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sexta-feira, 9 de setembro de 2016

The Film Handbook#92: Stanley Kubrick



Stanley Kubrick
Nascimento: 26/07/1928, Nova York, EUA
Morte: 07/03/1999, Harpenden, Hertfordshire, Inglaterra

Amplamente aclamado por suas ambições sérias e seu perfeccionismo inflexível, Stanley Kubrick angariou para si próprio um grau único de liberdade artística. Paradoxalmente, embora seus filmes tenham repetidamente lidado com a ameaça de desumanização (com o homem escravo da guerra, da máquina ou de suas próprias ambições desenfreadas) ele próprio tem crescentemente demonstrado uma obsessão com a técnica em detrimento do personagem.

Após um trabalho bem sucedido como fotojornalista da revista Look, Kubrick realizou sua estreia no cinema com dois curtas documentais Day of the Fight e Flying Padre. Em 1953 realizou o longa Medo e Desejo/Fear and Desire, seguido dois anos após por A Morte Passou Perto/Killer's Kiss. Ambos - o primeiro uma história de guerra virtualmente abstrata, o segundo um estilizado thriller noir - foram realizados com orçamentos minúsculos, com o diretor também atuando como produtor, roteirista, montador e câmera.

Stanley Kubrick nas locações de Dr. Fantástico

Não antes de O Grande Golpe/The Killing>1, filme de assalto sobre uma ação em um hipódromo notável por seu uso acentuadamente pretensioso e redundante de flashbacks temporais e por um excelente elenco de atores de caracterização de filmes-B - houve alguma sugestão efetiva de que Kubrick se tornaria um talento maior; seu estilo frio e estranhamente distante reapareceu com efeito devastador em Glória Feita de Sangue/Paths of Glory>2. Filme anti-bélico baseado em fato histórico, expõe os mecanismos corruptos pelos quais três soldados franceses, na I Guerra Mundial, vem a ser executados, como exemplo para seus pares, após se recusarem a marchar para a morte certa; abastecido por fúria mais que compaixão, a fluida câmera de Kubrick deambula pelas trincheiras e explora os alojamentos dos oficiais para retratar um quadro poderoso e preciso de uma intriga insensivelmente maquiavélica.

O sucesso de Glória Feita de Sangue levou Kirk Douglas - no filme a personificação da fria razão - a empregar Kubrick em substituição de Anthony Mann em Spartacus: embora superior a maioria dos espetáculos épicos o filme, no entanto, sofreu com um elenco equívoco e uma aparente falta de preocupação com seus escravos rebeldes. Uma versão de Lolita>3, de Nabokov foi ainda mais  intenso, com um obsessivo e enciumado herói pedófilo emprestando uma triste dignidade a calmamente zombeteira, mas comovente interpretação de James Mason; a própria obsessão de Kubrick por autenticidade visual também esteve bastante em evidência com as tristes rodovias e motéis do Meio-Oeste americano cuidadosamente evocadas em locações inglesas (já que a partir de agora o cineasta optou por trabalhar na Grã-Bretanha). Igualmente, na soberba comédia negra Dr. Fantástico/Dr. Strangelove>4, ele se esmerou na recriação de uma base área americana, a sala de guerra do pentágono e a cabine de comando de um jato bombardeiro: história visualmente ornada de um erro militar final, com um general insano e sexualmente paranoico apertando o botão que envia um comboio de ogivas nucleares a voarem em direção à Russia. O filme é simultaneamente dolorosamente pessimista, hilariante e míope regozijo com a hipocrisia, estupidez e fracasso humanos.

A ênfase insistente de Kubrick no estilo e sua atitude fria em relação aos personagens veio à tona em 2001: Uma Odisseia no Espaço/2001: A Space Odissey>5, uma pretensiosa e pomposa história hipotética do gênero humano, de sua condição como primata passando pelo presente até seu renascimento divino pela intervenção obscura de monolitos negros alienígenas. Deleitando-se com os lentos e imponentes movimentos de naves espaciais pelos céus e reservando sua maior simpatia a um computador falante, Kubrick transformou seus personagens humanos em autômatos anônimos, o polido verniz do filme mal escondendo os empréstimos vazios e confusos de Nietzsche. Igualmente, uma adaptação de Laranja Mecânica/A Clockwork Orange >de Anthony Burguess, no qual a brutalidade criminosa de uma gangue de punks futuristas é saciada por uma lavagem cerebral punitiva e desumana levada a cabo por um governo repressor, foi excessivamente preocupada com fortes efeitos visuais (lentes olho de peixe, câmera acelerada, decadente cenografia) e uma demonstração bombástica de violência margeando o voyeurístico do início ao final. Novamente, foi difícil sentir simpatia por qualquer um dos personagens deliberadamente grotescos de Kubrick.

