Filme do Dia: Fata Morgana (1971), Werner Herzog
Fata Morgana (Alemanha, 1971). Direção
e Rot. Original:
Werner Herzog. Fotografia: Jörg-Schimidt-Reitwein. Música: Blind Faith. Com:
Eugen Des Montagnes, James William Gledhill, Wolfgang von Ungern-Sternberg.
Herzog propõe uma viagem pela paisagem
e tipos que vivem ou se encontram na região do Deserto do Saara, ancorado no
folclore de alguma mitologia ancestral. Para tanto consegue extrair o máximo de
expressividade dos relativamente reduzidos recursos estiliísticos de que faz
uso como a narração over (na voz da célebre historiadora do cinema Lotte
Eisner), de passagens da escatologia mitológica, imagens documentais e
semi-documentais e uma trilha sonora de forte peso. Com um prólogo que dispõe
inúmeros planos semelhantes de aviões aterissando parodiando a chegada dos
deuses a Terra, o filme destaca inicialmente paisagens desérticas para ilustrar
o momento que a escatologia faz referencia ao mundo antes dos humanos. O
resultado ganha densidade com as árias que compõem a trilha musical e as
paisagens sugerem não só nunca terem sido tocadas pelo homem como fazerem parte
de um universo completamente distante de qualquer referencia a suposição da
existência humana. Logo, no entanto, mesclam-se artefatos humanos às paisagens
naturais e são efetivadas relações entre a degradação de cadáveres de animais e de carrocerias de
automóveis. Quanto mais presente a figura humana, menos sisudo o filme se faz,
apresentando tipos excêntricos como um estudioso de lagartos ou uma improvável
dupla de músicos que mais parecem ter saído de um filme de Kaurismäki ou Lynch.
A música erudita é substituída por canções de Larry Cohen, que acompanham belos
e extensos travellings motorizados. A
dimensão hipnótica e visionária parece se casar tanto nesse gênero de música
quanto no outro, mesmo que num certo trecho que apresenta uma queda d´água
ilustrado com um fundo musical que remete ao grupo Popul Vuh (que realizou
diversas colaborações com o cineasta) soe involuntaria e perigosamente próximo
de uma vulgar ode hippie à
natureza bem ao gosto da época. Enquanto
obra inspirada na escatologia de uma tradição milenar, o filme consegue
efetivar um tratamento bem mais poético e heterodoxo que o efetivado por Reggio
em seu Koyaanisqatsi (1983). Ou tão surrealista e sarcástica é sua aproximação do gênero documental, como havia sido a de Buñuel em seu Terra Sem Pão. Werner Herzog
Filmproduktion. 79 minutos.

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