Filme: Boyhood: Da Infância à Juventude (2014), Richard Linklater

 


Boyhood: Da Infância à Juventude (Boyhood, EUA, 2014). Direção & Rot. Original: Richard Linklater. Fotografia: Lee Daniel & Shane F. Kelly. Montagem: Sandra Adair. Dir. de arte: Rodney Becker & Gay Studebaker. Cenografia: Melanie Ferguson. Figurinos: Kari Perkins. Com: Ellar Coltrane, Patricia Arquette, Lorelei Linklater, Ethan Hawke, Steven Chester Prince, Libby Villari, Marco Perella, Zoe Graham, Jamie Howard, Eijah Smith, Brad Hawkins, Richard Andrew Jones, Karen Jones,  Jenni Tooley, Jessi Mechler, Barbara Chisholm.

Mason (Coltrane),  5 anos, vive com sua mãe (Arquette) e pai (Hawke), testemunhando as desavenças constantes entre eles, com a irmã Samantha (Linklater), até o dia em que a mãe resolve ir morar em Houston e abandonar o pai. O plano dela é continuar estudando. Interessa-se por um professor mais velho, Bill (Perella), que progressivamente demonstra ser um pai/padrasto tirano e alcoólatra. A mãe, com a ajuda de uma amiga, consegue retirar os filhos e ir viver temporariamente na casa dessa amiga, Carol (Chisholm). Com isso, Mason e Samantha também mudam de escola. O pai os leva para um final de semana com os pais  (Richard Andrew Jones e Karen Jones) de sua nova companheira, Annie (Tooley), comemorando os 15 anos de Mason. Os pais de Annie lhe presenteiam com uma bíblia e um rifle. Mason se torna crescentemente interessado em fotografia. A mãe, agora professora, envolve-se com um aluno que fora soldado de um pelotão exemplar no Iraque, Jim (Hawkins), mas que aos poucos se torna uma figura opressora para o agora adolescente Mason, que tem suas primeiras incursões com namoro e drogas. Mason vivencia a sua primeira experiência afetiva forte, com Sheena (Graham). Com o final do ensino médio, a família comemora reunida com os amigos a graduação de Mason, porém este não se encontra exatamente feliz, pois rompeu recentemente com Sheena. A mãe, vivendo agora sozinha, chora quando o filho parte de casa para viver agora como universitário. Recém-chegado em seu alojamento, recebe um convite do seu novo colega de quarto para um acampamento, no qual conhece a bela e interessante, Nicole (Mechler).

