CONTRA O GOLPE CIVIL EM CURSO E A FAVOR DA DEMOCRACIA

domingo, 7 de fevereiro de 2016

Filme do Dia: Um Punhado de Bravos (1945), Raoul Walsh




Um Punhado de Bravos (Objective, Burma!, EUA, 1945). Direção: Raoul Walsh. Rot. Adaptado: Ranald MacDougall, baseado no livro de Alvah Bessie. Fotografia: James Wong Howe. Música: Franz Waxman. Montagem: George Amy. Dir. de arte: Ted Smith. Cenografia: Jack McConaghy. Com: Errol Flynn, James Brown, William Prince, George Tobias, Henry Hull, Warner Anderson, John Alvin, Mark Stevens.
Grupo de paraquedistas liderado pelo Capitão Nelson (Flynn) é enviado as florestas da Birmânia sob o controle do exército japonês em missão secreta, cujo objetivo é ignorado deles próprios. Apesar de conseguirem atingir um dos objetivos com relativa facilidade, a destruição de um radar numa base de operações, o grupo é indicado a prosseguir na inóspita floresta, tendo que enfrentar inúmeras adversidades, como as doenças provocadas pelas condições adversas, as ciladas preparadas pelos inimigos e a perda de contato com o grupo de apoio, após a destruição do rádio que os mantinha conectados, provocando várias baixas. Quando finalmente escalam o alto de uma clareira, no limite de suas forças, eles acabam enfrentando vigorosamente um ataque japonês e descobrindo que foram os responsáveis pelo avanço indiscriminado das tropas norte-americanas após saberem que o inimigo japonês já havia sido praticamente eliminado do local pelo batalhão de Nelson.
Notável por seu expressivo realismo, pelo belo porém longe de excessivo trabalho de câmera, com uma fluência por vezes mais próxima de algumas produções realizadas décadas após que propriamente contemporâneas, assim como pela magnífica fotografia do mestre Wong Howe. No que diz respeito ao seu realismo, esse vai além do estilo documental com que inicia, estendendo-se para uma tentativa de aproximação de se vivenciar a guerra “ao lado” dos soldados, com seus temores e sofrimentos, numa perspectiva em que a ação “heroica” surge muitas menos de uma capacidade nata, ainda que essa tampouco se encontre ausente e seja personificada sobretudo na figura do Nelson vivido por Flynn, do que de uma luta contra os próprios temores e medos. Mesmo que a figura de Flynn, modelada nos dramas de capa e espada que havia estrelado para o próprio estúdio na década anterior, aparentemente não fosse exatamente a opção correta para um drama que se pretende tão ou mais intimista do que valorizador dos efeitos especiais associados ao gênero, efeitos esses por sinal de bom nível como demonstra, por exemplo, a morte do japonês ao cair do radar, dá conta perfeitamente do seu papel como magnânimo e carismático líder. Ele é capaz de na hora certa consolar os temores de um soldado que não sabe se terá coragem de pular do avião como de igualmente gritar com o grupo para recobrar uma moral que já se encontra praticamente entregue a desesperança. No afã de seu realismo, o filme não deixa de tirar partido de sua apresentação de um universo exclusivamente masculino – nenhuma mulher surge do início ao final – apresentando uma rápida tomada de um banho coletivo dos soldados em uma lagoa, que surge na narrativa de forma menos gratuita do que semelhantes apropriações pelo cinema italiano do período (caso de I 3 Aquilotti), ainda que soe mais encenada – dois dos rapazes parecem apenas estar esperando o momento certo da chegada da câmera e o comando de alguém para iniciarem a ação de pular na lagoa. Por mais breve que seja, trata-se de um plano que desafia a irrestrita moral do Código Hays então vigente e que demonstra, como a própria abordagem do filme como um todo, um amadurecimento forçado diante das condições de exceção trazidas pela situação de conflito bélico de proporções inéditas que foi a Segunda Guerra Mundial.  Tampouco deixa de tirar partido de suas locações, transformando paisagens californianas numa crível selva tropical, com o auxílio de algumas imagens de arquivo. Dito isso, tampouco se pode deixar de observar outras opções, mais convencionais, que acabam por entrar em franco atrito com sua costura realista, ao menos para um espectador retrospectivo, como são o caso da trilha sonora demasiado convencional de Waxman, com seus acordes grandiloquentes para o galho de árvores que sem muito esforço se imagina que servirá de ponte entre o avanço do batalhão americano e a tropa japonesa que segue seus rastros, dada a insistência com que a câmera se detém nele. Aliás, a própria representação dos japoneses é completamente chapada, sendo trucidados aos montes em dimensão a escala de norte-americanos feridos ou mortos. A única baixa efetivamente eficiente contra o grupo americano se dá justamente por meio de uma cilada traiçoeira, como se os métodos utilizados pelos americanos tampouco fossem igualmente subterrâneos, caso da ofensiva final ou a morte pelas costas e por esfaqueamento de um soldado acampado. E igualmente seu final cede a um tom relativamente grandiloquente que, no entanto, parece destoar de toda a melancolia e ansiedade que acompanha o filme até então, apresentando cenas de dezenas de paraquedistas pulando dos aviões e os créditos finais que apontam para a vitória de uma batalha, mas não da própria guerra. O filme, no entanto, resiste bravamente aos estereótipos fáceis que acompanham até mesmo boa parte dos filmes contemporâneos que descrevem semelhantes ações coletivas. Assim, mesmo a figura relativamente frágil e afeminada do homem mais velho do grupo,  o correspondente de guerra  vivido por Hull, apelidado de “vovô”, finda por ganhar conotações de resistência até os limites da própria morte e sendo um dos mais benquistos de Nelson. Destaque para a acertada escolha de não apresentar mais do que as pernas das vítimas ou dos moribundos que foram massacrados pelo exército inimigo, como na pouco usual cena (para a época) em que Nelson dialoga com um soldado que se encontra morrendo, mas de quem observamos apenas suas pernas. Seu estilo de realismo é, sem dúvida, mais fácil de dialogar com as necessidades já convencionadas pelos gêneros estabelecidos pela indústria do que o praticado pouco antes por realizadores italianos como De Robertis e Rossellini. Foi banido da Inglaterra, por transformar o conflito em questão,  numa vitória exclusiva das forças americanas,  quando a participação do exercito britânico teria sido a mais decisiva.  Warner Bros. Pictures. 142 minutos.


Nenhum comentário:

Postar um comentário