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quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Filme do Dia: Red Angel (1966), Yasuzô Masumura


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Red Angel (Akai Tenshi, Japão, 1966). Direção: Yasuzo Masumura. Rot. Adaptado: Ryozo Kasahara, baseado no romance de Yoriyoshi Arima. Fotografia: Setsuo Kobayashi. Música: Sei Ikeno. Montagem: Tatsuji Nakashizu. Dir. de arte: Shigeo Mano & Tomoo Shimogawara. Com: Ayako Wakao, Shinsuke Ashida, Yuzuke Kawazu, Ranko Akagi, Jotaro Senba, Daihachi Kita, Jun Osanai, Kenichi Tani

A enfermeira Sakura Nishi (Wakao) serve nos hospitais que atendem aos feridos da Guerra Sino-Japonesa. Em seu primeiro emprego ela é estuprada por um dos homens. Porém, Nishi reencontra o mesmo homem moribundo em outro hospital que trabalha. Procurando não demonstrar ressentimento  ela faz de tudo para salvá-lo, sem sucesso. Passa então a ficar cada vez mais próxima do Dr. Okaba (Oshida), viciado em morfina, que não possui mais o menor apetite sexual. Ao mesmo tempo cede ao desespero de um jovem soldado, Orihara (Kawazu). O envolvimento com ela e a confusão mental dele, com autoestima sofrível e sem perspectivas de futuro, fazem com que ele se suicide. Após conseguir curar Okaba do vício e fazê-lo retornar a uma vida sexual ativa, Nishi testemunha a morte do terceiro homem por quem se interessou em um ataque surpresa das forças inimigas em meio a uma epidemia de cólera.

Esse filme reforça a ideia de que nenhum outro país abordava na época a sexualidade de um modo tão ousado e direto em suas produções como o Japão. Detendo-se em aspectos diversos do Japão contemporâneo na maior parte de seus filmes anteriores, aqui o realizador envereda por um passado recente, porém apresentando-o através de uma ótica que mescla o tradicional tema do auto-sacrifício feminino, bastante devedor tanto do melodrama quanto especificamente da cultura japonesa com o moderno. Nesse último sentido se encontra o modo extremamente sensual, honesto e ao mesmo tempo erótico com que o filme descreve a peculiar situação da condição feminina em tempos de guerra. A protagonista, que possui uma forte atração por tipos masculinos bastante distintos do perfil romântico (um estuprador, um deficiente físico e um impotente), chega a singelamente aceder a masturbar o jovem que teve os braços amputados. Se o filme evidentemente apenas sugere a ação, não se escusa em apresentar outro dos pedidos do jovem, vivido aparentemente por um ator realmente amputado, ao acolher seu pé por entre suas vestes, já que esse é um dos meios que ele ainda consegue encontrar mais prazer. A auto anulação da protagonista, sempre servindo como suporte para que seu contraparte masculino volte a estabilidade, seja a vida, a auto-estima ou a virilidade, culmina no momento em que se acredita diretamente responsável pela morte de todos os três homens que amou. Talvez a característica que una a prolífica filmografia de Masumura seja menos temática ou mesmo estilística, o que o fez abordar temas e gêneros os mais diversos (gangster, juventude, consumismo, obsessão) que  certa atração por questões polêmicas aos quais aborda de modo grandemente distanciado e com forte presença do elemento erótico. Aqui, ao contrário de outros filmes seus anteriores, a história é literalmente narrada (ocasionalmente existe a presença da voz over da protagonista) pela perspectiva de uma mulher, algo que voltará a fazer uso, ainda que de modo menos imperativo em seu posterior Blind Beast. A psicanálise, que forjará muito do estofo do recém-criado filme do realizador, aqui aparece de forma bastante óbvia no comentário insistente da protagonista da semelhança do Dr. Okaba, sua mais longa paixão, com o pai. Os planos do amor de Nishi com o soldado amputado provavelmente foram influenciadas por semelhantes cenas nas quais os corpos acabam formando composições quase abstratas em Hiroxima Meu Amor. Destaque para os belos contrastes da fotografia em preto&branco. Daiei Stuidos. 95 minutos.


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