Filme do Dia: Jurando Vingar (1925), Ary Severo
Jurando Vingar (Brasil, 1925).
Direção: Ary Severo. Rot. Original: Gentil Roiz. Fotografia: Edson Chagas. Com:
Gentil Roiz, Rilda Fernandez, Iara de Alencar, José Lyra, Valderez de Souza,
Berardo Ribeiro
Júlio
(Roiz), agricultor, após três anos sem andar por Recife, visita o amigo Luiz
Peres (Severo) e lhe conta sobre os últimos acontecimentos que transformaram
sua vida. Ele então vive sozinho com a
irmã Maria (de Alencar), em uma fazenda. No dia que vai a um boteco buscar
alguma distração, encanta-se por uma das atendentes, Bertha (Fernandez), que é
propositalmente destratada por um elemento perigoso, Antonio Moraes (Lyra) e
que todos do local temem, conhecido como “O Aviador”. Júlio, incapaz de se conter diante do que vê,
parte para a briga e após algum tempo, sagra-se vencedor, diante de todos os
que lá se encontravam. Ele e Bertha voltam a se encontrar no dia seguinte. No
dia que decide vender a safra do ano na cidade, Júlio antes passa pela residência
em que mora Bertha, que o apresenta a sua mãe, Dona Chiquinha (de Souza). Sem
perda de tempo, Júlio já pede a moca em casamento para sua mãe. Ele vai a uma
usina e negocia a venda da cana com seu proprietário. Ao retornar da viagem,
soube da morte da irmã assassinada, e jura vingança. Ao saber que Julio casará
com Bertha, O Aviador a sequestra. Júlio encontra o cativeiro e uma briga se da
com o criminoso, estrangulando-o. Segue-se o casamento com Bertha. E suas bodas
sãos dedicadas às crianças locais. Porém, uma nova tentativa de mata-lo surge
do maior comparsa do Aviador, Manoel Rato (Ribeiro)
Esse
terceiro longa-metragem do estúdio, o de maior destaque na produção ficcional
do Ciclo do Recife, é cheio de pequenos encantos desde o seu início, quando as
cartelas já o anunciam como tal, fazendo comparações com as duas outras
produções, autocriticando sobretudo a primeira. Os eflúvios de uma cidade
belle-époque são apresentados em dois planos de rua movimentada no centro da
cidade, repleta de bondes, alguns carros, muitos transeuntes, traçado
retilíneo, edificações cheirando a cal e tinta e em harmonia na sua arquitetura
e altura. Pouco depois, já temos uma relação proto-incestuosa de amor
fraternal, em que o homem possui laivos de cowboy, pulando a cerca e o cavalo,
e não abrindo ou montando como habitualmente se faria. E quando ele chega ao
café, os que são servidos são somente homens, as figuras públicas de então. E
os críticos sudestinos provavelmente deveriam se rir de uma cena anterior, em
que um Luís Peres ao reencontrar o amigo que há tempos não via tenta
desengonçadamente tirar o estojo de cigarros de seu robe, noutra cena
mimetizada do que se via nos filmes hollywoodianos. Também não se pode esquecer
as onipresentes cartelas estilizadas, em que um desenho de um punhal a
trespassar um coração antecipam, como o título, a forte probabilidade de ao
menos um crime passional. E entre os detalhes ótimos, estão os planos
aproximados do aparentemente possesso ou catatônico, a depender da perspectiva,
dono do bar em que ocorre a briga, sempre com a mesma expressão, e que não
sabemos se observa a briga ou se encontra alheio em seu próprio mundo. E o que
dizer do conteúdo parnasiano que vez por outra emerge das cartelas (“E naquela
venturosa tarde um tênue crepúsculo ofuscava o dia.”) E o que Mauro
prontificaria posteriormente (“Cinema é cachoeira”) parece já se antecipar
aqui. E não será surpresa o destino edipiano do nome da amada que já se
adivinha ser o mesmo da mãe, antes até que o herói afirme (via cartelas,
logico) que possui algo de santo. E quando o herói afirma a irmã que, em sua
ausência, caso ela precisa, utilize-se do seu rifle, devidamente apresentado em
um plano isolado na parede, alguém duvida que ela o precisará em algum
momento? os planos da chegada de Júlio à
cidade apresentam um ambiente ainda grandemente rural. Demasiado obcecado por
seu herói, o filme esquece do vilão. E sequer constrói em relação ao vilão uma
situação de suspense não ao que se
imagina sequestro, mas a morte de Maria, preferindo trazer o evento em flashback
por uma testemunha. Com o avanço da narrativa, torna-se sintomática que a
vingança prometida por seu título não se encontre associado a Bertha, mas sim a
irmã do herói. E, uma caricatura perfeita disso é a cena em que Júlio vai até a
venda, apenas indagando sobre quem ele suspeita que seja o assassino da irmã, e
ignore por completo Bertha – estranhamente também sendo ignorado por essa. O
vazio da ausência da irmã é soberbamente significado em dois planos seguidos.
No primeiro, o espaço do caramanchão, de seu habitual “idílio fraterno”, agora
vazio. No segundo, ele não mais trespassa a cerca de um pulo, mas perna por
perna. E apesar da luta mortal travada entre seu noivo e O Aviador, Bertha
permanece impassível, sem dar qualquer sinal de sua existência, mesmo estando
em um cômodo vizinho da mesma. Curioso também como não haverá nenhum tipo de
investigação sobre o assassinato cometido por Júlio, embora houvesse sabida
inimizade entre ambos – assim como tampouco anteriormente a respeito de Maria;
a depender do ponto de vista trata-se de uma sociedade que somente pode contar
com o justiçamento através das próprias mãos. Toda a narrativa é contada por
Júlio a um amigo seu, embora essa história-moldura seja orientada para alguém
cuja única relevância é ser o veículo para que tenhamos acessa a mesma, já que
não possui qualquer relação com os envolvidos. Interessante perceber a
existência já de flashbacks dentro de flashbacks, algo que
somente se tornaria relativamente comum na produção hollywoodiana nos anos
1940, como é o caso do garoto contando sobre como encontrara o cadáver da irmã
de Júlio. Ao contrário daqueles, no entanto, não há uma delimitação muito clara
desse, embora ao final não reste mais qualquer dúvida, com o retorno a
história-moldura e a despedida dos amigos.
Aurora Film. 49 minutos.

Comentários
Postar um comentário