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quinta-feira, 17 de julho de 2014

Desaparecimento misterioso de abelhas está ligado a vírus raro

A doença misteriosa que vem atormentando os apicultores americanos desde 2006 vem de um vírus de abelhas, que aparentemente se espalhou pelos Estados Unidos, vindo da Austrália há três anos, de acordo com um novo estudo que aponta o primeiro avanço no confuso caso do desaparecimento de abelhas.

Os pesquisadores fizeram uma comparação genética sofisticada de colméias saudáveis e contaminadas nos Estados Unidos, que revelou a presença do vírus israelense de paralisia aguda (IAPV, em inglês), obscuro porém letal, em quase todas as criações de abelhas afetadas pelo “transtorno do despovoamento em massa de colméias” – CCD, em inglês –, mas em apenas uma colônia saudável analisada.

“Não provamos ainda que essa é a causa. O vírus é um candidato a desencadeador do CCD”, explica W. Ian Lipkin, diretor do centro para estudo de infecção e imunologia na Mailman School of Public Health, da Columbia University, e um dos principais autores do estudo.

O transtorno também pode ser resultado de uma combinação de má alimentação, pesticidas e outros fatores, incluindo infecção, de acordo com Lipkin e sua equipe. Eles disseram ainda que são necessários testes mais longos para determinar se o IAPV consegue desencadear o CCD sozinho ou se conta com outros agentes, ou mesmo se certas combinações de fatores de estresse tornam as colméias vulneráveis ao vírus.
Virologistas israelenses descobriram o IAPV três anos atrás, após pesquisar casos sem explicação de montes de abelhas mortas em frente às colméias. O novo estudo encontrou o vírus em amostras de abelhas australianas, importadas pelos Estados Unidos pela primeira vez há três anos.

Se o IAPV for o principal fator desencadeador, dizem os pesquisadores, abelhas do mundo inteiro poderiam ser cruzadas com indivíduos resistentes ao vírus, talvez salvando assim o polinizador mais economicamente importante dos Estados Unidos.

Estima-se que as abelhas façam uma polinização avaliada em US$15 bilhões por ano, “operando” no limite. Metade das cerca de 2,5 milhões de colméias no país é necessária para polinizar plantações de amêndoas.

No final do ano passado, relatórios revelaram que abelhas adultas estavam abandonando misteriosamente as colônias comerciais, deixando para trás colméias-fantasma cheias de mel, larvas e rainhas sozinhas. O transtorno acabou com uma média de 45% das abelhas entre as colônias comerciais, que representam 23% do total, no último inverno nos Estados Unidos. 
 
Pesquisadores e os amantes das teorias da conspiração já ofereceram uma série de explicações potenciais, de ácaros ectoparasitas e pesticidas químicos à radiação de telefones celulares que fariam as abelhas desviarem de seu caminho.

Os entomólogos Diana Cox-Foster, da Pennsylvania State University, e Jeffery Pettis, do Laboratório de Pesquisas de Abelhas do Serviço de Pesquisa Agrícola do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, criaram o grupo de trabalho para CCD, para tentar desvendar o mistério.

Uma linha-chave de evidências sugeria que a infecção tem um papel fundamental: o grupo descobriu que poderia recuperar colméias com CCD vazias ao enchê-las novamente com abelhas saudáveis, mas somente se irradiassem as colméias com raios gama primeiro – o raio gama destrói DNA.

Com base nessa evidência, Cox-Foster e Pettis convenceram Lipkin, que liderou a descoberta do vírus do Nilo Ocidental, a aceitar participar do estudo, usando tecnologia especializada, fabricada pela firma de seqüenciamento de genoma 454 Life Sciences, em Branford, Connecticut.
O trio e seus colegas misturaram o RNA – a substância química que codifica os genes ativos – de quatro colônias comerciais geograficamente separadas, mas contaminadas pelo CCD, e então compararam a mistura com o RNA combinado de abelhas aparentemente saudáveis do Havaí e da Pensilvânia. Eles também examinaram abelhas aparentemente saudáveis da Austrália e geléia real – que as rainhas usam para alimentar suas operárias jovens – importada da China.

