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sábado, 26 de julho de 2014

Cristiano Burlan, um relato de vida – 3

JC – Você chegou a essa situação?
CB – Cheguei, me senti um lixo. Outra vez, foi quando agredi um garoto na escola, ele quebrou o nariz, saiu sangue, isso me machucou muito. Outra vez, ver uma pessoa congelada, apavorada, quando você aponta a arma para ela. Eu acho que é um clic, você tem medo de matar alguém, você não tem coragem e de repente você mata e isso vira um hábito.
JC – Essas ações ocorriam onde?
CB – Itaim, boutique, padaria, essas coisas. Várias vezes eu quase morri, isso para não dizer que vi o Diabo três vezes na minha frente e mandei um dedão pra ele. Mas eu não tenho orgulho disso, eu queria não ter passado por essas histórias. É tão pesado, tão trágico e dolorido o que aconteceu comigo, com minha família e com meus amigos, que para mim parece que é uma ficção, barata até, muito inventada. Se eu fizesse um documentário contando minha história realmente, as pessoas iam achar que sou louco, que parece um romance.
JC – Dá um exemplo.
CB – Esse exemplo que tentei matá-los. Uma vez a gente tava num lugar, a ROTA chegou e matou todo mundo. Eu me fingi de morto para não ser assassinado também, no meio de 5 ou 6 corpos. Levei um tiro de raspão. As pessoas não acreditam nisso, acham que é mentira. Então eu começo a achar que é mentira, que foi inventado, sou um pouco hiperbólico, um pouquinho exagerado. Essas coisas que aconteceram na minha vida eu diminuo um pouco da verdade quando eu conto, pois as pessoas não acreditariam.
JC – Você tem tendência a fantasiar?
CB – Acontece, mas ao contrário, se realmente fosse dar vazão a isso, ia parecer mentira, eu tenho que diminuir a veracidade da história. Tem um filme bobo: Peixe Grande do Tim Burton. Esse personagem passou por muita coisa e quando ele morre, aparecem no enterro todos os personagens que ele falou durante a vida e as pessoas achavam que ele era mentiroso.
JC – Quando você conta uma história e diminui, isso não gera uma grande solidão?
CB – Onde li isso? São duas frases que não me saem da cabeça: você nasce, vive e morre sozinho, quanto mais cedo você aceitar isso, menos vai sofrer. A outra é de Ivan Turgueniev em Pai e Filho: um homem fala para outro: seu sobrinho é um niilista. Eu não sabia o que significava e fui descobrir e me impactou.
JC – Como você vê esse niilismo?
CB – Não sei se é uma regra geral, para mim funciona assim: na periferia você deixa de ser ingênuo muito rápido, quando você tem contato com essa bandidagem toda, essa violência, aí eu perdi uma coisa que tô tentando resgatar, que é uma certa inocência. Se você não tem uma inocência em relação às coisas, você se torna um cínico. Hoje quando tô bêbado no boteco, para parecer inteligente com a turma do cinema, falo que sou niilista, iconoclasta, agnóstico e corintiano. Na verdade o que queria é ter fé nas coisas, não sei em quê, voltar a ter uma certa inocência que me tiraram muito cedo. É uma das grandes agressões que se faz a uma criança. Quando perde a inocência, ela deixa de viver boa parte da vida dela e aquilo cria um vazio muito grande dentro, pode ser psicologismo barato, mas parece que está sempre faltando alguma coisa, no trabalho ou nas relações pessoais. Não sei me relacionar, eu reajo muito mal. Sei reagir à violência, a situações limítrofes, sei reagir porque já passei por isso, não me dá medo nenhum. Agora com carinho, amor, reajo mal.
JC – Mas embaixo, no Bar da Dona Onça [restaurante que fica no Copan] você se relaciona bem.
CB – Em publico! No privado é outra questão. No boteco todo mundo é legal, o álcool deixa todo mundo mais interessante.
JC – Por que de vez em quando você diz que suas explicações são de um psicologismo barato?
CB – A palavra limita as coisas. Eu não consigo dar forma ao que eu sinto, essa sensação mais primitiva. No papel a palavra pode ter essa potência maior, mas quando ela brota da boca, ela encerra, não abre, não é rizomática.
JC – Como você vive o fato de seu filme Mataram meu irmão ter um indiscutível sucesso? Você ganhou É Tudo Verdade e agora é candidato ao prêmio Governador do Estado. Como você reage ao sucesso do filme baseado na morte de seu irmão?
CB –Tem um outro filme sobre uma moça realizado pela irmã dela. O filme é muito criticado e eu não consigo me excluir disso. Eu usei a morte de meu irmão para fazer um filme. Eu preferia não ter feito. Eu acho que tô pagando um preço alto por isso.
JC – Que preço?
CB – Parece que quanto mais você tenta se aproximar das coisas que realmente você quer entender...
JC – Que coisas?
CB – As coisas mais profundas do ser humano, o que te move, o que te congela, parece que quanto mais você tenta, mais se afasta. Não fui fazer terapia, não é uma resiliência, não é uma sublimação freudiana. Realmente eu quis fazer um filme, quis fazer cinema, por acaso uma coisa que estava próxima de mim, assassinaram meu irmão, uma coisa forte. Eu tive que me distanciar durante o processo de realização, mas ao mesmo tempo, quanto mais me distanciava, mais próximo dele eu me tornava.
Você viu o filme uma semana antes dele ser projetado publicamente pela primeira vez no Rio de Janeiro. Até então eu tava assombrado pelo final do filme e você me falou uma coisa que me marcou. Eu tinha dúvidas se eu deveria ter colocado fotos do meu irmão extraídas dos autos do processo, e você falou: aquele é o momento mais poético, seu irmão parece um Cristo crucificado, você o purifica naquelas fotos. Suas palavras me suscitaram uma serenidade tremenda, eu consegui lidar melhor com isso.
Ao mesmo tempo, como cineasta, eu entrei num lugar a que não tava acostumado, nem sei lidar com isso. Tudo o que realizei até hoje foi mal recebido, primeiro pela indiferença, que é muito cruel, e depois por ataques ferozes de alguns críticos. Mas os ataques não me abalaram tanto, o que mais me abala é a indiferença. Porque num país onde boa parte da produção cinematográfica depende de fomento público, não só eu como mais algumas pessoas conseguem com seus últimos tostões, por paixão, realizar alguns filmes. Claro, isto não deveria ser analisado, o que importa são os filmes.
JC – Deve ser analisado SIM! Temos que pensar as formas de produção.
CB – Você tá falando que os meios que você tem para produzir afetam diretamente a obra?
JC – Claro. A mentalidade de um cineasta que produz com dinheiro incentivado é diferente daquele que produz sem dinheiro incentivado, é uma outra cabeça.
CB – É , isso nunca foi citado pelos críticos.
JC –Mataram tem dinheiro incentivado? O Sinfonia?
CB – Não tem. Eu fiz 15 filmes, vou fazer o 6º longa. Só fiz um curta com dinheiro público, há dois anos, do Edson Loduque. Todos os outros foi dinheiro do próprio bolso e trabalho voluntário dos amigos que acreditam nas minhas ideias.
JC – Queria voltar para trás! Acho que uma pessoa importante nessa história é o Thiago. Como ele evolui?
CB – Não evoluiu, ele se resignou! [...] É uma das pessoas mais talentosas que já conheci.

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