CONTRA O GOLPE CIVIL EM CURSO E A FAVOR DA DEMOCRACIA

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Filme do Dia: Ondas do Destino (1996), Lars Von Trier


Resultado de imagem para breaking the waves poster


Ondas do Destino (Breaking the Waves, Dinamarca/Holanda/Suécia/França, 1996) Direção: Lars von Trier. Rot.Original: Lars von Trier. Fotografia: Robby Müller. Música: Joachim Holbek. Montagem: Anders Refn. Com: Emily Watson, Stellan Skarsgård, Katrin Cartlidge, Jean-Marc Barr, Adrian Rawlins, Jonathan Hackett, Sandra Voe, Udo Kier, Mikkel Gaup, Roef Ragas, Phil McCall, Ray Jeffries, Owen Kavanagh.
           Bess MacNeil (Watson) resolve se casar com Jan (Skarsgaard). Como ela vive em uma comunidade cristã grandemente fechada e tradicional, seu casamento com um estrangeiro não é visto com bons olhos pela mesma. Dodo (Cartlidge), sua cunhada e uma das poucas a apoiá-la sem restrições, faz um discurso apaixonado de como ela, outra estrangeira, fora acolhida de braços abertos por Bess e como uma cuidara da outra quando da morte do irmão de Bess. Os outros elementos a se destacarem da comunidade, por seus hábitos liberais, por também serem estrangeiros e não professarem a religião local são os colegas de trabalho de Jan, Terry (Barr) e Pim (Ragas). Após perder a virgindade no banheiro do salão onde ocorre a própria cerimônia de casamento e viver um idílio amoroso de grande poder sexual com Jan, Bess, de transtornos psíquicos e personalidade frágil, não aceita de forma alguma que seu marido parta para trabalhar na plataforma de petróleo, como ocorre com todos os homens da região. Ela entra em crise e avança para o helicóptero quando este parte. Confortada por Dodo, Bess vive visitando a igreja, onde possui encontros “secretos” com Deus e faz a voz tanto de si como de Deus. Sempre pede que Jan retorne o quanto antes, porém quando este sofre um grave acidente, Bess passa a sentir-se extremamente culpada por ter pedido seu retorno. Após operação, sem risco de vida mas possivelmente condenado a passar o resto de seus dias tetraplégico, Jan se encontra deprimido. Ao receber a visita dos colegas de trabalho, que lhe trazem cerveja, todos procuram disfarçar o constrangimento - haviam colocado a cerveja próximo dele, sem saber que ele também não podia movimentar os braços. Jan começa a afirmar para Bess que ela deve continuar sua vida e que a única forma de lhe dar vida é continuar a ter uma vida sexual ativa com outros homens e vir lhe contar sobre tudo o que acontecera. Inicialmente Bess tenta com o médico que cuida de Jan, Dr.Richardson (Rawlins), também psicoterapeuta que lhe procura auxiliar, visitando-o inesperadamente para dançar em sua casa e depois indo para seu quarto e lá se despindo. Ele afirma que ela deve voltar para casa. Quando conta como se houvesse ocorrido relações entre eles para Jan, ele imediatamente sabe que ela mente. Jan, quando da retirada de sua respiração artificial,  reage mal e num delírio terminal afirma para ela que deve se sentar junto com ele no final do ônibus. Ao sair do hospital pega um ônibus e senta-se no final, onde masturba um homem (Jeffries) que não conhece, descendo logo após completamente enojada. Certo dia, no entanto, quando volta ao hospital, Jan reclama para ela que sua forma de se vestir é muito pudica. Que ela deve se tornar mais atraente. Bess passa na casa de uma amiga e pede roupas típicas de prostituta para usar e sai para um bar frequentado apenas por homens, levando um deles (Kavanagh) para manter relações em um local deserto. Preocupada com a situação, tanto Dodo quanto o Dr. Richardson lhe afirmam que ela se encontra em uma situação de delírio das mais perigosas. O último lhe diz que se encontra apaixonado por ela e que Jan é maníaco sexual, em visita que faz a sua casa, e ela imediatamente pede que ele se retire. Sua mãe (Voe), que não toca no assunto diretamente, afirma que ela terá que ter mais cuidado se não quiser ser banida pela comunidade, já que até pessoas bem mais fortes que ela, quando foram banidas, tornaram-se totalmente vulneráveis. Bess, no entanto, só escuta os pedidos de Jan e continua a fazer sexo com estranhos. Vai até um barco, onde até mesmo as prostitutas se recusam a ir e foge por pouco de um marinheiro  sádico (Kier). Entra na igreja, no momento em que ocorre a cerimônia, e afirma que eles amam as palavras, não as pessoas, indo contra o imperativo de que as mulheres