Dicionário Histórico de Cinema Sul-Americano#144: José Padilha

 


PADILHA, JOSÉ (Brasil, 1967). Comercialmente, o mais bem sucedido diretor da Retomada, do Brasil, José Padilha, incomumente, nunca estudou cinema. Nascido no Rio de Janeiro, graduou-se em Economia pela Universidade Católica, PUC-Rio e então estudou economia política, literatura inglesa e política internacional na Universidade de Oxford, Inglaterra. Trabalhou como roterisita e assistente de produção em documentários, antes de criar sua produtora de cinema e televisão, Zazen Produções, com Marcos Prado, em 1997. Em 1999 contrataram o diretor britânico Nigel Noble, para o primeiro documentário em longa-metragem da companhia, Os Carvoeiros, que expunha a exploração dos mineiros, de suas famílias empobrecidas, e da própria terra, em três estados brasileiros: Minas Gerais, Mato Grosso e Pará. Os Carvoeiros estreou no Festival de Sundance, em 2000 e posteriormente ganhou os prêmios de Melhor Documentário em festivais de Los Angeles e no Brasil. Baseado em sua experiência como roteirista e produtor deste filme, Padilha viria a co-dirigir o projeto seguinte da Zazen, Os Pantaneiros (2001), um documentário digital realizado para a televisão brasileira, com Prado. 

O primeiro esforço de direção solo de Padilha foi Ônibus 174 (2002), um notável documentário utilizando de material de arquivo televisivo dos eventos de 12 de junho de 2000, quando um ônibus cheio de passageiros foi sequestrado por Sandro do Nascimento. Os eventos chocantes e o tiroteio no sequestrador, mataram a jovem mantida refém, tendo sido transmitido ao vivo, e Padilha filmou muitas entrevistas com a polícia, meninos de rua, e membros da família de Nascimento (que foi morto pela polícia) para construir uma análise exaustiva do incidente, da vida trágica do sequestrador e da seriedade dos problemas sociais a circundarem o Rio de Janeiro e o Brasil. Ônibus 174 venceu prêmios em festivais de cinema no Rio de Janeiro e São Paulo e, em 2003, em muitos festivais internacionais, incluindo Miami, Rotterdã e o Festival Internacional del Nuevo Cine Latino (Havana). Foi também lançado em diversos países, e atipicamente para um documentário em língua estrangeira, rendeu mais de 200 mil dólares nos Estados Unidos.

Após produzir um documentário intimista de uma mulher de 63 anos perturbada, Estamira, a trabalhar em um lixão no Rio, Padilha dirigiu seu primeiro longa ficcional, Tropa de Elite (2007). Influenciado por seus ídolos do cinema, Martin Scorsese e Constantin Costa-Gavras, e o filme contemporâneo brasileiro Cidade de Deus (2003), Padilha realizou uma sensacional estreia na ficção, conquistando um sucesso de bilheteria, mesmo após três milhões de pessoas terem visto cópias ilegais, que circularam três meses antes, vencendo o prêmio principal (Urso de Ouro) no Festival de Berlim, em 2008 (quando Costa-Gavras presidia o júri). Padilha se impressionara com o livro Elite da Tropa (escrito pelo policiais veteranos André Batista e Rodrigo Pimentel, e com o sociólogo Luiz Eduardo Soares, em 2006), e passou um ano pesquisando as operações do Batalhão de Operações Especiais (BOPE), uma esquadra da elite da polícia do Rio, que se tornou alvo dos traficantes nas favelas. O filme foi imensamente controvertido, considerado por muitos, em sua aparente tolerância dos brutais métodos apresentados empregados nas operações do BOPE, incluindo tortura. No seu lançamento brasileiro, o público aparentemente entrava em júbilo com os assassinatos dos policiais e o sufocamento com sacos plásticos, mas o diretor assevera nunca ter tido a intenção de representar os membros do esquadrão como heróis. Com sua insistente narração em voz over – um dos roteiristas, Bráulio Montavani, havia escrito Cidade de Deus – e um esquema de cores de saturados cinzas, vermelho e dourado – o diretor de fotografia Lula Carvalho, foi o primeiro assistente do operador de câmera de Cidade de DeusTropa de Elite segue o modelo dos recentes filmes de crime/ação brasileiros, mas vai ainda mais longe em sua intensidade aural e visual.

Padilha retornou à forma documental com Garapa (2009), talvez sua melhor obra. Este filme, cujo título é o nome da mistura de água com açúcar, sendo chocantemente  o esteio principal da dieta de muitos pobres vivendo no estado nordestino do Ceará, foi filmado com uma pequena equipe em quatro semanas, com película 16 mm em preto & branco, enfatizando a austera realidade de subnutrição para as famílias de três mães, Rosa, Robertina e Lúcia, a tentarem nutrir. Considerando a extrema pobreza da região nordeste ter sido o tema-chave dos primórdios do movimento do Cinema Novo, nos anos 60, Garapa é tão potente e objetivo - na sua exposição da realidade desesperada de vida desas pessoas que, dia a dia, apenas tentam existir, como se o tema nunca tivesse sido tratado apropriadamente anteriormente. Poucos filmes foram mais bem sucedidos em transmitirem ao público o sentimento de uma cultura desesperada de pobreza. Começando com Berlim e Tribeca (Nova York), Garapa foi exibido em numerosos festivais ao redor do mundo em 2009, mas parece que mesmo no Brasil não foi recebido com grande consideração, e um filme que é muito difícil de se assistir nunca será "popular". De toda forma, Padilha prometeu que continuaria a ajudar todos os retratados no filme financeiramente, alegando que "o filme pertence a eles."

Seja os filmes de Padilha documentários ou ficções, a única coisa que possuem em comum é sua poderosa visceralidade. Ele claramente pretende afetar o público com sua obra e, em 2010, dirigiu um documentário, Secrets of the Tribes (Segredos da Tribo), co-produzido a tv britânica Channel 4, sob os efeitos adversos que a pesquisa antropológica por estrangeiros possui nas vidas da bacia amazônica, o povo aborígene Yanomami, assim como realizou a sequencia de seu sucesso, Tropa de Elite 2 - O Inimigo Agora é Outro. Segredos da Tribo brilhantemente contrapõe entrevistas através da montagem, principalmente com os antrópologos estadunidenses Napoleón Chagnon (Yanomami: The Fierce People, 1983) e Kenneth Good (Into the Heart, 1988), para contrastar os achados sobre os Yanomami e argumentar que estas pesquisas, assim como a de outros como  a do discípulo de Claude Lévi-Strauss, Jacques Lizot (que demonstrou ser pedófilo) provocaram grande prejuízo a esta cultura isolada, transformando drasticamente o modo de vida de sua população. 

A retórica de Segredos da Tribo questiona qual efeito a Comissão de Energia Atômica dos Estados Unidos poderia ter como patrocinadora de pesquisa etnográfica e, mais criticamente, com as companhias farmacêuticas com as vacinas contra o sarampo em uma viagem de Chagnon, que provavelmente causou mais mortes de ianômamis que haveria ocorrido sem a sua intervenção. Segredos da Ttibo teve sua estreia mundial em Sundance. Talvez, nada surpreendentemente, Tropa de Elite 2 se tornou o mais popular filme brasileiro jamais realizado. Em 2011 Padilha trabalhou em outros projetos, e foi anunciado que ele havia sido contratado para dirigir uma sequencia de Robocop em Hollywood!

Texto: Peter H. Rist, Historical Dictionary of South American Film. Plymouth: Rowman & Littlefield, 2014, pp. 439-41. 

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