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sexta-feira, 25 de julho de 2014

Cristiano Burlan, um relato de vida – 2

JC – Volte ao Capão, essa história da escola, como foi?
CB – Primeiro que as escolas na periferia têm sempre muitas grades e portões, quando você entra, as portas vão se fechando atrás de você. Quando pela primeira vez eu fui visitar meu irmão numa cadeia em São Paulo, eu tive a mesma sensação que tinha quando entrava na escola. Uma escola na periferia é sempre cinza, concreto, não tem cor nenhuma e parece que você está entrando numa cadeia. Não tem biblioteca nas escolas públicas, sempre tem alguns livros ali, restos que chegam, pelo menos na minha época, hoje não sei. Os professores iam ensinar meio forçados e não tinham interesse pelos alunos. Os alunos também não tinham interesse pelos professores. Assim pouca gente consegue se interessar pelos estudos. Muito cedo comecei a me interessar por literatura, música, teatro, cinema, por cinema principalmente, aí comecei a atravessar o rio para ir a Santo Amaro.
JC – Isso revela que você tem energia, isso não vem do seu meio, nem da escola. Como você foi se encaminhar para a literatura?
CB – Muita influência de um amigo meu, Thiago Luna Delena , meu ultimo amigo de infância, único que sobreviveu. Falo que é amigo por falta de opção. Ele cresceu numa família burguesa...
JC – Ele não é do Capão?
CB – A família empobreceu e foi morar no Capão. Mas o avô deixou toda a biblioteca pra ele, os grandes livros: Dostoievski, Guimarães Rosa... Leitura antes de mais nada é hábito. Em casa tinha poucos livros, o que tinha era gibi. Minha mãe era viciada em ler gibi no banheiro, então meu hábito pela leitura se inicia aí. Depois esse meu amigo começa a emprestar os livros dele, primeiro livros bobos – Coleção Vagalume, para criança – e depois os grandes clássicos da literatura, você não passa impune por esses lugares. Pode parecer piegas, mas era o que me afagava um pouco no meio de tanta violência, tristeza, solidão, um livro às vezes é um ótimo companheiro, uma maneira de sair daquele lugar. Eu lia o tempo todo, em casa, no ônibus –desenvolvi uma técnica para ler em pé, porque na época em que morava no Capão Redondo, o transporte era pior do que hoje, hoje é ruim – demorava 2-3 horas para ir de casa ao Centro, para o trabalho, lia muito em pé, esmagado no ônibus com livro na mão, não sei como não descolei a retina!
C – Quando você começou a trabalhar?
CB – Com 12 anos já trabalhava. Trabalhei muito em obras, na feira, vendi churrasquinho, vendi doces na USP. Eu estudava de manhã e à tarde ia pra USP. Meu pai conseguiu autorização e eu andava na Politécnica com uma caixinha de doces, daí fui para a FEA, atravessei a praça e acabei chegando na ECA, um novo mundo. Comecei a frequentar o Centro Acadêmico. Tinha mesa de sinuca, na periferia aprendi a jogar sinuca muito bem. Com 13 anos jogava a dinheiro com os alunos da Poli. Um dia estava na ECA e descobri uma Sala Preta, onde alunos de teatro mostravam experimentos de encenação, eu entrei. Tinha uma loira maravilhosa amarrada, pelada, perto da plateia, achei aquilo impressionante.
JC – Tinha o quê?
CB – Uma loira, uma atriz, uma mulher bonita, nua, pendurada, amarrada, aquilo me impressionou. Depois eu fui pesquisar – tem até uma revista chamada Sala Preta.
JC – E aí?
CB – Agora me perdi... vai ter que me fazer uma pergunta para retomar essa história.
JC – Ontem você comenretou mais as suas leituras, falou de um Centro Cultural que você passou a frequentar.
CB – Perto da biblioteca Robert Kennedy.
JC – Como você ia do Capão Redondo a Santo Amaro?
CB – Sempre sem dinheiro para o ônibus, tinha que passar por baixo.
JC – O Thiago também?
CB – Também. A gente andava sempre juntos.
JC – O que é passar por baixo dessa catraca?
CB – Uma humilhação. Aos 13 anos eu já tinha uma estatura e o ônibus sempre lotado, o cobrador deixava passar por baixo, era uma catraca muito baixa, e é humilhante rastejar ali debaixo da catraca. Ele deixava mas gritava bem alto: como um homem deste tamanho não tem dinheiro para pagar a passagem? E o ônibus inteiro olhava para você. Depois você desenvolve uma maneira de burlar isso, quando a porta do ônibus abre na frente,você sai correndo. Mas os motoristas são os mesmos e você acaba sendo visado e eles não abrem a porta, porque sabem que você não vai pagar .
Nós íamos até essa biblioteca, ela é muito vazia, tem um pé direito altíssimo. É um lugar fresco, agradável para se estar no meio daquela cacofonia toda da região sul, aquela violência toda. Eu me sentia quase numa igreja gótica, era um lugar tranquilo. Depois se perder pelos corredores e ter contato com as grandes obras da literatura mundial. Eu me revoltava quando me deparava com um livro e no cartão de retirada percebia que havia 10 anos  que ninguém o retirava, então eu o roubava, e depois de ler passava para outra pessoa. Não só na biblioteca, nas livrarias também, eu roubei muito livro, me sentia o próprio Robin Hood. Achava que roubar livro não era crime. Não sei se li a biblioteca inteira, mas boa parte, pelo menos o que era importante, não só uma vez mas duas, tenho hábito de reler, hábito que tenho com filmes também. Hoje em dia tenho mais tesão e prazer em rever um filme do que conhecer novos.