Em suma, as abelhas com CCD portavam mais tipos de microorganismos nocivos que as abelhas saudáveis, como relatam os pesquisadores na edição online da revista “Science”. Para identificar culpados potenciais, eles analisaram as colméias individualmente.

O IAPV apareceu em até 25 de 30 colônias contaminadas, mas em apenas uma saudável nos Estados Unidos. Por outro lado, todas as colméias com CCD continham um vírus aparentado, chamado KBV, e o parasita unicelular Nosema ceranae, que um estudo anterior havia relacionado ao CCD –, mas ambos os organismos estavam presentes em cerca de 80% das colméias saudáveis também.

“O estudo é um modelo de investigação cuidadosa”, elogia o entomólogo Gene Robinson, diretor do centro de pesquisa em abelhas Urbana-Champaign, da University of Illinois, que não está envolvido no estudo. O IAPV parece ser a causa ou um indicador da doença, ele diz. “De qualquer forma, essa é grande novidade na história do CCD. Então, é muito animadora e encorajadora”.
A grande sacada, de acordo com Lipkin, seria infectar abelhas saudáveis ou sob estresse com o IAPV, e ver se elas são infectadas pelo CCD. Os pesquisadores planejam realizar esses testes, mas isolar o vírus é uma tarefa desafiadora, ele completa.

Uma amostragem mais ampla de colônias saudáveis e contaminadas do mundo inteiro também ajudaria a delimitar as causas possíveis, diz Robinson.

Lipkin e sua equipe descobriram que abelhas australianas aparentemente saudáveis estavam infectadas com o vírus, e ressaltam que todas as colméias com CCD que examinaram incluíam abelhas australianas, ou conviveram com elas por algum tempo. Apicultores da Austrália relataram uma “doença do desaparecimento”, mas não na escala do CCD, disse Pettis.

Um fator diferencial, ele diz, poderia ser o ácaro ectoparasita, que suprime os sistemas imunológicos da abelha e diminuiu a população desse inseto em 30% nos Estados Unidos nos últimos 25 anos, mas não é encontrado na Austrália. “Sabemos que é um dos principais fatores de estresse, mas ainda acredito que vários fatores estão envolvidos no CCD e precisamos testá-los de maneira mais rigorosa.”
Os pesquisadores encontraram os ácaros ectoparasitas em apenas metade das colônias americanas. No entanto, eles ressaltam que é possível que uma substância química exterminadora de ácaros, aplicada pelos apicultores, possa ter matado os parasitas apenas depois que causaram os danos, ou então que o próprio pesticida possa ter prejudicado as abelhas.

O IPAV parece ter matado os insetos primeiramente em Israel em 2002, e desde então tem causado um número variado de mortes a cada ano, diz o virologista de plantas Ilan Sela, da Universidade Hebraica de Jerusalém, cuja equipe identificou o vírus, que faz tremer as asas das abelhas que estão morrendo.

“Os apicultores disseram que há algumas indicações recentes de um fenômeno de CCD semelhante, mas em pequena escala, em Israel”, ele diz. No entanto, Sela ainda tem que testar as abelhas atingidas para ver se encontra o vírus.
Se o IAPV estiver realmente causando o CCD, há esperança para interromper sua disseminação. Cerca de 30% das abelhas que Sela estudou possuem pedaços incorporados do genoma do IAPV em seus cromossomos, e são resistentes ao vírus. Outras abelhas poderiam ser cruzadas para carregar esses fragmentos e presumivelmente sobreviver à infecção também, ele diz.

No entanto, ele alerta que o IAPV poderia estar causando, teoricamente, o CCD ao inserir seu material genético em genes de abelhas para feromônios ou outras moléculas que coordenam o comportamento da colméia e, portanto, rompendo esses genes, uma possibilidade que ele e o grupo de trabalho do CCD planejam testar.

Até que os pesquisadores tenham revelado o mistério do CCD, Cox-Foster aconselha os apicultores a manter suas abelhas bem alimentadas e livres de ácaros.
 

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