Dicionário Histórico de Cinema Sul-Americano#143: Héctor Babenco
BABENCO, HÉCTOR. (Brasil/Argentina, 1946). Um dos primeiros realizadores sul-americanos a tornar sua marca global. Seu terceiro longa, Pixote, a Lei do Mais Fraco (Brasil, 1980) que ganhou os prêmios tanto da Associação de Críticos de Nova York quanto de Los Angeles de Melhor Filme em Língua Estrangeira; seu quinto, primeiro filme em língua inglesa, hollywoodiano, Kiss of the Spider Woman (O Beijo da Mulher Aranha, 1985), foi indicado para quatro Oscars, incluindo o de Melhor Diretor; e este e os dois filmes seguintes estiveram em competição no Festival de Cannes. Héctor Eduardo Babenco conquistou uma reputação por realizar filmes acessíveis ao público e também socialmente conscientes que examinam as vidas de marginais. Também é conhecido como um bom diretor de atores, com William Hurt vencendo o Oscar de Melhor Ator por seu papel em O Beijo da Mulher Aranha e muitos outros atores receberam indicações e prêmios pelas obras de Babenco, incluindo 19 atores em Carandiru (Brasil, 2003), compartilhando o Índia Catarina De Ouro para Melhor Ator Coadjuvante no Festival Internacional de Cinema de Cartagena (Colômbia).
Babenco nasceu em Buenos Aires de um pai gaúcho de origem ucraniana e uma mãe judia polonesa, e cresceu em Mal Del Plata. Influenciado pela geração beat estadunidense, com a idade de 18 anos, começou a viajar pela Europa, onde trabalhou como extra em alguns filmes de western-spaghetti. Após visitar São Paulo, em 1969, decidiu permanecer e trabalhar. Inspirado pelo Cinema Novo, tentou se envolver com o cinema brasileiro e foi capaz de trabalhar em documentários e comerciais, eventualmente co-dirigindo o documentário em longa-metragem sobre o corredor de F1 campeão mundial, O Fabuloso Fittipaldi (1973). O primeiro longa ficcional de Babenco como diretor-roteirista foi O Rei da Noite (1975), um drama sobre as incursões românticas de um boêmio paulista (Paulo José), dos anos 20 aos 70, pelo qual José venceu o Prêmio de Melhor Ator no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro de 1976. Babenco realmente encontrou seu ritmo com Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia (1977), baseado no livro de José Louzeiro, recontando a história verídica de um assaltante de banco que foi morto na prisão, após ter revelado a corrupção na força policial carioca. Foi uma corajosa decisão do enfrentamento de um tema durante a ditadura militar, e o elenco e a equipe foram recompensados com o sucesso comercial e diversos prêmios no Festival de Cinema de Gramado e festivais de cinema de São Paulo. Inspirado por um romance de Louzeiro, Babenco realizou a seguir um filme brutalmente realista, a respeito de crianças de rua das favelas paulistanas, resultando no sucesso internacional de Pixote, com lançamentos comerciais sendo assegurados na América do Norte, Austrália, França, Reino Unido, e outros países europeus.
O sucesso estadunidense de Pixote, incluindo a vitória de Marília Pera do prestigiado prêmio de melhor atriz no National Society of Film Critics em 1982, encorajou Babenco a realizar um filme em inglês. O Beijo da Mulher Aranha, baseado no popular romance de Manuel Puig, foi um lançamento bastante bem sucedido nos Estados Unidos e surpreendentemente indicado a quatro Oscars, incluindo Melhor Filme. Impulsionado por este sucesso, Babenco realizou seus três filmes seguintes em Hollywood. David Weisman, a força por trás de O Beijo da Mulher Aranha, pôs o diretor no comando de outra adaptação, desta vez de um romance de William Kennedy, Ironweed (1987), angariando mais duas indicações ao Oscar, para Jack Nicholson e Meryl Streep. Babenco trouxe seu diretor de fotografia habitual, Lauro Escorel, do Brasil, e o empregou novamente em sua produção seguinte, de alto orçamento, At Play in the Fields of the Lord (Brincando nos Campos do Senhor, Brasil/EUA, 1992), baseado em um romance de Peter Matthiessen, filmado em Belém e outras locações do Pará. Conta a história de grupos missionários estadunidenses tentando converter indígenas amazônicos. Compreensivelmente filmado em inglês, Brincando nos Campos do Senhor provou ser o final da aventura hollywoodiana de Babenco; ele foi diagnosticado com um câncer linfático em 1994, e foi submetido a um transplante de medula óssea.
Após sua recuperação, Babenco realizou um filme na Argentina pela primeira vez. Corazón Iluminado (Coração Iluminado, Argentina/Brasil/França, 1996), sobre um homem que retorna a Buenos Aires do Rio, após vinte anos distante. Foi por fim incluído na competição oficial de Cannes em 1998, e posteriormente lançado no Brasil e na Argentina no mesmo ano (e na França no ano seguinte). O maior sucesso de Babenco foi conquistado com seu próximo filme, Carandiru (2003), baseado no livro do Dr. Dráuzio Varella, Estação Carandiru. A penitenciária do Carandiru foi a maior da América do Sul, e era famosa por sua superlotação e sem políticas de controle sanitário, quando Varella foi contratado para cuidar de pacientes com AIDS no local. Babenco estruturou seu filme em torno de uma série de histórias contadas a Varella (Luiz Carlos Vasconcelos) por presidiários quando visitaram sua clínica na prisão, todas levando ao "massacre do Carandiru", que ocorreu em 1992, no qual mais de 100 prisioneiros foram mortos, a maior parte pela polícia. Antes da penitenciária ser fechada e destruída, Babenco e seu elenco e equipe, levados pelos veterano diretor de fotografia Walter Carvalho e o diretor de arte Clóvis Bueno, foram capazes de encenar algumas situações nas instalações abandonadas. Também reenceneram muitos espaços interiores no Estúdio Vera Cruz, e Babenco/Carvalho/Bueno idealizaram um estilo de filmagem com os personagens bastante próximos da câmera, enquanto filmavam através de portões e pequenas janelas para reforçar o senso de encarceramento. Ainda que seja um filme difícil de se acompanhar, com sua estrutura em flashback e mais de vinte personagens, foi visto por mais de 4 milhõs e meio de brasileiros em pouco mais de dois meses e esteve no topo das três maiores bilheterias de 2003. Foi o terceiro filme de Babenco a ser incluído em Cannes e venceu diversos prêmios em diversos lugares, incluindo sete ao final do ano no Festival Internacional del Nuevo Cine Latinoamericano, em Havana. Babenco desde então trabalhou na sequencia de uma série para a TV, Carandiru, Outras Histórias (2005), e dirigiu seu décimo longa, El Pasado (O Passado, 2007), em Buenos Aires e São Paulo.
Texto: Rist, Peter H. Historical Dictionary of South American Film. Plymouth: Rowman & Littlefield, 2014, pp. 63-5.

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