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sexta-feira, 22 de julho de 2016

Filme do Dia: Machuca (2004), Andrés Wood

Machuca Poster

Machuca (Chile, 2004). Direção: Andrés Wood. Rot. Original: Roberto Brodsky, Mamoun Hassan & Andrés Wood. Fotografia: Miguel Juan Littin M. Música: Miguel Miranda & José Miguel Tobar. Montagem: Fernando Prado. Dir. de arte: Rodrigo Bazaes. Figurinos: Maya Mora. Com:  Matías Quer, Ariel Manteluna, Manuela Martelli, Ernesto Malbran, Aline Küppenheim, Federico Luppi, Francisco Reyes, Luis Dubó.
No Chile do auge da crise política de 1973, Gonzalo Infante (Quer), começa a descobrir uma outra realidade completamente diversa da sua. Filho da elite chilena, sua passagem pelo Colégio San Patrick, dirigido pelo Padre McEnroe (Malbran), faz com que tome contato com jovens das favelas de Santiago como Pedro Machuca (Mateluna). Gonzalo se divide entre o carinho da mãe Maria Luísa (Küppenheim), uma dondoca que participa de passeatas anti-comunistas e se encontra mais interessada em suas aventuras extra-conjugais com o rico Roberto (Luppi) e o carinho de Machuca e da igualmente pobre Silvana (Martelli), com quem a dupla vivencia suas primeiras experiências de cunho sexual. A polarização radical do mundo político e o subseqüente golpe de estado que depõe Allende não permitirá que Gonzalo consiga desenvolver o drama de sua afetividade polarizada, já que a nova ideologia ditatorial expurga o Padre McEnroe, simpatizante da experiência socialista e os que lá estudavam mesmo sem possuírem maiores posses como Machuca.
Essa revisão amarga e nostálgica do passado recente, de prováveis influências (auto) biográficas, em seus melhores momentos consegue se afastar da visão sentimental e piegas da amizade entre os dois garotos de realidades sociais distintas, transformando-se em metáfora dos próprios interesses de setores da classe média chilena pela proposta de Allende, sua idealização e dificuldade em levá-la a termo de forma efetiva e não apenas afetiva. Nesse sentido, a complexidade das posições políticas, do mais alto teor de conservadorismo a sua idealização de uma sociedade outra em seu outro extremo, está ilustrada no impasse que o conflito da reunião de pais e mestres no colégio. Do diálogo mais exacerbado se parte finalmente para a violência e a repressão brutal que os militares infligem, por exemplo, aos favelados, sendo que Gonzalo e Machuca são testemunhas do assassinato de Silvana. Repressão que se torna onipresente e vigilante no que diz respeito aos próprios costumes dos adolescentes, agora obrigados a portarem cabelos curtos. Em seus piores momentos, por sua vez, o filme vai beber nas fontes de um voyeurismo com o sofrimento dos mais necessitados, efeito multiplicado pela dramaticidade da trilha sonora que acompanha tais cenas. Porém a balança pende para o comedimento que, conscientemente ou não, trai os limites que o projeto de “aproximação do povo” pelas elites latino-americanas possuía, não muito distante do que se evidenciou no Brasil pós-1964. Assim, Gonzalo não esboça qualquer reação emocional apressada aos ataques do pai alcoólatra de Machuca quando este traça uma visão do futuro em que enxerga a plena realização profissional do primeiro e a estagnação na mediocridade do último. Por sua vez, o cineasta tampouco idealiza qualquer possibilidade de contato entre os dois jovens que, expressando a própria realidade social mais ampla de seu país, rompem o “flerte” proposto pela experiência proto-socialista. O retrato da elite associada a um certo decadentismo sexual, não muito distante de representações do Cinema Novo brasileiro, mesmo de forma sutil, não possui em sua contraparte uma idealização oposta do “povo”, igualmente prenhe de uma forte carga de tensão sexual (Silvana) ou ainda tendo que lidar com os reveses da própria situação de pária (a mãe de Gonzalo agredida por seu marido). Embora o interesse do protagonista por Machuca se dê pela descoberta de outros valores diversos do seu, tampouco está excluído um caráter subliminar homo-erótico, que não deixa de ser esboçado. 121 minutos.


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