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sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Filme do Dia: Stalker (1979), Andrei Tarkovski


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Stalker (URSS/Alemanha, 1979). Direção: Andrei Tarkovski. Rot. Original: Arkadi & Boris Strugatski. Fotografia: Aleksandr Knyazinsky. Música: Eduard Artemiev. Dir. de arte: Andrei Tarkovski. Figurinos: Yelena Fomina. Com: Aleksandr Kajdanovski, Anatoli Solonitsin, Alisa Frejndlikh, Nikolai Grinko, Natasha Abramova.
Num país onde é impossível abandonar suas fronteiras, um “stalker” (Kajdanovski) – denominação para foragido – leva um grupo muito seleto de pessoas a uma realidade completamente diversa: a Zona. Trata-se de uma experiência inesquecível para quem a vivencia, pois boa parte das noções de tempo e espaço do mundo convencional, encontram-se suspensas. Stalker abandona mais uma vez a esposa (Frejndlikh) e a filha Marta (Abramova) para guiar dois outros homens, um escritor (Solonitsin) e um cientista (Grinko). Os dois descobrem um mundo deserto, onde irão passar as mais diversas provações, com o intuito de reconquistarem a fé. Porém, ao fim da extenuante jornada, ambos permanecem céticos ou em dúvida sobre as crenças do stalker, que acreditam serem bastante simplórias ou mesmo mera ilusão. Desesperado com as reações, o stalker adoece e é tratado pela mulher, que possui mais compaixão que crença nas idéias do marido.

Essa atordoante odisseia pelo estranho mundo da Zona, utiliza-se de alguns elementos comuns ao universo da ficção-científica (também presentes em Solaris e, em menor escala, O Sacrifício) para realizar um dos mais ousados, densos e provocadores retratos das fragilidades e vicissitudes do espírito humano, onde o recorrente tema do embate da fé contra um mundo crescentemente desencantado possui lugar de destaque. A virtuosa, idiossincrática e rara harmonia entre a temática metafísica e o meio, por excelência material representado pelo cinema, deve-se aos notáveis diálogos, cenários impecáveis (que conseguem serem dentre os mais abstratos da história do cinema, embora paradoxalmente selecionados a partir de ruínas de locações autênticas, aproximando-se, por esse viés, do cinema de Murnau), fotografia, senso rítmico e interpretação do elenco. Mesmo lidando com temas – e imagens - tão abstratos, o cineasta não deixa de evocar o momento histórico vivenciado na URSS, ainda permeada pelos resquícios do regime totalitário. Como poucos, a exemplo de Godard em O Demônio das Onze Horas, o cineasta conseguiu um bom resultado ao decidir afastar-se voluntariamente da criação de personagens que sigam os padrões do naturalismo psicológico. Os personagens, são menos tentativas de reprodução de seres de carne-e-osso que veículos para os temas favoritos do cineasta. Esse, que seria seu último filme rodado no país, antes da partida para o exílio, também é um dos maiores de sua carreira e sua última obra-prima. Em um certo momento, um dos personagens assobia uma das árias de Bach que será o tema principal de O Sacrifício. Tarkovski também colaborou com o roteiro, embora seu nome não apareça nos créditos. Mosfilm. 163 minutos.

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