Do outro lado da biblioteca, tem a Casa de Cultura Santo Amaro, fica tudo na João Dias. É um antigo mercado. Comecei a fazer todos os cursos possíveis, principalmente de teatro. Dali acabei vindo para o Centro, comecei a frequentar o Teatro Municipal, pedia ingresso quando sobrava, assisti a algumas óperas, ouvi música clássica. Me lembro de Minhas Universidades do Gorki, ele diz que a universidade dele foi a rua, foi a vida. A minha foi um pouco isso também, eu me formei, eu me deformei na rua. Eu sempre me lembro dos personagens do Dickens, principalmente os de As Grandes Esperanças. Sempre me senti um excluído, à parte, mas isso nunca me limitou, me congelou, me impediu de fazer o que eu queria, de ir ao teatro e ao cinema. Eu entrei escondido em muitos casamentos.
JC – Por que tantos casamentos?
CB – Eu comprei um terninho num brechó, um paletó surrado, e todo sábado à noite, eu e meu amigo íamos para as portas de um bufê, conseguíamos entrar em quase todos. A gente bebia, se empolgava, beijávamos a noiva, cumprimentávamos o noivo... aí descobriam que não éramos convidados, fui expulso muitas vezes. Mas sábado à noite era o clássico, furar uma festa de casamento, comer e beber.
JC – No Municipal, o que você viu?
CB – Vi grandes óperas, pela primeira vez assisti a Madame Butterfly e Wagner. Eu tenho uma relação forte com Wagner.
JC – Por que?
CB – Fiquei impactado com Tannhäuser, eu assisti à trilogia há alguns anos. Acho que percebi em Wagner quase o cinema do século 19, como se fosse arte total. Depois fui estudar a obra dele. Como espectador, me impressionou esse domínio da mise en scène, a música faz parte do todo, mais o corpo, a voz, a conjunção das coisas, o ápice do drama... Pra mim é cinematográfico, quase. Como Bergman dizia, o teatro é minha morada, minha esposa, o cinema é minha amante. O meu grande desejo é dirigir ópera.
JC – E no teatro, quando conseguia entrar, sentava onde?
CB – Ah! De vez em quando conseguia algum lugar bom. Os porteiros do Municipal que me conheciam me deixavam entrar no foyer, lá em cima, dava uma tremenda dor no pescoço, olhando de cima, mas eu sempre achei muito bonito. O prédio do Teatro Municipal me atraia, acho um lugar mágico até hoje. Fui assistir este ano à Cavalaria Rusticana, não gosto da ópera inteira, eu gosto do intermezzo. A ária da abertura de Retôro Indomável do Scorsese é uma das mais bonitas.
JC – E na Kennedy, você chegou a ler sobre cinema?
CB – Sim, encontrei até livros seus... Me lembro de ter ficado muito curioso ao ler a biografia de Jean Vigo de Paulo Emilio. Notas Cinematográficas [Bresson], a 1ª vez que li foi na Kennedy, e outros! Mas não existe uma bibliografia potente de cinema, cê tem que garimpar... O que é cinema de Bazin. Encontrei criticas da Cahiers du Cinéma. Teve uma época que até pensei que queria ser critico de cinema. Os textos da Cahiers parecem alta literatura, deveriam ser escritores e não escrever sobre o filme dos outros.
JC – Você lia em francês?
CB – Não! Tinha traduções, alguns textos do Truffaut – “Uma certa tendência do cinema francês” –, eu li em português, se não me engano, é quase o inicio da Nouvelle Vague. Eu li em português, mas eu já li em francês, tenho muitos livros em francês. Estudei na Aliança Francesa aqui no Centro.
JC – Como você conseguiu sem ter formação escolar?
CB – Fiz o curso livre, um curso de férias.
JC – Pago?
CB – Pago.
JC – Como pagou?
CB – Eu já tava trabalhando, comecei a fazer teatro profissional na Companhia Arte Degenerada. Conheci alguns restaurantes que aceitavam atores, como o Spot, o Ritz.
JC – Como garçom?
GB – Sim. Comecei a ganhar um pouco de dinheiro, consegui me sustentar, morar melhor, pagar as contas, comecei a me arranjar muito com o teatro. Meu debut profissional foi aos 17 anos com Osmar Prado, eu era contrarregra. Fiquei impactado porque era um monólogo do Dario Fó, direção do Roberto Vignati, tinha 18 personagens e o Osmar fazia os 18. Eu me lembro que ele sofria antes de entrar em cena, um ator stanilasquiano, à la Jardel Filho. Até o 3º sinal ele tava na coxia suando, e quando entrava na luz, era um ator magnífico, quando ele saia, sofria, quando voltava para a luz, parecia quase um deus. Eu acabei viajando quase o país inteiro com essa peça, conheci tudo quanto é teatro. A prática foi a minha escola.
JC – Por que você não virou bandido?
CB – Porque acho que sou muito romântico. Eu tive várias possibilidades, vários amigos meus viraram traficantes, bandidos.
JC – Que possibilidades?
CB – Ás vezes você está numa situação ruim, tá vendo sua família passar necessidade, cê tem outros desejos. É assim: cê tá sempre nos botequins jogando sinuca, tomando cerveja, dando um tiro no barzinho, cheirando. Na época o crack não tava ainda em voga, era cocaína, álcool e maconha. Aí chega alguém que fala: tem uma fita numa boutique no Itaim, ou vamos assaltar um banco, precisa de um olheiro. E o que eles te oferecem em grana, é muito alto. Mas você pode morrer. Eu tinha um forte apego pela vida, alguns amigos morreram nessas situações, acho que talvez medo.
JC – Nenhuma vez você aceitou?
CB - Não roubei só chocolate no mercado! Cometi alguns delitos, mas é apavorante quando você tem uma arma na mão e você vê o pavor no rosto de uma pessoa.

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