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terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Filme do Dia: Turksib (1929), Victor A. Turin


Turksib (1929) Poster


Turksib (URSS, 1929). Direção: Victor A. Turin. Rot. Original: Yakov Aron & Victor Shklovski. Fotografia: Boris Frantsisson & Yevgeni Slavinski.

Esse documentário, mesmo que possua pontos tangenciais em comum com Nanook, o Esquimó(1922),  como o flagrante do contato de povos “primitivos” com maravilhas tecnológicas, aqui ainda mais enfatizado do que no filme de Flaherty, e o gosto pela encenação e reconstituição,  na verdade segue uma estratégia diametralmente oposta. Enquanto o filme do realizador canadense busca criar estratégias próximas das ficcionais e um senso de identificação com seu protagonista, o objetivo aqui é apresentar um obstáculo, apresentar uma estratégia para driblar esse obstáculo, edificá-lo e pô-lo em prática. O obstáculo é a inexistência de transportes que favoreçam o comércio entre o Turquistão e a Sibéria. A estratégia é o planejamento para a construção de uma ferrovia e posteriormente como será edificada. Por fim, a sua utilização. E é justamente o roteiro que o filme segue, mesmo que possa descuidar mais de alguns momentos que de outros – a ênfase maior, e aqui se um encontra um vínculo talvez não tão remoto com a estrutura dramática do filme ficcional, é certamente com a consecução da obra, que bem poderia ser o equivalente ao conflito dramático que ocupa a maior parte do tempo do filme de ficção clássico. Porém acaba de fato não o sendo, pois se existe algo mais próximo disso aqui se encontra justamente no prólogo, que apresenta todas as vicissitudes dos agricultores de transportarem o algodão através de um sistema de locomoção rudimentar baseado em camelos e tendo que enfrentar tempestades de areia fenomenais na cena talvez mais evocativa do clássico de Flaherty - evocativa mais pela situação retratada do que em termos formais, pois aqui evidentemente ela é construída através de planos brevíssimos e não de uma identificação espacial mais precisa, mesmo que ilusória, como naquele. Para quem não sabe que o título representa justamente a referida ferrovia, não deixa de ser um elemento-surpresa o momento em que a narrativa se desloca dos sofridos camponeses para o processo de elaboração da ferrovia. E esse momento, que residiria o potencial dramático do filme, é aqui completamente amortizado pelo tratamento fortemente ideológico com que tudo é estruturado. Os entretítulos, evidentemente, assim como a música, são aliados poderosos na suavização de qualquer conflito, como na seqüência na qual todos os ânimos temerosos da comunidade camponesa itinerante se vê ameaçada com a chegada de um automóvel trazendo técnicos que irão trabalhar no planejamento da futura estrada. Nos entretítulos, um breve e paternalista tratamento de “camaradas” já faz com que todos os ânimos se transformem e eles sejam acolhidos como verdadeiros heróis revolucionários. A forma que a montagem se articula demonstra que todo o esforço empreendido é feito com muito suor mas em meio a maior alegria pois evidentemente faz parte do esforço do surgimento não apenas de uma nova nação, mas de uma nova humanidade – sendo sua idealização, nesse sentido, não muito distante dos filmes de propaganda realizados pela chamada Escola Documental Britânica na década seguinte tais como Night Mail. Há sem dúvida uma exaltação da tecnologia e a modernidade que é bem típica da época (mesmo Flaherty a demonstrou em The Twenty-Four-Dollar Island) e que talvez tenha como imagem mais marcante curiosamente não a locomotiva mas uma retroescavadeira que chega a ganhar uma dimensão mesmo antropomórfica. Em outro momento se constata não apenas meios de comunicação mais símbolos de dois mundos e duas temporalidades, presente e passado,  um ao lado do outro, quando um camelo se aproxima dos trilhos. Destaque para a cena na qual a montagem acelerada faz tornar mais vibrante a primeira viagem da locomotiva escoltada de perto pelos camponeses montados em seus camelos.  O filme é sem dúvida belo em suas imagens e na forma como as estrutura, bastante semelhante a muitas produções ficcionais produzidas à época no país, mas ao seu final cíclico soa mais próximo da peça de propaganda do que do brilhantismo estético que impregna um filme como O Homem com a Câmera ou da sensação de que se conheceu de fato um pouco da realidade observada como em Flaherty. Vostokkino. 57 minutos.

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