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terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Filme do Dia: Amor (2012), Michael Haneke


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Amor (Amour, França/Alemanha/Áustria, 2012). Direção e Rot. Original: Michael Haneke. Fotografia: Darius Khondji. Montagem: Nadine Muse & Monika Willi. Dir. de arte: Jean-Vincent Puzos. Cenografia: Susanne Haneke & Sophie Raynaud. Figurinos: Catherine Leterrier. Com: Jean-Louis Trintignant, Emmanuelle Riva, Isabelle Huppert, Alexandre Tharaud, William Shimell, Ramón Agirre, Rita Blanco, Laurent Capelutto.
O octogenário Georges (Trintignant), casado com Anne (Riva), de semelhante idade, acompanha de muito perto o declínio de sua companheira após ter sofrido um derrame e ficar com metade do corpo paralisada. Ele lida com ela sozinho, até o ponto de necessitar da ajuda de enfermeiras. Sua filha (Huppert), visita-o ocasionalmente. Após Anne muito implorar por seu próprio fim, Georges sufoca-a com um travesseiro.

Haneke narra com sua austeridade habitual e o fato da narrativa ser praticamente confinada aos interiores do apartamento do casal, somado a ausência de trilha sonora, mesmo nos créditos iniciais e finais, provocam uma incômoda sensação de ambiguidade no protagonista-cuidador, que mais parece ser uma representação dos próprios paradoxos do ser humano. Ao mesmo tempo atencioso e cuidadoso com a mulher, mas não imune a se zangar ao ponto de estapeá-la no rosto quando ela borrifa a água que ele há muito pacientemente tenta fazer com que ela beba. O filme acompanha detalhadamente toda o ritual de alguém a ser cuidado, da contratação de enfermeiras à troca das fradas, do banho ao deslocamento, da dificuldade de locomoção motora à perda da coordenação da própria fala que se segue a um segundo derrame, dos maus-tratos de uma enfermeira à busca de nostalgia nas fotos do passado, que Anne torna sinônimo de vida. Seu esgotamento lhe pede para partir, pois sabe do sofrimento imposto igualmente ao marido. Se não se pode recriminar o realizador pela austeridade formal que é uma de suas marcas registradas, associada sobretudo a um mundo de excessiva racionalização mecânica dos sentimentos que leva, paradoxalmente, a rompantes em sentido oposto, tampouco se deixa de ficar com a impressão de tais estratégias contaminarem, aqui mais que em outros de seus filmes, o próprio contato com o universo abordado, provocando potencialmente uma reação de indiferença com o drama alheio. Sua “cerimônia do adeus”, é destituída de pompa – e, a determinado momento, a narrativa galhofeira efetuada por Georges de um enterro que participara parece apontar para um sentido algo derrisório e oposto ao da fantasia narcísica da despedida, tantas vezes contemplada pelo cinema (por exemplo em O Tempo que Resta ou As Invasões Bárbaras). No seu melhor momento, Georges aplaca a inquietação da filha de forma truculentamente realista. E é justamente esse deslize quase imperceptível entre a gentileza, o auto-controle e uma certa compreensão da impotência de tudo e todos perante a situação do casal, explicitada nesse diálogo irritado com a filha, na interpretação magistral de Trintignant, que o filme melhor oferece. Wega Film/Les Films du Losange/X-Film Creative Pool para Les Films du Losange.127 minutos.

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