Por volta de então o diretor, celebrado como um grande e provocador artista, aparentemente o levou a considerar sua obra como sacrossanta, levando vários anos até a realização de um filme, meditando sobre redundantes questões de técnica e autenticidade, enquanto buscavam uma respeitabilidade pelo tema. Barry Lyndon, uma adaptação de três horas de um romance irônico de Thackeray sobre a breve passagem de um libertino pela alta sociedade, foi notável principalmente por suas exuberantes e meticulosamente imagens pictóricas, seus personagens sendo geralmente demasiado bidimensionais para. uma comédia de costumes. Da mesma forma, O Iluminado/The Shining foi uma bombástica versão de um suspense de Stephen King no qual a crescente insanidade de um escritor o leva a tentar matar sua esposa e filho em um remoto hotel vazio (explorado com característica bravura barroca pela vagante câmera de Kubrick). Por fim, após um trabalho de sete anos, o diretor completaria Nascido para Matar/Full Metal Jacket>7,  narrativa eficiente mas nada notável e grandemente acadêmica dos efeitos desumanizadores do treinamento militar nos jovens americanos levados para lutar na absurda e caótica Guerra do Vietnã. Novamente, a ênfase se dá na fraqueza humana: um soldado raso, tornado insano pelas desbocadas ordens que o transformaram numa máquina de matar, volta sua arma contra seu superior antes de estourar seus próprios miolos contra a parede; mais uma vez, um pacifista inevitavelmente aprende a matar. Novamente, os cenários são utilizados com enorme acuidade visual mas, novamente, a seca manipulação dos personagens e público por Kubrick implica numa atitude condescendente em relação à humanidade que previne nossa compreensão ou simpatia com relação a suas vítimas fatais.

A ausência de entusiasmo na obra posterior de Kubrick é fatal para sua reivindicação de ser um grande artista; poucos diretores levaram a técnica ou a si próprios tão à sério. Embora sua obra inicial tenda a sugerir uma inteligência controlada de um dissidente ambicioso, seus filmes mais recentes são repletos de egotismo auto-indulgente e uma impiedosa obsessão com o estilo pelo estilo; de fato, ele aparenta ser culpado das mesmas qualidades do gênero humano contra as quais repetidamente se contrapôs.

Cronologia

Talvez inicialmente influenciado pelo cinema noir, Kubrick tem expressado sua admiração pelos filmes de Fellini, Chaplin, Welles e Antonioni: todos diretores com uma distinta visão artística, alguns  tão vítimas da mesma indulgência, pessimismo e egotismo quanto ele.

Leituras Futuras
Kubrick (Nova York, 1983), de Michel Ciment, Stanley Kubrick Directs (Londres, 1972), de Alexander Walker

Destaques
1. O Grande Golpe, EUA, 1956 c/Sterling Hayden, Vince, Edwards, Ted De Corsia

2. Glória Feita de Sangue, EUA, 1957 c/Kirk Douglas, Ralph Meeker, Adolphe Menjou

3. Lolita, Reino Unido, 1962 c/James Mason, Sue Lyon, Shelley Winters, Peter Sellers

4. Dr. Fantástico, Reino Unido, 1964 c/Peter Sellers, George C.Scott, Sterling Hayden

5. 2001: Uma Odisseia no Espaço, Reino Unido, 1968 c/Keir Dullea, Gary Lockwood, William Sylvester

6. Laranja Mecânica, Reino Unido, 1971 c/Malcolm McDowell, Patrick Magee, Michael Bates

7. Nascido Para Matar, Reino Unido, 1987 c/Matthew Modine, Vincent d'Onofrio, Lee Ermey

Texto: Andrew, Geoff. The Film Handbook. Londres: Longman, 1989, pp. 153-4.

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