Filme do Dia: Sangue da Terra (1953), Hugo Fregonese

 


Sangue da Terra (Blowing Wild, EUA, 1953). Direção: Hugo Fregonese. Rot. Original: Phillip Yordan. Fotografia: Sidney Hickox. Música: Dimitri Tiomkin. Montagem: Alan Crosland Jr. Dir. de arte: Alfred Ybarra. Cenografia: William Wallace. Com: Gary Cooper, Barbara Stanwyck, Ruth Roman, Anthony Quinn, Ward Bond, Ian MacDonald, Richard Karlan, Juan García.

Jeff Dawson (Cooper), e seu parceiro Dutch (Bond), encontra-se sem nenhum tostão em meio ao tórrido e perigoso México. Aceitam então o perigoso serviço de transportar nitroglicerina para o pouco confiável Jackson (MacDonald). Ajuda Sal (Roman), garota que pretendia abandonar o local com duzentos dólares e o restante do dinheiro prometido por Jackson tem que devolver. É o momento de aceitar a proposta do amigo de velhos tempo, Paco (Quinn), que evitara por conta de se encontrar casado com um amor do passado de ambos, Marina (Stanwyck), para trabalhar em sua fazenda de exploração de petróleo.

O que chama a atenção de imediato nesse filme provavelmente devidamente esquecido da filmografia de seu elenco estelar, com seu diretor então por Hollywood em uma temporada de cerca de quatro anos, chamado para essa tarefa provavelmente por conta do tema, é a canção de abertura, mais próxima das melodias romanticamente melosas de Presley alguns anos após que propriamente do univereso do gênero ao qual pertence, ou melhor, sendo uma atualização dos temas musicais tradicionalmente vinculados ao western. Não por acaso cantada por Laine, um cantor branco pioneiro na apropriação de ritmos negros bem antes do seu colega mais famoso. O que combina bem com a própria proposta do filme, que se apropria de uma narrativa que se passa na América do Sul. E de elementos do western, sem propriamente ser um. E, ao final de contas, torna-se uma grata surpresa, mesmo já sendo literalmente em final de carreira de Cooper. Sua ambientação mexicana, o infortúnio do heói e sua versão não tão bem humorada de Pança que o acompanha, vivida pelo icônico Ward Bond. E não pode deixar de haver brigas e sopapos com Anthony Quinn e sua mulher sensual e traiçoeira, vivida por Stanwyck certamente, que já viveu um amor no passado com o herói. E que afirma assim que vê o marido que ele fede como um esgoto. O Mr. Jackson de MacDonald tem toda sua pose assentada sobre o seu dinheiro e influência. Uma Ruth Roman se aproximando, de forma elegante, de qualquer um que seja passaporte para sua saída do local: até mesmo de Ward Bond! Como se houvesse caído direto de um filme noir. Sem falar no durão de sempre de Cooper, que resiste até não mais puder ao canto do cisne, mesmo que por via indireta.  E lógico mexicanos traiçoeiros, de fala zombeteira e um tanto genéricos, no furor de seu ressentimento, que se escondem em ruínas. O retrato de toda e qualquer mulher no filme não inspira maior confiança. Até que posturas mudem para que um final feliz seja arranjado, bem entendido.  E o filme parece atirar para todos os lados. O que não deixa de manter a atenção do espectador. Tem a trama do triângulo amoroso a la Casablanca, embora aqui envolvendo dois amigos e uma carga de nitroglicerina a ser transportada como em O Salário do Medo, mesmo que o recrutamento dos motoristas soe um tanto inverossímil em relação à produção contemporânea francesa, lançado pouco menos de oito meses antes desse. Nem a jornada, nem a situação evocam um milésimo do suor (e do equivalente suspense) das personagens da produção francesa, é claro. Até porque as outras tramas estão ali, temporariamente sufocadas, como que pedindo para virem à luz.  E ao invés de índios rodeando uma carruagem, temos mexicanos rodeando um caminhão, com sua carga exposta, quase como se apelando para os bandidos a virem pegar – inocentes, presume-se, quanto ao seu conteúdo.   Dito isso, não faltam cenas cômicas, como quando o filme eventualmente vira um dramalhão, e a potranca Marina desaba não sobre uma cama para chorar seu amor, mas sobre a grama, com um cavalo comendo a gramínea ao lado como coadjuvante!  E quando ela afirma que não irá fugir, já se imagina o seu destino trágico por ir além dos códigos que uma mulher poderia, devolvendo, inclusive, o troco da objetificação do olhar do ex-parceiro de cama sobre ela, com a mesma luminária utilizada pouco antes. E já se imagina o que sobrará para Roman. Tons cômicos assomam outra vez quando Jeff sai correndo e preocupado com Paco, enquanto a mulher do último só se preocupa com o primeiro, destrinchando uma teia de relações afetivas bem comuns ao western, que o seu final apenas vem acentuar – com não apenas Jeff e Sal, mas também o inseparável Dutch. E Paco vai mostrar sua virilidade dançando com mexicanas em um saloon barato. Desnecessário dizer que é melhor sorver a primeira metade do filme, com todas as expectativas que impõe, que a metade final, no qual já se imaginara que irá tropeçar em seu próprio barroquismo, narrativo no caso, não visual. As soluções baratas de sua produtora (que realizaria 14 produções, principalmente entre o final dos anos 40 e os primeiros anos da década seguinte, com duas produções nos anos 60 e sempre distribuídos pelo famoso estúdio), longe de vexaminosas, não deixam de ter seu charme. Se Fregonese foi escolhido por ser argentino ficaria rubro, ao final, com a descrição inicial de um letreiro que situa a ação na América do Sul, quando tudo aponta menos para isso que para o México, sendo inclusive motivo de desagravo do governo mexicano à época de seu lançamento? United States Pictures para Warner Bros. 89 minutos.

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