Filme do Dia: Paixão Juvenil (1956), Kô Nakahira
Paixão Juvenil (Kurutta Kajitsu, Japão, 1956). Direção: Kô Nakahira. Rot. Original:
Shintarô Ishihara. Fotografia: Shigeyoshi Mine. Música: Masaro Satô & Tôru
Takemitsu. Montagem: Masanori Tsujii. Dir. de arte: Takashi Matsuyama. Com:
Yûjirô Mishihara, Masahiko Tsugawa, Mie Kitahara, Masumi Okada, Harold Conway,
Eiko Higashitani, Ayuko Fujishiro, Taizô Fukami, Noriko Watari.
Natsushira
(Mishihara) e seu irmão mais jovem, Haruji (Tsugawa) vão passar o verão em uma
praia. Desde o momento em que chegam Haruji demonstra interesse por uma jovem
que encontrou ao desembarcar, Eri (Kitahara). Fazendo parte de um grupo de
jovens da elite e entediados, Haruji ou Haru, como é chamado, possui um
comportamento mais introspectivo e sensível que a maior parte dos jovens. Ao
reencontrarem com Eri, ele consegue fazer contato, levando-a para uma festa e
surpreendendo a todos, inclusive o irmão mais extrovertido. Ao observar Hari
com um homem mais velho (Conway) em um festa, descobrirá que ela é casada com
um estrangeiro. Natsushira passa a viver um caso com Eri que, no entanto,
tampouco deixa de se encontrar com Haru. O estopim ocorre quando Haru marca uns
dias de acampamento e fica sabendo através do amigo de Natsushira, Frank
(Okada), que esse está saindo com Eri.
Desde as suas
primeiras imagens o filme transmite a ansiedade de dois jovens indo para uma
temporada de férias, livres das amarras familiares e com hábitos antenados com
o Ocidente, assim como seu círculo social (roupas de veraneio, lanchas, esqui
aquático, culto ao corpo, parentes nos Estados Unidos) e até no nome dos barcos
(sun-season) e clubes noturnos (Blue Sky) que também se refletem na
estrutura que apoia a narrativa (jazz extra-diegético, com laivos havaianos). O
nome do barco de Haru é uma referência direta ao romance de Shintaro Ishihara e
que geraria um ciclo de filmes do que ficou conhecido como “tribo do sol”, do
qual esse é um precursor – Oshima, contrapondo-se ao ciclo realizaria O Túmulo do Sol, em 1960. Mesmo evitando
as polêmicas críticas sociais de um Oshima, esse filme parece compartilhar de
sua mesma aversão pela transcendência algo distanciada do Japão moderno de um
Ozu ou dos filmes predominantemente ambientados no passado de Mizoguchi, Naruse
ou Korusawa. A sua primeira sinalização de heterodoxia no romance se dá já no
primeiro contato dos dois irmãos com a garota por quem se apaixonarão, já que é
um deles que deixa cair um lenço que lhe será entregue pela garota. Uma das
mais divertidas sequencias é a que observa a tensão sexual entre Haruji e Eri,
lagarteando ao sol lado a lado, nos movimentos dos braços e no volume do calção
dele. O filme constrói ainda melhor outra tensão, a social, no que tange a
lógica que os rapazes reservam de respeito ou mera objetificação das mulheres,
numa cultura extremadamente machista e numa idade bastante propícia a isso,
pois permeada de medo, insegurança e necessidade de aprovação social. Nessa
polarização, evidentemente, não sobra grande espaço para uma afirmação feminina
mais saliente. Ao menos, aparentemente, pois logo se descobrirá que Eri é
casada. E os dois irmãos pontuam bem
essa distinção, um tido como ingênuo, o outro como típico playboy cínico.
Quando a garota sinaliza também se sentir atraída pelo irmão de Haruji,
Natsuhisa, antecipa-se que conflitos surgirão futuramente. A petulância
agressiva de uma juventude que não se identifica com seu país surge na visita
que a gangue de Natsushisa faz a nova boate da região, em que um deles afirma
que o “o Japão é igual em todo canto” e “um grande cemitério para a juventude.”
Mishihara encarna à perfeição o rapaz sensível e tímido e Kitahara a mulher em
branco, que se transforma à aproximação de cada um dos três homens com que se
relaciona. Em alguns bons momentos, Nakahira deixa que o silêncio diga mais que
qualquer palavra. Infelizmente a tragédia final anunciada se cumpre, rompendo
com o relativo padrão sem excessos observado ao longo da narrativa. E, mesmo que
o final seja algo decepcionante e talvez sensacionalista, o filme consegue
desconstruir alguns estereótipos apressados, apresentando um Frank bem mais
sensível do que se poderia supor das situações em grupo e um Haru demasiado
ressentido em sua timidez e fragilidade que são também fonte de ódio explosivo.
Embora tenha sido um dos precursores da chamada, equivocadamente talvez, Nouvelle Vague Japonesa, e tenha tido
uma extensa filmografia após, Nakahira não parece ter ganhado o status de autor
que esse seu filme de estreia sugeria, sendo que sua produção posterior teve
distribuição limitada internacionalmente. Nikkatsu Film Co. 86 minutos.

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