconsequente Toninho explode de alegria ao lado de Zuleika e de sua bicicleta. Um alerta que a via do trabalho não será o caminho para suas personagens parece pouco provável, já que aí também se estaria jogando com a água o bebê, ou seja, a consciência de classe.  Ziraldo surge numa ponta não muito feliz como padre que tem sua bicicleta  roubada por Pitanga. Copacabana Filmes para Prod. Cinematográficas Herbert Richers. 78 minutos.

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