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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Filme do Dia: Na Captura dos Friedmans (2003), Andrew Jarecki


Na Captura dos Friedmans Poster


Na Captura dos Friedmans (Capturing the Friedmans, EUA, 2003). Direção: Andrew Jarecki. Fotografia: Adolfo Doring. Música: Andrea Morricone. Montagem: Richard Hankin. Dir. de arte: Nava Lubelski.

Em 1988, um conceituado físico norte-americano, Arnold Friedman, se torna alvo de denúncias de abuso sexual por parte de alunos de um curso de informática do qual era professor, após a Polícia ter encontrado em sua casa revistas de pedofilia. A grande virtude do documentário de Jarecki é o de expressar o poder das imagens e sua capacidade de estimular julgamentos precipitados não através de um discurso convencional que explicite oralmente tal fato, mas em sua própria estrutura. Inicialmente, somos levados pelas evidências de policiais, imprensa e depoimentos de ex-alunos do curso a acreditar que Friedman realmente praticava orgias absurdas e coletivas em sua casa, com a colaboração do filho Jesse. Posteriormente, o que parece seguro se esvanece no ar, quando a jornalista investigativa Debbie Nathan, simplesmente se surpreende com o fato de ninguém ter atentado para que nenhum dos jovens, até o início da investigação policial, terem relatado nada aos seus pais ou terem apresentado sequelas físicas dos abusos, assim como a Polícia ter iniciado sua linha investigativa sem contar com exames de corpo delito das supostas vítimas. De criminoso Friedman temporariamente se transforma em mais uma vítima da imprensa. Porém, num terceiro momento o filme contrabalança sua presumida inocência no caso das aulas particulares com a declaração do próprio Friedman de que praticara abuso sexual com duas crianças, além de enviar uma longa carta para Debbie Nathan, no qual apresenta uma juventude atormentada por um sentimento homossexual frustrado em relações ocasionais. Condenado e preso, Arnold suicida-se na prisão, beneficiando o filho que também foi preso, em um julgamento posterior, com uma apólice de 250.000 dólares. Todas as três etapas são acompanhadas por um farto material, em sua maior parte propiciado pelos vídeos e áudios domésticos gravados pelos próprios filhos de Arnold, e, igualmente, por filmagens em super-8 da família, quando os filhos ainda eram crianças. Os filhos ficam mais próximos do pai que da mãe, Elaine, por acreditarem que ela não apoiou o suficiente o marido. Elaine rebate afirmando que a hostilidade dos filhos contra ela provinha de um vínculo de brincadeiras e amizade bastante peculiares que uniam os filhos com o pai e a afastavam de qualquer possibilidade de interação no grupo. Não menos destacada em sua estrutura, numa época em que muitos filmes de ficção são influenciados pelo gênero documental, é sua explícita incorporação de uma estrutura ficcional para trabalhar com um material por vezes extremamente pessoal (tal e qual 33, de Kiko Goifman), transformando um drama real em um verdadeiro melodrama familiar (acentuado pela apresentação dos personagens no início ou do resumo final da situação na qual se encontram à época da produção do filme, tipicamente nos moldes do cinema de ficção). A diversidade de percepções sobre o acontecido por parte dos membros individuais da família, imprensa, polícia e pessoas próximas faz com que, mesmo se tendo uma versão final aproximadamente correta (Arnold era um pedófilo, mas inocente da acusação de abuso dos estudantes), nunca se chegue ao mesmo sentido, quanto às muitas particularidades do caso. Um dos momentos mais evidentes quanto a isso é a acusação posterior de Jesse de que fora vítima do próprio pai quando criança, no qual a montagem alternada contrapõe sua fala afirmando que fora uma mera estratégia de seu advogado, Peter Panaro, enquanto Panaro afirma que o próprio Jesse, muito emocionado, lhe confessara tudo. Independentemente de seus méritos, o filme apresenta também uma grande dose de narcisismo por parte dos membros da família, que chegam a apresentar muitas cenas íntimas de seus próprios momentos difíceis, num grau de exposição dificilmente crível – nesse sentido, novamente próximo do filme de Goifman - para pessoas que durante tanto tempo foram vítimas dos próprios holofotes da imprensa. HBO Documentary/Notorious Pictures. 107 minutos. 

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