Filme do Dia: A Hora Final (1959), Stanley Kramer

 



A Hora Final (On the Beach, EUA, 1959). Direção Stanley Kramer. Rot. Adaptado: John Paxton, a partir do romance de Nevil Shute. Fotografia Giuseppe Rotunno. Música Ernest Gold. Montagem Frederic Knudtson. Dir. de arte Rudolph Sternad & Fernando Carrere. Guarda Roupa Joe King. Com Gregory Peck, Ava Gardner, Fred Astaire, Anthony Perkins, Donna Anderson, John Tate, Harp McGuire, Lola Brooks, Ken Wayne, John Meillon, Joe McCormick, Kevin Brennan.

1964. Após um vazamento nuclear em decorrência de ação bélica, a humanidade se vê condenada à extinção em curto prazo de tempo. Cada um lida como pode com a situação. O comodoro Dwight Lionel (Peck) realiza expedições com seu submarino. Moira (Gardner) anseia pelo seu retorno. O jovem casal Mary (Anderson) e Pete (Perkins) negociam a relação afetiva, quando Pete, subordinado de Dwight, encontra-se sobre a terra firme. O solitário Julian (Astaire) investe emocionalmente em corridas de carros.

Difícil, mesmo quando se leva em conta Kramer ser o exemplo quase caricato do discurso liberal americano então vigente no cinema, encontrar alguma outra produção com tal perfil, com resultados tão constrangedores. É um período de crescente tensionamento nuclear, como acusa pouco após alguns filmes italianos, pelo viés cômico (O Juízo Universal) ou referências diversas pelo viés sério-dramático (O Eclipse). O mais dissonante, é por muito que fosse permeado em maior ou menor grau por um tema polêmico, fosse o racismo (Acorrentados, Adivinhe Quem Vem para Jantar), nazismo (Julgamento em Nuremberg) ou o que fosse, havia uma levada dramática que frágil ou mais encorpada, não fazia tão feio como neste caso. Parecemos assistir a outro filme a partir da sua segunda metade, quando há um deslocamento maior dos dramas existenciais dos personagens para a ação no submarino, aproximando-se mais do padrão das produções de Kramer, e se Ava Gardner é a principal vítima de diálogos e situações péssimas, que bem poderiam ser utilizadas como material de sátira pela revista Mad, caso não tenha sido de fato,  até nisso a segunda parte parece mais razoável, pois apenas faz o que quase todos fizeram, ressaltar a estranheza de Perkins (mas notoriamente pouco após com Psicose, mas ainda tempos depois com O Despertar Amargo ou pouco antes com Vencendo o Medo). Porém o alento dura pouco, pois no quarto final do filme aqueles que estavam submergidos voltam a superfície para, entre outras coisas, assistir Fred Astaire como um exímio piloto de corridas!! Em uma corrida que mais parece um festival de acidentes fantásticos – talvez para distrair o espectador da própria falta de bússola do filme e do distanciamento do início de um ingresso na atmosfera de uma ficção científica, com ruas de San Francisco desertas como as de Los Angeles para A Última Esperança da Terra, embora em menor quantidade nesta produção, claro, pois não se trata de seu motivo central (e qual seria mesmo?). Já antecipa-se uma mensagem final, seja por cartelas (afinal supõe-se não haver mais sobreviventes), e ela não falha, sobre uma faixa do Exército da Salvação em um praça deserta, na qual se encontra escrita “Ainda há tempo...irmão”. Foi o primeiro filme distribuído por um grande estúdio a ter como tema a hecatombe nuclear, e não é exatamente despropositado se imaginar que o ataque cardíaco fatal vitimando o autor do livro, apenas um mês após o lançamento do filme,  tenha se dado pelo memo.| Stanley Kramer Prod./Lomitas Prod. para United Artists. 134 minutos.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Filme do Dia: Der Traum des Bildhauers (1907), Johann Schwarzer

Filme do Dia: El Despojo (1960), Antonio Reynoso