Maborosi (1995), Hirokazu Kore-eda
Maborosi (Maboroshi no Hikari, Japão, 1995). Direção: Hirokazu Kore-eda. Rot.
Adaptado: Yoshihisa Ogita. Fotografia: Masao Nakabori. Música: Ming Chang
Cheng. Montagem: Tomoyo Oshima. Dir. de arte: Kyôko Heya. Cenografia: Keiji
Akatsuka & Yoshihito Akatsuka. Figurinos: Michiko Kitamura. Com: Makiko
Esumi, Takashi Naitô, Tadanabu Asano, Gohki Kashiyama, Naomi Watanabe, Midori
Kiuchi, Akira Emoto, Mutsuku Sakura.
Após o suicídio aparente e
inexplicável do marido, Ikuo (Asano), a jovem Yumiko (Esumi), com filho
recém-nascido, sente-se crescentemente impotente diante desse fato doloroso. Cinco anos depois, ela decide se casar com Tamio (Naitô), que vive com sua
filha em uma isolada vila de pescadores.
Com o rigor estético que lhe é
habitual, Kore-eda consegue traduzir toda a inquietação de sua protagonista
através menos de redundantes diálogos que da austera composição visual de suas
imagens, filmadas sempre a partir de uma câmera fixa (tendo como única exceção
os planos filmados a partir de um carro, mesmo assim prenhes de certa fixidez),
talvez tornando até mesmo desnecessário o seu desabafo próximo ao final do
filme. Auxiliam ainda na construção formal da melancolia e da sensação de
perda, que voltaria a ser trabalhada pelo realizador em outras obras suas (por
exemplo, a partir da perspectiva infantil em seu não menos interessante Ninguém pode Saber) os longos planos
abertos que apresentam uma paisagem deslumbrantemente fotografada mais ao mesmo
tempo soturna, devido em grande parte a conjugação não apenas de seu ritmo
lento, de uma quase independência do plano diante de uma noção de seqüência
mais habitual e da lírica, porém longe de derramada, trilha sonora. Em sua
quase independência do plano em si próprio, muitos deles acabam se tornando uma
tocante expressão agridoce da própria existência humana, partindo de motivos os
mais triviais possíveis – numa dimensão que o aproximaria de Sokurov, ao
encontrarem beleza nas situações aparentemente mais triviais possíveis, mesmo
que aqui de um modo bem mais discreto. Inúmeros poderiam ser os exemplos, como
o momento em que a avó abandona a família e Yumiko a abordará em meio a uma
ponte, que as crianças se encontram dentro de um trem, e que as imagens
entrevistas em rápido movimento pela janela se assemelham a verdadeiras
abstrações ou que pai e filha se encontram deitados em um barco. O rigor da composição
visual, a constante referência aos trens e planos que retratam os ambientes
domésticos filmados a partir de uma câmera igualmente baixa, assim como a
recusa ao movimento de câmera e a presença de planos sem nenhum motivo humano
intercalando a narrativa mais que sugerem uma influência de Ozu, acrescido de
um tom ainda mais lacônico, influência que se encontrará mais diluída em obras
posteriores. O interdito sobre a expressão do próprio luto da protagonista
ganha uma dimensão ainda mais dolorosa como o
peso social de todos aqueles que se referem ao morto ou sugerem algo
vinculado a sua morte e o filho. Prêmio de direção no Festival de Veneza. TV
Man Union para Sine Qua Non Films. 110 minutos.

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