não podem falar e sendo oficialmente banida. Quando perambula com sua motoneta pelas ruas da cidade, é escorraçada e chamada de puta por um grupo de meninos das cercanias, desmaiando. O padre (Hackett), mesmo penalizado, não possui coragem de auxiliá-la, certamente temendo a reação da sociedade. Dodo lhe encontra e conta que Jan se encontra próximo da morte. O Dr. Richardson conseguiu que Jan anteriormente autorizasse Bess ser internada em Glasgow, afastando-a do local. Porém quando Bess se dirige para lá, consegue fugir do carro e retornar para o barco do marinheiro sádico, onde sofre violências profundas. Agonizante, pede para ver pela última vez Jan e se entristece ao saber que seu sacrifício não fora capaz de devolver a vida a ele. Morre pouco depois, deixando inconsoláveis Dodo, sua mãe e o Dr. Richardson. Quando vai depor sobre o caso, emocionado, o Dr. Richardson disse que se fosse refazer o laudo pericial sobre sua cliente, acabaria afirmando que antes de neurótica ou psicótica ela era sobretudo uma pessoa boa. O fato é que Jan não só melhorou, como voltou a andar com auxílio de muletas. Quando sabe que a Bess será destinado o mesmo fim que presenciara em um enterro local, ou seja ser destinada ao inferno como pecadora, Jan se revolta e consegue substituir o corpo dela  por sacos de areia, levando o cadáver para ser jogado no mar, com a ajuda dos amigos Terry e Pim, de madrugada. Quando o dia amanhece, Terry chama Jan e a todos do navio para ouvirem um fato extraordinário: um grande badalar de sinos (as igrejas da comunidade não possuem sinos).
Profundamente cristão, ainda que radicalmente anti-clerical, o filme de Lars Von Trier leva a algumas dentre as reflexões mais complexas já efetivadas pelo cinema nos últimos tempos sobre o fascinante paradoxo que constitui o saber tradicional: ao mesmo tempo responsável por toda a neurose e culpa que faz com que Bess se autodestrua e fomentador de uma fé e paixão obsessivamente devotas, que provocam o milagre final - Jan volta a andar. Repressão sexual e religiosidade se confundem no espírito atormentado de Bess (uma parente próxima de Magnani em O Amor de Rossellini - com quem aliás o filme possui vários pontos em comum, assim como O Sacrifício de Tarkovski e A Palavra, de Dreyer). Sua atitude provoca mal-estar e desagregação à nível individual, mas também põe em xeque uma série de tabus da coletividade. Assim Bess vai contra o sofrimento silencioso compartilhado por todas as mulheres do vilarejo, resignadas de não viverem com seus homens e acha tolice que as mulheres não possam falar na igreja, da mesma forma que acolhe de espírito aberto os mal-vistos estrangeiros com todas suas diferenças. Porém o mais fascinante do filme reside mesmo no embate que representa seu cerne, ou seja, nas duas faces da mesma moeda que representa a tradição, que há um só tempo enterra seus mortos condenando-os ao inferno como pecadores que são, e por outro, acabam por gerar figuras como Bess, que vai além da razão instrumental-cartesiana, como a razão médica, onde esta já não aponta mais saída (razão que falha, inclusive, por prejulgar comportamentos como os de Bess como simplesmente neuróticos, uniformizando assim sua dimensão complexa). Nesse ponto, a figura de Bess se assemelha a de Kaspar Hauser, personagem igualmente carismático e de forte influência romântica, no seu irracionalismo humanista.
Destaque para a brilhante direção de atores, em particular Watson, Cartlidge e Skarsgaard e para a sempre nervosa câmera, inquieta do início ao final, como que sismografando o estado emocional da protagonista. Talvez grande parte de seu efeito dramático desconcertante seja proveniente da pouco comum utilização de recursos como a câmera na mão e a utilização do Super 35mm. A montagem, embora elíptica dentro de cada seqüência de planos, nem por isso se aproxima de ser abrupta, parecendo antes ser uma domesticação daquela para uma forma mais próxima da “montagem invisível” tradicional. Sua narrativa é estruturada em capítulos, divididos pela inserção de verdadeiros “quadros vivos” de paisagens em longos planos, construídos com auxílio da exuberante fotografia de Robby Müller - habitual colaborador de Wenders na década de 70 - e de pérolas do repertório pop da mesma década ou que nela ainda ressoavam como Yellow Brick Road e Whiter Shade of Pale.  October Films. 158 minutos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário