Filme do Dia: Serras da Desordem (2006), Andrea Tonacci
Serras da Desordem (Brasil, 2006).
Direção: Andrea Tonacci. Fotogafia Alziro Barbosa, Fernando Coster & Aloysio
Raulino. Música Rui Weber. Montagem Cristina Amaral.
Instigante documentário sobre a saga
de um indígena que, em meio ao massacre que sofre sua comunidade, vaga a esmo
pela mata, até ser acolhido em um pequeno vilarejo. Sua comunicação com os
moradores é restrita, já que o índio, Avá, comunica-se em um tupi-guarani
arcaico, que poucos conhecem. Funcionários da Funai tomam ciência do caso e,
mesmo contra a vontade da comunidade e dele próprio, levam Avá. Permanecendo na
casa de um dos sertanistas que por fim vem a saber da existência de um rapaz
que poderia ser tradutor. O rapaz não pôde ir ao compromisso e um outro jovem é
enviado que se vem a saber tratar-se de ninguém menos que o filho de Avá. Avá
retorna a aldeia e mesmo que no reencontro inicial seja um pouco tímido e
comedido, acaba voltando a se adaptar com certa facilidade. O filme é elaborado
a partir de recursos estilístico-narrativos pouco usuais, em sua diversidade,
no campo do documentário. Assim, existe desde imagens de arquivo de reportagens
a respeito do caso de Avá até reconstituições de sua história, vivida por ele
mesmo, com direito a “flashbacks” e “flashforwards”, sendo que os últimos,
evidentemente, somente passam a fazer sentido com o desdobramento de sua
narrativa. Avá, com sua docilidade, presta-se bem ao tipo “bom selvagem”, sendo
em apenas uma cena isolada efetivando uma atitude que poderia soar algo
antipática a parte do público-alvo dessa produção, ao afastar um cachorro de si
(algo tipicamente vilanesco, inclusive, no cinema mudo dos tempos de Humberto Mauro); nada, inclusive, que não possa
ser efetivamente “desculpável” dentro do contexto cultural ao qual pertence.
Inicia com uma demorada descrição de uma relação elegíaca dos índios com a
natureza, subitamente interrompida pelo contraste chocante com um “outro mundo”
– a estrada de ferro que cruza a reserva indígena. Dentre os recursos
estilísticos diferenciados que o filme faz uso, consta um momento ao menos de
uma inserção, em ritmo de videoclipe, que faz um apanhado geral de elementos da
cultura e sociedade brasileira, do carnaval a Serra de Carajá coalhada de
mineiros como formigas, passando por Lula em tempos de líder sindical e até
imagens de Iracema, uma Transa Amazônica.
Como um dos poucos senões do filme talvez se encontre sua excessiva metragem,
algo condescendente a proposta de seu realizador. 135 minutos.

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