O filme se beneficia enormemente de uma estratégia praticamente única na cinematografia não apenas americana, mas igualmente mundial, de ter tido a sorte de contar com o mesmo elenco básico, assim como boa parte dos de apoio, ao longo de 13 anos em que se observa a transformação do pequeno Mason, entrevisto observando o céu na primeira cena do filme em jovem adulto, observando para sua provável futura namorada sobre a sensação de “eterno presente” existencial vivida por ele. Mote que bem poderia resumir o projeto do próprio filme, que evita o tom nostálgico com que tais revisitações sobre a infância trazem consigo – sendo auxiliado, nesse sentido, evidentemente, por uma estrutura que não é exatamente a de uma visão retrospectiva dos fatos, mas de acompanhamento de crescimento/amadurecimento/envelhecimento de seus personagens principais. Seu tom, portanto, é agridoce e evita a disposição dramatúrgica tradicional, antes observando cenas isoladas, com o passar dos anos, das pessoas que convivem com o reservado e algo taciturno protagonista. Essas podem ir de pregar placas pro-Obama junto ao pai durante a primeira campanha presidencial do mesmo até testemunhar, bastante temeroso, a explosão de copos e pratos de Bill, o crescentemente desajustado companheiro da mãe. Destituídos de nomes, as figuras materna e paterna parecem, de alguma maneira, herdar algo de uma tradição melodramática que remete ao Laços de Família (1945), com uma mãe pragmática e por demais preocupada com o bem estar dos filhos se contrapondo a um pai menos restritivo, mais emocionalmente expansivo e também irresponsável. Porém aqui, ao contrário de Kazan, tais perfis acabam beneficiando mais o pai, morto no filme de Kazan ainda precocemente e como extensão de sua vida dissoluta, que consegue estabelecer uma nova relação de forma sólida que a mãe, sempre imbuída em encontrar uma figura masculina que não apenas se tornasse um novo pai para seus filhos e um porto seguro que a auxiliasse na árdua tarefa de ter que carregar tudo praticamente sozinha e sempre recorrentemente se deparando com figuras abusivas, tacanhas e autoritárias. O Mason de Coltrane se torna uma tocante expressão da subjetividade americana jovem contemporânea ao filme, observando tudo que acontece ao redor dele de forma mais introspectiva que intervindo de forma mais incisiva nela, auxiliado por um expressivo punhado de canções, utilizadas sem excesso na banda sonora e por um ainda mais equilibrado senso de se deparar com as vicissitudes e vitórias na vida pessoal e profissional (no caso aqui, estudantil) de qualquer um, sem cair no grotesco ou clichê. É nesse equilíbrio que é observado, de forma breve, as primeiras manifestações de bullying na escola contra Mason ou as primeiras referências ao seu interesse por sexo no computador ou observando revistas de moda íntima e ainda as primeiras conversas com colegas de sua idade sobre o tema. Talvez o filme, extenso mas longe de cansativo, provocando quase uma sensação de se assistir a um compacto de uma série produzida ao longo de todos esses anos. O que não deixa de ser parcialmente verdade, se beneficiasse mais de findar com a partida de Mason sozinho de carro para ir a nova cidade onde se tornará estudante universitário, sem acenar de forma mais intensa para esse novo momento de sua vida, apenas esboçado de forma singela e contida ao final, mas esse é apenas um detalhe de uma estratégia dramatúrgica que parece não pedir ou trabalhar de forma adequada com a noção de “fim”, já que impregnada dessa constante luta dos sentimentos, afetos e práticas que é a própria vida. A determinado momento, e de forma bem acertada, Mason observa que o envelhecimento da mãe não deixou de acarretar para ela as mesmas dúvidas e incertezas que ele carrega consigo. Com fotografia deslumbrante e algo que poderia sugerir uma ocasional referência a um célebre filme sobre a passagem para a vida adulta que marcou outra geração – a da cantada da amiga da mãe diante de um Mason recém-solteiro numa festa e A Primeira Noite de um Homem, assim como o plano final em que os dois, Mason e Nicole, deparam-se com a câmera diante de si – são integrados em maior ou menor grau a forte “personalidade” do projeto de Linklater para soarem como as aborrecidas referências-tributos do cinema norte-americano a si próprio habituais. De longe mais interessante que outro projeto inusitado, a aborrecida sequencia de filmes que acompanha um casal (Antes da Meia Noite sendo o temporalmente mais próximo desse), demasiado dependente dos diálogos. Aqui os diálogos demonstram também serem de importância fundamental, mas o filme também dialoga com outras potencias expressivas do cinema, sendo mais visualmente elaborado. Na banda sonora a presença de uma trilha obviamente antenada em provocar identificação sobretudo com a geração do seu protagonista – Coldplay, The Hives, Sheryl Crow, Daft Punk, Cat Power, Lady Gaga, Kings of Leon, Arcade Fire, The Black Keys, etc. – sem esquecer mais de uma breve menção a banda favorita do pai, os Beatles (acompanhada de rápidos acordes de canções referenciais de Harrison e McCartney) e até a composição e interpretação de canções pelo próprio Ethan Hawke, inclusive numa de suas cenas de mais vibrante espontaneidade (algo herdeira do Nashville, de Altman). IFC Prod./Detour Filmproduction. 165 minutos.

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