Filme do Dia: Rapaziada! (1981), Iskra Babich
Rapaziada!
(Muzhiki!, URSS, 1981). Direção Iskra Babich. Rot. Original Iskra Babich
& Valentin Mikhajlov. Fotografia Sergei Zaytsev. Música Vladimir Khomarov.
Montagem Lyubov Butuzova. Dir. de arte Vasili Golikov. Figurinos Natalya
Ivanova. Maquiagem Ye. Prokofyeva. Com Aleksandr Mikhaylov, Pyotr Glebov, Vera
Alkhovskaya, Irina Ivanova, Mikhail Buzylyov-Kretso, Pyotr Krylov Aleksandr
Pavlov, Anatoliy Solonitsyn.
Pavel “Pavla” Zubov (Mikhaylov) retorna à casa dos
pais após década e meia, apenas para descobrir, através de seu pai (Glebov),
que a garota adotada pela família e em vias de ser encaminhada a um
reformatório, por não ter uma educação, Polina (Ivanova), é filha de seu
relacionamento com um amor do passado, Nastya, já falecida. Vivendo com um
mulher que paga a maior parte das contas, Pavla não reage, inicialmente, de
forma nada propícia a assumir as responsabilidades com sua filha. Porém, a
situação começa a se transformar quando sua mãe (Alkhovskaya) lhe conta, entre
lágrimas, que forjara a notícia de Nastya ter esquecido dele. Pavla se encontra
agora tão interessado em cuidar da filha, que aceita até mesmo que as duas
crianças, uma adotada e outra filha da união de Nastya com um artista bêbado,
venham junto.
Pode-se eventualmente até verter alguma lágrima
furtiva, mas plenamente consciente de que foi arrancada de forma bastante
arquitetada para assim o sê-lo. E quando não, talvez venha a imagem
genuinamente mais impactante de todo o filme. E não é a do pobre cachorro
correndo atrás da caravana improvisada – pobres cachorros sempre são um
instrumento certeiro de manipulação emocional; é a da nova “família” embarcando
em um ônibus, sobre solo coberto de gelo e a fumaça das chaminés ao fundo. E o
filme pode ser considerado uma comédia disfarçada, e não o drama com o qual é indexado em alguns
lugares. Comédia dramática que seja. Ao não aprofundar em nenhuma das questões
abordadas. E, ao contrário de certas comédias soviéticas do período ou
posteriores, como Kin Dza Dza ou Nastya, abstraído de qualquer
percepção histórica. Quando se tenta uma aproximação com o brasileiro Central do Brasil, por exemplo, por mais carga simbólica do qual este seja imbuído,
também uma história de realinhamento emocional com a vida e com as gerações
mais jovens de alguém mais velho e cético e/ou cínico, este deixa entrever
marcas de seu tempo de forma muito mais crível. Já no caso soviético, afogado
na tundra da moralidade até a raiz dos cabelos, um homem até então indiferente
a qualquer apelo emocional em relação a filha adolescente, subitamente se vê
transformado, numa transformação radical que também fala mais aos laivos de
irrealismo mais familiares ao gênero cômico. Sim, não é nada impossível que ao
descobrir que sua amada-falecida Nastya o amava de fato, encontre na filha uma
forma de se redimir perante a si mesmo – e o incesto latente a acompanhar esta
proximidade entre as figuras de mãe e filha, quando esta põe os brincos do amor
da vida de Pavla, é um dos bons achados do filme. Como o de Irina Ivanova para
viver a filha, a trazer uma espontaneidade calculada para algumas de suas cenas
que a tornam acima de um bom e profissional elenco – pena (para o espectador e
talvez não para ela) que não tenha seguido carreira. Mas que este rearranjo
radical do personagem seja feito da forma como o é, levando consigo mais duas
crianças e um cachorro, e abdicando da mulher que era a maior fonte de
sustentação econômica da casa é constrangedoramente leniente com uma ideia,
mais que com uma busca de mimetizar aspectos dramáticos da vida. E não uma
ideia de alguma grande corrente do pensamento, a de seu limitado roteiro mesmo.
Incluindo em sua cruzada moral contra os pais irresponsáveis, um encontro
sofrido do pai do garoto, desesperado em seus remorsos de reencontrar o filho –
e aí a coincidência para que tal encontro se dê de forma menos obstruída, dá-se
justamente em um momento no qual Polina e Pavla se encontram afastados. E
observar – inclusive escutando apesar do vidro que os separa – o desespero
deste pai, misturado com um conforto de que provavelmente venha a ser criado de
melhor modo do que por ele, é uma espécie alerta do que poderia ocorrer no
futuro ao nosso herói. E daí a por na
conta do farsesco tudo o que virá pela frente, inclusive os casacos
recém-comprados e já estragados no mesmo dia e um apoio emocional dos amigos e
colegas de trabalho, a sinalizarem para um quase compartilhamento de
responsabilidades. E em que um dos grandes excluídos, como em determinado tipo
de comédia costuma ser, é a sexualidade. Mesmo com fama de galã, o Pavla de
Mikhaylov só tem um momento a sós com uma mulher, que é empregada do trem onde
viaja, bem mais velha que ele, e a quem busca compartilhar suas mágoas, mas sem
vislumbre evidente de desejo. De sua amante não vemos mais que uma foto e de
seu amor sabemos se encontrar sepultada a sete palmos, e antes disso separada
dele por gênio de sua mãe – mais um tique do incontornável incesto familiar. E
correndo contra o tabuleiro disposto pelo filme, a atitude mais lúcida de todas
parece ser a da ex-companheira de Pavla, que nada tem a ver com os vestígios
deste passado (e mal sabe ela que em dose quadrupla, já que além do filho dele,
ainda tem mais dois irmãos e um cachorro na conta). Ao menos neste ponto, não
se trinca a barreira do improvável. Sua música ajuda a empurrar com gosto esta
história de amor e regeneração, quiçá endereçada ao público masculino de uma
cultura fortemente masculinista, a quem este olhar pode parecer simpático em um
filme, e cujo teor de transformação seria tão remoto quanto o de um alcóolatra
assistindo, na sua época, a um filme de reforma moral de Griffith (A
Drunkard’s Reformation). Menção honrosa em Berlim – mesmo festival que
premiaria anos após o filme de Salles. |Mosfilm/Trete Tvorscheskoe Obedinenie.
94 minutos.![]()

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