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sábado, 20 de fevereiro de 2016

Filme do Dia: Juha (1999), Aki Kaurismäki


Juha Poster


Juha (Finlândia, 1999). Direção: Aki Kaurismäki. Rot. Adaptado: Aki Kaurismäki, a partir do romance de Juhani Aho. Fotografia: Timo Salminen. Música: Anssi Tikanmäki. Montagem: Aki Kaurismäki. Dir. de arte: Markku Pätilä. Com: Kati Outinen, Sakari Kuosmanen, André Wilms, Markku Peltola, Elina Salo, Ona Kamu, Outi Mäenpäa, Tuire Tuomisto.
Juha (Kuosmanen) e Maha (Outinen) vivem uma vida tranquila e cheia de amor até a chegada de um homem da cidade, Shemeikka (Wilms), que seduz Maha com propostas de uma vida menos pacata e sem supresas sem que o ingênuo Juha se dê conta. Numa segunda visita ao casal, Shemeikka consegue levar Maha consigo. Essa deixa um bilhete ao marido. Maha é levada para um prostíbulo, onde se torna praticamente prisioneira de seu cafetão sem, no entanto, dobrar-se ao desejo desse que se prostitua. Conseguindo fugir, desmaia grávida na estação ferroviária e é recapturada pelos homens de Shemeikka. Conhecedor de seu paradeiro, Juha enfrenta o grupo, é baleado por Shemeikka, mas consegue matar esse e libertar Maha, morrendo em seguida.
Obra menor do realizador que curiosamente adapta um romance melodramático de viés vitoriano (e já levado às telas três vezes, notadamente por Mauritz Stiller, em 1921) para o seu conhecido modelo, onde impera o distanciamento emocional do que é narrado. A mescla, não particularmente produtiva, torna-se ainda mais agravada pelo recurso a sua emulação do cinema silencioso, com a presença somente de música - recurso habitualmente ausente dos filmes do realizador - e dos entretítulos, à exceção de um número musical. De fato, a tentativa de emulação de um momento do passado do cinema, via de regra, tem demonstrado ser uma solução desastrosa em maior ou menor medida, em suas mais variadas tentativas (A Última Loucura de Mel Brooks, A Festa de Margarette ou O Artista). Aqui, talvez ainda mais que em O Artista, pague-se o risco não somente de se evocar um estilo impossível de ser reproduzido substancialmente a contento, ainda que de forma tributária ou paródica – e talvez um dos maiores fracassos do filme se encontre em nem conseguir ser dramático nem tampouco efetivamente cômico ou espirituoso como nos filmes mais bem sucedidos do realizador, a exemplo de O Porto – como de se lidar com material produzido em outro momento e cuja transposição para o momento contemporâneo à produção do filme também traz seus problemas, mesmo descontada à consciente ironia. De fato, a história parece transcorrer em um certo vácuo temporal, no qual o casal “intocado” pelos males da modernidade, que não sejam os objetos como o micro-ondas em que Maha prepara as refeições de seu amado recebe a inesperada visita do faustiano Shemeikka. Por mais fabular e anti-realista que seja a proposta, torna-se esmaecida quando se imagina a improbabilidade de tal situação na Europa pós-moderna contemporânea; algo que um filme como O Porto consegue driblar de forma bem mais efetiva, sem abrir mão de sua verve fabular. Destaque para a utilização inicial excessiva da mímica, logo abandonada em prol dos movimentos labiais. Sputnik para Euro Space. 78 minutos.


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