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sábado, 13 de fevereiro de 2016

Filme do Dia: Na Garganta do Diabo (1960), Walter Hugo Khouri




Na Garganta do Diabo (Brasil, 1964). Direção e Rot. Original: Walter Hugo Khouri. Fotografia: Rudolf Icsey. Música: Gabriel Migliore. Montagem: Mauro Alice & Walter Hugo Khouri. Dir. de arte: Pierino Massenzi. Figurinos: Aldo Bonadei. Com: Luigi Picchi, Odete Lara, Edla Van Steen, Sérgio Hings, José Mauro de Vasconcelos, Milton Ribeiro, André Dobroy, Fernanando Baleroni.
Após um breve contato com indígenas, quatro homens invadem a propriedade de um velho estancieiro, próximo das Cataratas do Iguassu. Três deles são soldados desertores da Guerra do Paraguai:  Pedro (Picchi), o líder do grupo, Ramón Quintana, soldado paraguaio e Alferes Reis (Dobroy). Um quarto é um índio aculturado (Ribeiro) que havia morto uma criança para ficar com seu colar. O velho, cujo passado como ladrão de gados havia sido punido com a morte cruel do filho, conduz as filhas de forma tirânica até então. A mais velha, Ana (Lara) se sente atraída por Pedro. A mais jovem, Miriam (Van Steen) apaixona-se por Alferes, que cai vítima do cólera. Ela e o criado cego da família cuidam do rapaz. Após crescentes desavenças no grupo, a chegada iminente do exército paraguaio faz com que Pedro decida ir embora. Ana quer que ele a leve consigo, mas ele resiste a ideia e, após a insistência dela, afirma que não possuía o menor interesse pela mesma. Pedro tortura o pai delas em busca de dinheiro. O grupo se vê subitamente sitiado não pelo exército paraguaio, mas por índios. Pedro entrega o índio a tribo mas, em seu último gesto, este revela que o colar se encontrava no casaco de Pedro. Esse é levado amarrado e de olhos vendados a ficar próximo do alto de um despenhadeiro e cai sozinho ao se movimentar. Já recuperado, Alferes reencontra Miriam.
O ridículo involuntário assombra essa produção do início ao seu final. Tentando tirar partido de motivos de segundo plano relacionados a Guerra do Paraguai, o filme pretende se aproximar de um arremedo de western de tinturas algo existenciais (como habitual por parte de seu realizador) sem conseguir ir além de clichês visuais e de interpretação que seguem ininterruptamente. Destaque para o prólogo, onde se observa uma cena com índios falando “em sua língua” (recurso que Mauro já utilizara em Descobrimento do Brasil  e Nélson Pereira voltaria a fazer uso em Como Era Gostoso o Meu Francês) de efeito realista canhestro, mesmo quando comparada a produção dos anos 30 de Mauro e com provável intuito de capitalizar em cima do potencial erotismo que representariam em momento no qual o cinema brasileiro, ainda não havia testemunhado a nudez frontal de Bengell em Os Cafajestes, e qualquer cena do tipo seria potencial vítima da censura no caso de mulheres brancas – no caso a apresentação de seios desnudos de uma índia como aqui observados a determinado momento. As viradas de rosto e expressão afetada dos rostos femininos de Lara e Van Steen para expressar seu repúdio a toda a situação e as gargalhadas e cinismo do personagem paraguaio (representado de forma similarmente unidimensional como os mexicanos nos faroestes norte-americanos) são um caso à parte na clicheria, algo acentuada perversamente por se tratar de uma cópia para distribuição internacional falada em inglês (e não dublada, como se poderia supor) tendo como título Iguassu. Tomadas que pretendem tirar partido da fotogenia das cataratas abundam, assim como cenas em que as belezas que se pretende explorar são outras, como a de Van Steen nua e submersa, provavelmente inspirada pela sensualidade explosiva de Hariett Andersson, uma das musas do início da carreira de Bergman (e aqui, devidamente referida no próprio corpo do elenco com atriz quase homônima) em Monika e o Desejo (1953). Também deve provir de Bergman os suaves fades que costumam mesclar os rostos e corpos das atrizes com as quedas d’água em diversos momentos. A determinado instante, uma personagem afirma que “a guerra é um pretexto”, o que bem parece ser uma afirmação (consciente ou não) para a própria trama do filme. Já o soldado contaminado pelo cólera parece apenas estar esperando a senha do que se tratava por parte de Pedro para ter todos os seus efeitos potencializados numa cena canhestra. As figuras femininas, por sua vez, parecem estar apenas esperando ser conquistadas pelo primeiro do grupo, mal reagindo aos seus avanços, como é o caso de Ana e o capitão. E  a outra, ao se sentir  impelida a se jogar do alto do despenhadeiro, aparentemente se encontra menos angustiada com toda a situação em questão que pelo fato de não ter tido uma noite de amor como Ana. Sua “falta” logo é suprida quando subitamente se depara com o soldado agonizante de cólera, o “sensível” do grupo. A produção deve ter ficado orgulhosa do efeito conseguido em relação ao simulacro de corpo que cai do alto das cataratas, já que aqui esse é o fim de dois dos personagens, ressaltando a escala monumental das mesmas diante dos corpos. Regido pelas leis do melodrama é o destino dos invasores, sobrevivendo ao final justamente o mais sensível dos três soldados. Destaque para o momento em que o criado cego esquece essa sua particularidade e aparentemente observa a chegada de Alferes. Cinebrás para Fama Filmes. 100 minutos.


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