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sábado, 5 de julho de 2014

Filme do Dia: O Passado (2007), Hector Babenco



O Passado (El Passado, Argentina/Brasil, 2007). Direção: Hector Babenco. Rot. Adaptado: Hector Babenco & Marta Góes, baseado no romance de Alan Pauls. Fotografia: Ricardo Della Rosa. Música: Iván Wyszgrod. Montagem: Gustavo Giani. Dir. de arte: Sebastián Orgambide. Cenografia: Natalia Grosso. Com: Gael García Bernal, Analía Couceyro,  Moro Anghileri, Ana Celentano, Marta Lubos, Paulo Autran, Claudio Tolcachir, Mimí Ardú, Mabi Abele.

Rímini (Bernal) vive um casamento de 12 anos invejado por todo o seu círculo de amizades com Sofia (Couceyro). Porém, apesar dele se decidir separar, a esposa nunca o abandona por completo. Inicialmente, ela é indiretamente responsável pelo atropelamento da garota com que Rímini está envolvido, Vera (Anghileri), uma bela modelo, ao surgir inesperadamente na conferência do Prof. Prussiére (Autran). Rímini passa então a se relacionar com Carmen (Celentano), tradutora que trabalhara com ele na conferência. Porém, após constituir família, ele reencontra com Sofia, que seqüestra o filho dele com Carmen. Essa não perdoa a falha do marido e o abandona, impedindo-o de se encontrar com o filho. Após um período de extrema decadência, Rímini começa a trabalhar em uma academia. Após ser preso ao agir violentamente contra uma cliente da academia que o usara como objeto sexual, Rímini é resgatado da mesma por Sofia, que resolve não somente reatar a relação como criar um clube inspirado na história de Adele H., para mulheres que foram abandonadas por seus maridos.

Babenco usualmente possui menos tino para propostas mais intimistas como essa, do que para filmes sobre personalidades marginais de viés mais sociologizante, em que a violência ganha papel de relevância (Pixote, Lúcio Flávio), ainda quando menos bem sucedidos (caso de Carandiru). Fica bastante demarcado em sua carreira, e esse filme aqui não deixa margem à dúvida, que o viés intimista e mais autobiográfico remete a Argentina (como é o caso igualmente de Corazón Iluminado), com uma Buenos Aires filmada em fotografia de tons esmaecidos que tentam evocar uma aura existencialista, algo que se contrapõe de modo quase brutal com a imagem do centro de São Paulo, em que a sofisticação e o tom cool dá lugar aos ambulantes de rua. Quase sempre trabalhando com adaptações da literatura e algumas vezes conseguindo resultados interessantes (como em O Beijo da Mulher Aranha) aqui Babenco escorrega grandemente no pior pecado de seus filmes intimistas, a pretensão (caso igualmente de Corazón Iluminado) e uma mescla entre realismo e expressão da subjetividade da relação de seu alter-ego com as mulheres (grandemente evocativa de Fellini, particularmente A Cidade das Mulheres, reverenciado também com sua cidade natal como nome do protagonista) que acaba se demonstrando precária e inconvincente ao extremo, seja nas seqüências de sexo ou na patética morte de Vera. O mau gosto das cenas de intimidade se aproxima de Khoury em seus piores momentos. Como no filme anterior, voltam à tona igualmente referências a Truffaut (aqui, evidentemente, A História de Adèle H.) e outros realizadores, como No Decorrer do Tempo, de Wenders, na seqüência em que o protagonista decide reclamar da má condição da projeção de um filme erótico. Aqui, ao contrário de encontrar um projecionista se masturbando, enfrentará um irritado Babenco fazendo uma ponta, precária como a própria seriedade exigida pelo filme. Se o exagero e a insistência obsessiva da heroína de Truffaut está associada ao romantismo literário que adapta, aqui resta exclusivamente o seu lado patético. Em nenhum momento, consegue-se realmente embarcar e acreditar nos personagens. Quando esse pacto não se firma, ou seja, o filme não consegue tornar verossímil alguma dimensão humana que o torne interessante, única opção possível na opção dramática aqui escolhida, resta o tédio ou, ainda pior,  o humor involuntário. 20th Century-Fox de Argentina/Chemo/HB Filmes/INCAA/K&S Films. 114 minutos.

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